Regra 10
Quando a derrota é o melhor
EDUARDO VIEIRA DA COSTA
Editor de Esporte da Folha Online
Se existe uma situação em que perder é melhor do que vencer, é correto um time profissional de futebol entrar em campo com a intenção de sair derrotado? "Quando a fome aperta, a vergonha afrouxa", já disse o sábio Seu Madruga.
E, se já houve casos de equipes que perderam propositadamente para evitar um adversário mais forte (chegando a casos absurdos como o relatado na coluna da semana passada), como impedir um time de perder quando a derrota significa a classificação?
A história a seguir parece até causo, mas não é. No Campeonato Gaúcho de 1978, o regulamento, de tão "esmerado", só faltou contabilizar cartões vermelhos e amarelos como desempate --o Torneio Rio-São Paulo de 2002, por incrível que pareça, fez isso, não nos esqueçamos.
Mas no caso do Gauchão-78, era capaz até que fosse beneficiado aquele que tivesse mais jogadores expulsos.
Uma explicação sobre o formato do campeonato seria mais chata do que um musical de três horas, mais entediante do que um 0 a 0 da seleção de Dunga no Maracanã. Mas acreditem, o regulamento era coisa do capeta.
Para simplificar bem, dá para dizer que eram quatro torneios dentro de um só campeonato, inclusive com nomes distintos: Copa Presidente Rubens Hoffmeister, Copa Governador do Estado, Copa Estado do RS e, finalmente, Copa 60 anos da FGF. E todos os quatro torneios com fórmulas bastante esquisitas.
Os três primeiros torneios tinham fase de classificação, semifinais e finais. Cada um classificava dois times cada para o torneio final.
No primeiro, Grêmio, Internacional, Brasil, Juventude e Caxias não participaram porque disputavam o Campeonato Brasileiro. O Esportivo foi o vencedor e o Novo Hamburgo ficou em segundo lugar. Nos segundo, com todos os times, deu Internacional e Juventude.
Faltava, assim, o terceiro torneio, que classificaria os últimos dois times para o torneio final. E foi aí que aconteceu a confusão.
Na última rodada da fase de classificação, o Grêmio ia enfrentar o Juventude no estádio Olímpico. Duas coisas podiam acontecer. Se perdessem, os gremistas iriam de qualquer forma para as semifinais e classificariam o Juventude. As semifinais seriam formadas então por Grêmio, Caxias, Inter e Juventude. Como os dois últimos já estavam classificados para o torneio decisivo, Grêmio e Caxias automaticamente garantiriam as duas últimas vagas. Ou seja, os mata-matas do terceiro torneio não valeriam para nada.
Se o Grêmio vencesse o Juventude, porém, ou mesmo se empatasse, daria a chance ao Inter de Santa Maria de conseguir a classificação no lugar do Juventude. Aí as semifinais poderiam ser formadas por Grêmio, Caxias, Inter de Santa Maria e Inter, sendo que apenas o Inter já estaria classificado para o torneio final. Os outros três teriam que lutar por duas vagas.
Na prática, uma derrota classificaria o Grêmio e uma vitória poderia deixá-lo fora da decisão do Estadual. Resultado: Grêmio 3 x 4 Juventude.
O técnico do tricolor gaúcho na ocasião, Telê Santana, até tentou despistar sobre a possibilidade de entregar o jogo. Mas acabou escalando vários reservas e juvenis. E os jogadores ainda deixaram o gramado abraçados no final, fazendo reverencias à torcida, como se pedissem desculpas.
Mas aí veio finalmente o torneio final. Após turno e returno entre os seis times, Grêmio e Inter se classificaram para a final, em jogo único. E o Colorado venceu por 2 a 1. De nada adiantou a grande derrota do time de Telê na fase anterior.
Como disse Seu Madruga em outro momento de sabedoria, "o burro empaca perto do trigo".
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No ano anterior, o Grêmio de Telê Santana havia conquistado um título estadual histórico, em cima do Inter. Tão histórico quanto a conquista foi a comemoração do gol do título, de André Catimba. A foto do lance impressiona tanto quanto o vídeo ou mais.
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Em escala muito menor, o Paulista de 1993 proporcionou outro momento bisonho do futebol em sua final. O Corinthians venceu o primeiro jogo contra o Palmeiras por 1 a 0 (quando o Viola imitou o porco). Na segunda partida, o Palmeiras poderia vencer por qualquer placar que mesmo assim haveria prorrogação. Quando o time verde fez 3 a 0, aos 38min do segundo tempo, não valia mais a pena para nenhum dos times tentar atacar, já que o placar seria zerado para a prorrogação --o Palmeiras teria apenas a vantagem do empate. O meia corintiano Neto então colocou o pé em cima da bola, com as mãos na cintura, e ficou parado. Ninguém do Palmeiras foi dar combate. A única alternativa do juiz José Aparecido de Oliveira foi terminar o segundo tempo antes do tempo para começar logo a prorrogação, em que o Palmeiras venceu por 1 a 0. Relembre o jogo.
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Eduardo Vieira da Costa, 32, foi repórter do diário "Lance" e da Folha Online, onde atualmente é editor de Esporte. Escreve a coluna Regra 10, semanalmente, às sextas-feiras, além de comentar futebol em podcast neste mesmo dia. E-mail: eduardo.vieira@grupofolha.com.br |
