Regra 10
Defesa de Marcos
EDUARDO VIEIRA DA COSTA
Editor de Esporte da Folha Online
Futebol muitas vezes pode acabar ficando chato e desinteressante. As novas regras morais e éticas contribuem e muito para isso. Não se pode mais comemorar gols fazendo brincadeiras, não se pode tirar a camisa, não se pode mais dar dribles desconcertantes (o que agora é considerado mau-caratismo), o STJD pune praticamente qualquer coisa que se faça em campo, enfim, é uma chatice sem fim.
Isso não é saudosismo, juro. De fato as coisas estão mudando para pior.
Uma prova disso foi a crucificação do goleiro Marcos pelas subidas ao ataque na derrota do Palmeiras para o Grêmio. Pura chatice dos reclamões. São essas maluquices que deixam o futebol legal.
O jogo agora vai ser lembrado para sempre como aquele em que o Marcos trocou as mãos pelos pés na justa tentativa de manter seu time na briga pelo título. Sem isso, seria só uma derrota "perdida" no meio de tantas outras na história.
E, no final das contas, as subidas não comprometeram o Palmeiras.
Analisando friamente, é claro que não era necessário ele sair do gol aos 29 minutos do segundo tempo e expor sua meta. Mas deixemos a frieza de lado. Como o próprio goleiro disse depois, era momento de tentar fazer alguma coisa para ajudar, alguma coisa de diferente.
É isso mesmo que o futebol precisa: Alguma coisa de diferente. Chega de chatice. Chega de profissionalismo a todo custo.
Quem é que não gostava de ver o mexicano Jorge Campos jogando pela seleção de seu país com aquelas camisas espalhafatosas, arriscando-se com a bola nos pés? Ou de ver o Higuita fazer a defesa do escorpião em pleno estádio de Wembley?
O torcedor do São Paulo adora ver o Rogério Ceni bater faltas e fazer gols. A qualquer momento do jogo. E isso não expõe a defesa? Sim, expõe. Por mais que seja tudo bem treinado para minimizar os riscos. Houve uma vez em que ele marcou, contra o Fluminense, demorou para voltar para a meta e acabou sofrendo um gol do meio-campo de Roger.
E daí? O Rogério tem mais é que continuar batendo suas faltas. Porque isso torna o futebol legal.
E o Marcos tem mais é que tentar o gol numa situação como a do jogo contra o Grêmio. Era praticamente uma final para os dois times. Perder não servia. E o setor ofensivo do Palmeiras estava completamente inoperante. Ninguém fazia absolutamente nada. Marcos fez. Ou, pelo menos, tentou.
Mas tanto falaram, tanto reclamaram os chatos que Marcos teve que convocar uma coletiva para se explicar. Pediu desculpas com muita sinceridade, admitiu o "erro".
Não precisava. Não apenas por ele ser o maior goleiro da história do clube, por ter aberto mão de jogar no Arsenal da Inglaterra para ficar defendendo o Palmeiras na Série B do Brasileiro, por ser um dos raríssimos ídolos verdadeiros do futebol nacional atualmente. Mas porque de fato não houve erro nenhum.
Só espero que o STJD não resolva puni-lo por isso.
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A coluna Regra 10 entra em um breve recesso e volta no dia 5 de dezembro.
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Eduardo Vieira da Costa, 32, foi repórter do diário "Lance" e da Folha Online, onde atualmente é editor de Esporte. Escreve a coluna Regra 10, semanalmente, às sextas-feiras, além de comentar futebol em podcast neste mesmo dia. E-mail: eduardo.vieira@grupofolha.com.br |

