Regra 10
Só falta o Juninho Pernambucano
EDUARDO VIEIRA DA COSTA
Editor de Esporte da Folha Online
O zagueiro Júnior Baiano puxa a fila de jogadores que desfilam, pulam e gritam "é campeão" carregando o troféu. Em volta, a confusão lembra menos uma festa de título do que uma praça de guerra. Eurico Miranda incentiva os atletas a uma "volta olímpica", ao mesmo tempo em que tenta empurrar feridos para fora do gramado e grita com policiais e jornalistas.
Em 30 de dezembro de 2000, fatídico dia em que os alambrados cederam e uma avalanche humana invadiu o campo de São Januário, alguns vascaínos protagonizaram a cena patética descrita acima, festejando a conquista da não menos patética Copa João Havelange antes da hora.
Pelo menos três jogadores, no entanto, destoavam dos demais. Cientes de que, com o jogo interrompido aos 23 minutos do primeiro tempo, com o placar de 0 a 0, nada estava resolvido, Jorginho, Juninho Paulista e Juninho Pernambucano permaneceram de lado, só observando.
Cheguei perto, fugindo da confusão, para perguntar o que eles achavam da situação. Reagiram os três da mesma forma.
- Isso é um absurdo.
Eu já tinha admiração pelo três jogadores pelo que faziam em campo. Mas a partir daquele dia passei também a admirá-los por sua conduta. Não era por menos que Jorginho, um dos melhores laterais-direitos que já vi, tinha conquistado anos antes o título da Copa do Mundo de 1994. O meia Juninho Paulista viria a fazê-lo em 2002.
Torço para que agora chegue a vez do Juninho Pernambucano, para completar o trio. Ele já provou, não só no Brasil como também na França, em que é atual tetracampeão nacional pelo Lyon, que tem futebol de sobra para ser até titular na Alemanha, em 2006. Está inclusive entre os indicados da revista France Football para melhor jogador do continente europeu.
No meu quadrado mágico, o Pernambucano teria lugar garantido. Talvez até como capitão do time. O Brasil teria, assim, além de um excelente meia em campo, um profissional que representa de certa forma a decência no futebol.
Vale lembrar que, até pouco tempo atrás, Juninho era realmente titular de Parreira, jogando pela direita e com o então companheiro de clube Edmílson como primeiro volante --hoje no Barcelona, Edmílson voltou a ser convocado nesta quinta para os amistosos da seleção em novembro e pode reviver a dupla com o amigo.
Talvez por jogar em um país que não tem um dos campeonato mais valorizados da Europa, Juninho pague o preço de não ser incluído pela mídia entre as grandes estrelas de Parreira. Mas, na minha opinião, se o técnico da seleção brasileira vai mesmo escalar um quarteto ofensivo na Copa, ele terá que ser escolhido entre seis jogadores: Ronaldinho, Kaká, Ronaldo, Adriano, Robinho e Juninho Pernambucano.
Ah, e o Júnior Baiano, que puxou a famigerada fila da festa do Eurico, em 2000, também jogou uma Copa e chegou inclusive à final, em 1998. Mas não nos esqueçamos que, além dos sustos provocados pelo jogador ao longo da competição, o Brasil voltou da França com sua pior derrota em Mundiais em todos os tempos. Para nossa infelicidade.
Situação impensável em outros tempos, o Campeonato Italiano viu na última quarta-feira um inédito duelo entre dois goleiros brasileiros, posição em que o país mais demorou para emplacar jogadores no exterior. A Roma, de Doni, venceu a Inter de Milão, de Júlio César, por 3 a 2. No jogo, Doni falhou em uma saída e deixou a bola para Adriano marcar um de seus dois gols. Júlio César, por sua vez, levou um de Totti por cobertura. Mas ambos fizeram também boas defesas.
Nesta semana, o papa Bento 16 recebeu Franz Beckenbauer, compatriota e organizador da Copa do Mundo da Alemanha-2006. Pronto, a Copa está abençoada. E mais: Joseph Ratzinger pode ser o segundo papa na história a ver a seleção de seu país campeã do Mundial. O único que conseguiu isso até hoje foi o italiano Achille Ratti, o Pio 11, que viu a Azzurra vencer em 1934 e 1938. Mas, apesar da aproximação com Beckenbauer, Bento 16 parece não ser grande fã de futebol.
![]() |
Eduardo Vieira da Costa, 32, foi repórter do diário "Lance" e da Folha Online, onde atualmente é editor de Esporte. Escreve a coluna Regra 10, semanalmente, às sextas-feiras, além de comentar futebol em podcast neste mesmo dia. E-mail: eduardo.vieira@grupofolha.com.br |
