Regra 10
Democracia e Obama corintianos
da Folha Online
Toda essa história de Obama eleito presidente dos Estados Unidos, de vitória dos Democratas e de comoção mundial me lembrou de uma outra democracia. Principalmente depois que o Lula disse, em tom de brincadeira, que o novo mandatário norte-americano é corintiano.
Nos EUA, quem governava era o republicano conservador Ronald Reagan. No Brasil, o presidente era o general João Baptista de Oliveira Figueiredo, último da ditadura militar. E, no Corinthians, quem mandava era todo mundo. Ou ninguém.
De 1981 a 1985, a Democracia Corintiana vigorou no Parque São Jorge. Em um país que não era de fato uma democracia, um movimento esportivo-ideológico como aquele não era pouca coisa. Seria inimaginável se não tivesse acontecido de verdade.
Liderado por jogadores altamente politizados, como Sócrates, Wladimir e Casagrande, e com o respaldo de dirigentes como o presidente Waldemar Pires, o diretor de futebol Adílson Monteiro Alves e o publicitário Washington Olivetto, o movimento mudou totalmente a estrutura do clube.
Literalmente, acabou a ditadura. Basicamente, o sistema funcionava por meio de votações. Tudo era decidido desta forma, desde novas contratações e demissões até concentrar ou não o time e escalações para os jogos. Todos, desde o goleiro reserva até o presidente, tinham o mesmo peso nas votações.
Por si só, esse conceito já desafiava o poder, mostrando a todo o país que era possível haver uma verdadeira democracia, com a participação de todos e o direito a decidir sobre os próprios rumos.
Para ajudar, jogadores como Zenon, Zé Maria, Ataliba, Biro-Biro e outros, além dos cabeças do movimento, fizeram a coisa funcionar dentro de campo e conquistaram o bicampeonato paulista em 1982 e 1983, legitimando o movimento.
Mas a Democracia Corintiana não ficou só nisso. Além das mudanças radicais na estrutura do poder do clube, os jogadores e diretores se envolveram diretamente na luta para tornar o país uma democracia, fazendo campanha aberta pelas eleições diretas para presidente.
A ponto de os jogadores entrarem em campo com frases de cunho político estampadas nas camisas, como "Diretas Já", "Eu quero votar para presidente", "No dia 15, vote" (às vésperas da eleição para governador de 1982) ou, simplesmente, "Democracia".
Faixas pedindo liberdade eram carregadas pelos jogadores quando entravam em campo e os discursos nas entrevistas muitas vezes deixavam de lado a bola para tratar de política.
Infelizmente, o esforço acabou não rendendo as eleições diretas, vetadas em 1984. No mesmo ano, Sócrates saiu do Corinthians para jogar na Itália. Depois, Casagrande saiu para o São Paulo. E, finalmente, Adilson Monteiro perdeu nas eleições para a presidência do clube para Roberto Pasqua em 1º de abril de 1985. Fim da Democracia Corintiana. Mas não da democracia.
Está aí o Obama "corintiano", primeiro negro a assumir a Casa Branca. Não é pouca coisa. Inimaginável se não fosse verdade.
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Símbolo da Democracia Corintiana, Walter Casagrande Júnior faz falta como comentarista, talvez o melhor da TV aberta. Casagrande era o menos chapa-branca dos comentaristas da Globo. Sua volta deve acontecer em breve, depois do período de um ano em uma clínica de reabilitação para dependentes de drogas. Quem viu ou leu as entrevistas recentes do Casão sabe que o negócio foi barra pesada. Mas, felizmente, parece que agora já está tudo certo.
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Eduardo Vieira da Costa, 32, foi repórter do diário "Lance" e da Folha Online, onde atualmente é editor de Esporte. Escreve a coluna Regra 10, semanalmente, às sextas-feiras, além de comentar futebol em podcast neste mesmo dia. E-mail: eduardo.vieira@grupofolha.com.br |

