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Regra 10

24/03/2006

Futebol e superstição

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EDUARDO VIEIRA DA COSTA
Editor de Esporte da Folha Online

- Eu dei um gole na cerveja, fui ao banheiro, voltei, dei outro gole e depois bati a mão na mesa.
- Está errado. Era um gole, banheiro, mão na mesa e aí sim outro gole. Você estragou tudo. O gol foi culpa sua.

Todo mundo sabe que casos como o descrito acima decidem partidas de futebol. Se um sujeito acredita cegamente no poder de uma cueca da sorte, quem pode duvidar? Uma cueca da sorte não falha. Mesmo se o time perder, a culpa não é da cueca. Provavelmente, algum outro evento agiu contra --sim, uma superstição pode anular outra. O cara estava com a cueca da sorte e o time perdeu, mas foi porque a namorada ligou bem no meio do jogo. Óbvio.

E aí juntam-se tantas crendices --para o bem e para o mal-- que uma rápida associação entre elas pode justificar qualquer resultado. Um grito de gol na hora errada, uma vela, uma panela na cabeça, a disposição das pessoas num sofá, um patuá qualquer. Tudo conta.

Racionalmente, isso parece uma grande bobagem. Afinal, se uns tem suas mandingas a favor de uma equipe, outros tantos tem suas maneiras de ajudar a outra. Ainda mais quando é clássico.

Porém é preciso dizer que a superstição tem efeito apenas individual. No máximo, afeta um pequeno grupo. Assim, cada um tem que encontrar seus próprios métodos de empurrar o time e entender, ao final do jogo, o porquê de um resultado.

Sendo assim, para um certo senhor, o Brasil perdeu a final da Copa de 1998 porque ele não fez a barba. Para um pequeno torcedor, o motivo foi o esquecimento do arroto da sorte durante o intervalo --mesmo tendo ele assistido à primeira etapa do jogo com o boné virado para a frente e a segunda com ele para trás, como mandava a regra. Para um francês, a vitória veio porque ele não esqueceu de mascar um chiclete ao mesmo tempo em que comia azeitona.

Todos os eventos colaboraram igualmente, mas de maneira local e individual. E nenhum deles tem ligação ou interferência sobre o outro.

É claro que os técnicos ainda se preocupam com esquemas táticos, preparação física, motivação, eficiência técnica. Mas, no final, o que decide é a superstição. Até os treinadores sabem disso. Pergunte ao Antônio Lopes ou ao Zagallo.

Não é mais hora de testar ninguém na seleção. Mas, pelo que está jogando hoje, o meia são-paulino Danilo seria nome certo. Ele foi de "morto" a "Zidanilo" e tem sido o principal jogador do time. É o melhor meia em atividade no país.

O Nilmar merece todos os elogios. Mas é impressionante como seu rendimento cai quando Tevez está em campo. Sem o argentino a seu lado, o atacante brasileiro fez suas melhores partidas pelo Corinthians.

Eduardo Vieira da Costa, 32, foi repórter do diário "Lance" e da Folha Online, onde atualmente é editor de Esporte. Escreve a coluna Regra 10, semanalmente, às sextas-feiras, além de comentar futebol em podcast neste mesmo dia.

E-mail: eduardo.vieira@grupofolha.com.br

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