Regra 10
Quem não se lembra do Ronaldinho?
EDUARDO VIEIRA DA COSTA
Editor de Esporte da Folha Online
Não tenho uma memória muito boa para jogos de futebol, o que é uma pena. Gostaria de conseguir me lembrar com clareza de jogos do passado, citar quem fez os gols, quem jogou mal, quem acertou uma bola na trave. Não consigo. E tem gente que diz até qual foi o dia da semana, se estava chovendo ou não, quem apitou...
Talvez por isso mesmo eu tenha a tendência de achar sempre que os craques atuais são melhores do que os do passado. E isso é considerado heresia para a maior parte dos amantes do futebol, quase sempre saudosistas.
Minhas lembranças de Copa do Mundo começam a partir do Mundial da Espanha-1982. E são parcas lembranças. Tudo que guardo na memória é que havia bastante euforia e que eu ainda não tinha aprendido a escrever. Lembro também que eu tinha uma tabela dos jogos da Copa fornecida por um posto de gasolina.
Como não podia colocar os resultados sozinho, pedia ajuda. O detalhe curioso é que eu pedia que anotassem 10 x 0 para o Brasil em todos os jogos. Parecia justo para mim. Desta forma, na minha tabela, a seleção foi campeã com recorde gols marcados e sem ser vazada nem uma única vez. Paolo Rossi? Quem é?
Os Mundiais seguintes eu pude acompanhar melhor. Se bem que do México-1986, quando eu tinha nove anos, o que tenho mais vivo na memória não são jogadas, mas sim um desenho do Platini feito por mim e por amigos em um muro. Obviamente não era uma homenagem ao francês, e sim um alvo em que descarregamos nossa raiva. Eu sei que parece meio violento, mas naquele dia eu confesso que acertei uma pedrada bem na cabeça do Platini --ou na parte do desenho que parecia ser a cabeça. Coisa de moleque.
Enfim, passaram as Copas e o Brasil só foi vencer em 1994. Para mim, portanto, o melhor jogador brasileiro até então, desde a geração de Pelé, é o Romário. Nada de Zico, Sócrates, Careca. Muito menos outros que nem vi jogar --e que também não ganharam Mundiais.
E, depois da Copa de 2002, Ronaldo entrou definitivamente na minha lista dos melhores da história.
Na Alemanha-2006, o candidato mais forte a entrar no rol dos meus melhores é Ronaldinho. O Tostão escreveu no último domingo, em sua coluna na Folha, que ele já é para ele o segundo melhor de todos os tempos, abaixo de Pelé e no nível de Maradona e Garrincha. Independentemente do que fizer na Copa.
Tudo bem que ele já ganhou um título no Japão e na Coréia do Sul e que foi importante na campanha. E tudo bem que ele já provou no Barcelona que é o melhor do mundo na atualidade.
Mas, para mim, ele precisa mostrar na Alemanha a que veio. Ele está no melhor de sua forma, e todos esperam dele as jogadas fantásticas que faz no Barça. É muito bonito o que ele faz na Espanha e todo mundo quer que isso continue, mas o que me importa de fato é ele com a camisa amarela.
Se ele for na Copa o que é no Barcelona, será melhor que o Romário de 1994, melhor que o Ronaldo de 2002 e melhor até do que o Maradona de 1986. E entra na lista dos meus top 3, ao lado de Ronaldo e Romário. Disso eu sei me lembraria no futuro.
Do meio-campo para a frente, minha seleção jogaria com: Emerson, Edmílson, Juninho Pernambucano e Kaká; Ronaldinho e Ronaldo (ou Adriano, se estiver melhor). Parece que o time fica meio penso para a direita por causa de Kaká e Juninho, mas os dois podiam se revezar nas duas bandas do campo. Além disso, Ronaldinho, com liberdade total, ajudaria na armação pela esquerda. E os dois volantões garantiriam a segurança da zaga e a liberdade dos craques que estão lá frente, além de permitirem os avanços dos laterais.
E enquanto Palmeiras e Corinthians vão patinando na Libertadores, o Goiás come pelas beiradas. Três vitórias em três jogos e com um expressivo "sacode" para cima do Newell's Old Boys, atual terceiro colocado do Argentino.
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Eduardo Vieira da Costa, 32, foi repórter do diário "Lance" e da Folha Online, onde atualmente é editor de Esporte. Escreve a coluna Regra 10, semanalmente, às sextas-feiras, além de comentar futebol em podcast neste mesmo dia. E-mail: eduardo.vieira@grupofolha.com.br |

