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Regra 10

03/03/2006

Futebol e cochilo

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EDUARDO VIEIRA DA COSTA
Editor de Esporte da Folha Online

Se existe uma coisa que é tão boa quanto assistir a uma partida de futebol por pura diversão, numa tarde folgada, é tentar assistir a um jogo, não resistir e dar aquela cochilada, diante da TV, esparramado no sofá.

A narração começa a se misturar com sonhos, já não dá muito para perceber o que é realidade. Aí, de vez em quando, você acorda com um grito de gol, tenta ver de quem é, desiste e volta a dormir.

Outra coisa muito legal a respeito do futebol é que o fraco sempre pode vencer o forte, o favorito morre de medo da zebra. E assim o que era verdade absoluta às 16h pode ser pura bobagem às 18h.

Na Quarta-feira de Cinzas, eu soube que a Argentina iria levar a campo pela primeira vez sua versão para o quadrado mágico do Brasil. O quarteto fantástico argentino --que na verdade só existe mesmo para a crônica esportiva brasileira, que se diverte fazendo a comparação-- era formado por Riquelme, Messi, Tevez e Crespo.

Achei um bom quarteto, mas nada que se comparasse ao do Brasil. Fiz uma rápida análise e decretei que o Crespo era meio grosso e que o Riquelme, se fosse tudo isso, estaria num time grande --joga no Villarreal, da Espanha.

Comecei a assistir ao jogo e logo saiu um gol da Croácia.

- Estou falando, esse time não é de nada.

Mas em cinco minutos os argentinos viraram, com duas grandes jogadas de Messi, a primeira servindo Tevez e a segunda com um golaço --Riquelme também teve boa participação no primeiro lance.

E aí pronto. Minhas teorias foram todas por água abaixo. Lembrei-me da má fase de Ronaldo e Adriano e, numa nova análise, acabei concluindo que, pelo atual momento, o quarteto argentino é que era melhor.

Aí veio aquele sono. Fui "pescando" na frente da TV até que cochilei. Acordei um tempo depois com um grito de gol do narrador --alguma coisa no nosso inconsciente sabe que o gol é importante--, mas não consegui ver de quem era.

Despertei completamente com o jogo já no finalzinho --e com o placar em 2 a 2, para meu espanto. O susto maior veio nos acréscimos, com a vitória da Croácia por 3 a 2.

Como é que podia? Em uma cochilada, a Argentina ia de minha nova favorita a candidata a fiasco.

Contas refeitas, o quarteto do Brasil voltou a ser o melhor na minha concepção. Verdade absoluta, até que a seleção conquiste o hexa. Ou pura bobagem, se o time verde-amarelo for quem começar a cochilar, como fez junto comigo a Argentina.

Essa história toda de quartetos só tem efeito para discussões de bar. O argentino começou uma partida pela primeira vez somente na quarta. O brasileiro, com Ronaldinho, Kaká, Ronaldo e Adriano, só foi titular uma vez, na última rodada das eliminatórias --3 a 0 sobre a Venezuela. Na Copa das Confederações, o quadrado tinha Robinho no lugar de Ronaldo. Fora do papel, portanto, não dá para analisar nem um nem outro.

A vitória do Brasil por 1 a 0 teve claramente ajuda do juiz suíço Massimo Busacca. O gol de Ronaldo foi duvidoso. Um gol russo foi anulado erroneamente por impedimento. Um suposto pênalti para o time europeu não foi marcado. Se a coisa seguir esta toada, veremos algo muito parecido com o que vimos em 2002. Vocês se lembram o quanto o Brasil foi beneficiado? Logo na estréia, o sul-coreano Kim Young-joo deu pênalti inexistente em Luizão, além de ter expulsado dois turcos de forma injusta. Nas oitavas-de-final, até hoje ninguém entendeu porque um gol de cabeça de Wilmots foi anulado. E isso fez diferença.

Na rodada de amistosos de quarta-feira, pelo menos Inglaterra, Portugal e, principalmente, Itália mostraram que também são fortes candidatas ao título. A goleada italiana por 4 a 1 sobre a Alemanha mostrou, aliás, que a equipe alemã só tem a favor de si o fato de jogar em casa, o que não representou muita coisa na Copa das Confederações, por exemplo. Mas em 2002 o time germânico também correu por fora.

Eduardo Vieira da Costa, 32, foi repórter do diário "Lance" e da Folha Online, onde atualmente é editor de Esporte. Escreve a coluna Regra 10, semanalmente, às sextas-feiras, além de comentar futebol em podcast neste mesmo dia.

E-mail: eduardo.vieira@grupofolha.com.br

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