Regra 10
Torcedor inglês também sofre
EDUARDO VIEIRA DA COSTA
Editor de Esporte da Folha Online
Ligo para um dos muitos "secadores" do São Paulo na segunda-feira (19). Antes mesmo que possa perguntar qualquer coisa, ouço do outro lado:
- O São Paulo já chegou?
- Já. Está a maior festa na cidade.
- Que raiva!
Na verdade, do outro lado da linha estava muito mais do que um "secador". Eu falava com o inglês Tim Brightwell, 48, que mora no Brasil há oito anos e é um legítimo torcedor do Liverpool.
O primeiro contato veio antes, por e-mail. A iniciativa foi de Tim. "Não quer publicar um texto sobre o sofrimento de um inglês torcedor do Liverpool que mora aqui no Brasil?" Não só aceitei a proposta como acabei batendo um ótimo papo sobre futebol com o britânico.
Para quem acredita que a torcida da equipe inglesa não estava nem aí para o Mundial da Fifa, Tim prova que o troféu despertou interesse real. "Estava torcendo muito. O Liverpool nunca foi coroado campeão do mundo."
De fato, a segunda edição do Mundial sob a chancela da Fifa foi tratada com seriedade pelo Liverpool. Pelo menos foi o que pareceu vendo os esforços desesperados do time em campo contra os são-paulinos --não dá para esquecer a expressão de desolação de Gerrard após a partida.
Tim, que entende muito de futebol, esclarece que nos últimos anos as disputas no Japão ganharam força entre os europeus. "Antigamente só dava notinha de rodapé nos jornais. Os jogadores só iam ao Japão para fazer compras e folia."
Junto com o interesse, vem o sofrimento. O do inglês aumentou gradativamente durante o jogo. "Foi como Brasil x Argentina na Copa de 1990. Só deu Brasil e a Argentina fez 1 a 0", exemplificou.
Veio então o primeiro gol anulado. Tudo certo para Tim. O segundo. Surge uma desconfiança. No terceiro, como bom torcedor, ele não teve dúvida. "Não havia impedimento. Uma imagem da BBC prova."
O juiz, porém, anulou também este. E Tim sofreu novo revés. O que veio à cabeça na hora foi, inevitavelmente, a derrota da Inglaterra para o Brasil por 2 a 1 na Copa-2002. "Daquela vez foi pior. Estava com cinco amigos ingleses e quisemos fazer festa na varanda quando saiu o 1 a 0. Aí jogaram rojões na nossa casa", conta Tim, hoje divertindo-se com a situação.
"Desta vez, assisti ao jogo quietinho, em casa, junto a outro amigo torcedor do Liverpool. Mas não adiantou. Depois do jogo, foi aquela enxurrada de e-mails."
No final da conversa, Tim revela um surpresa. Por curiosidade, pergunto para qual time ele torce no Brasil. "Sou fã de futebol", responde o inglês, esquivando-se. Insisto, e ele confessa. "Sou torcedor do São Paulo, mas não sei se vou ser mais", diz, rindo. "Antes de tudo o Liverpool!"
O jornalista Tim Vickery escreveu em sua coluna, na BBC, que Paulo Autuori, técnico do São Paulo, é não só um dos treinadores "top" do país como também um dos homens decentes do futebol brasileiro. Ele elogiou muito uma palestra de Autuori a que assistiu no Brasil, na qual o técnico afirmou que o futebol deve se desenvolver em harmonia com a sociedade, e não virar uma guerra. Mas Vickery também criticou o estilo de jogo do São Paulo, que para ele acabou com a idéia de que o jogo dos brasileiros se preocupa mais com a diversão do que com o resultado.
Estatística não ganha jogo. Nenhuma novidade. Mas os números de São Paulo x Liverpool, segundo o Datafolha, impressionam demais. Finalizações: Liverpool 19 x 4 São Paulo. Escanteios: Liverpool 17 x 0 São Paulo. Cruzamentos: Liverpool 49 x 7 São Paulo. Lançamentos: Liverpool 31 x 10 São Paulo. Jogadas de linha de fundo: Liverpool 34 x 1 São Paulo. Em um fundamento defensivo, o São Paulo levou vantagem: 166 desarmes contra 158 do rival.
Regra 10 entra em uma pequena folga e volta a ser publicada no dia 13 de janeiro de 2006. Um abraço e bom fim de ano a todos.
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Eduardo Vieira da Costa, 32, foi repórter do diário "Lance" e da Folha Online, onde atualmente é editor de Esporte. Escreve a coluna Regra 10, semanalmente, às sextas-feiras, além de comentar futebol em podcast neste mesmo dia. E-mail: eduardo.vieira@grupofolha.com.br |

