Regra 10
Aliens na Rússia
EDUARDO VIEIRA DA COSTA
Editor de Esporte da Folha Online
Seria mais ou menos como se a Ponte Preta anunciasse uma fusão com o São Caetano para formar um único time. Ou como se a Portuguesa se fundisse com o recém-promovido à Série A Barueri. Mais ou menos...
Não aconteceu aqui, mas é realidade na Rússia. Dois times da primeira divisão do futebol do país, o Saturn e o Khimki, anunciaram nesta semana que passarão a ser apenas um na próxima temporada. A justificativa é que a coisa está russa (ok, ok, péssima essa, mas não tive como evitar). É a crise financeira mundial.
É muito difícil encontrar um exemplo, ainda que hipotético, para tentar traçar um paralelo na realidade brasileira. Não existem na Série A do Campeonato Brasileiro atualmente times que sejam do porte de Saturn e Khimki e que sejam da mesma região --ambos ficam em cidades no subúrbio de Moscou.
Nenhum dos dois representa grande coisa na Rússia. Mas o fato é que são dois times da primeira divisão que se unem, o que é um tanto quanto surreal.
O Saturn é um time de relativa tradição, mas que nunca ganhou nada importante. Terminou o Russão-2008 na 11ª posição. É mais conhecido para nós, brasileiros, como o time em que joga o Zelão --aquele Zelão mesmo, que jogou no Corinthians e "ajudou" o time no rebaixamento à Série B.
O Khimki é um clube novo, fundado em 1996, que subiu de divisões meteoricamente. Tem como maior feito ter chegado à final da Copa da Rússia de 2005, a qual perdeu para o CSKA. Neste ano, ficou na 14ª posição no Nacional russo e escapou de ser rebaixado.
A torcida do Khimki obviamente não deve ter gostado de ver o time da cidade "sumir", mas não deve ser tão difícil acostumar o pessoal à idéia, já que era um clube de apenas 12 anos.
Mas difícil deve ser para os seguidores do Saturn. O time foi fundado em 1946, mas já teve outros nomes: Krylya Sovetov (1946-1957), Trud (1958-1959) e Saturn-REN TV (2002-2004).
Na época da parceria com a REN TV, o time tinha o simpático apelido de Teletubbies. Mas o apelido mais legal, e que pegou mais, foi o de Aliens.
No comunicado oficial sobre a fusão, o clube pediu "calma e autocontrole" aos torcedores. E ressaltou que o nome do novo clube continuará sendo Saturn.
Pelo menos fica o consolo de poder continuar torcendo pelos alienígenas.
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Dando uma olhada no último Campeonato Russo, o que mais me impressionou foi a distância percorrida para poder enfrentar certos times. Para pegar o Luch-Energiya, em Vladivostok, um time de Moscou tem que viajar nada menos do que 6.430 km. A distância do Oiapoque ao Chuí, por exemplo, é de cerca de 4.320 km. Se a viagem for feita de trem, pela Trans-Siberiana, a distância percorrida é de 9.300 km. Leva "apenas" sete dias, e passa por sete fusos horários diferentes. Para quem está em Vladivostok, é muito mais perto ir a Tóquio, que está a 1.000 km. E, para quem está em Moscou, é muitíssimo mais fácil ir para Londres, por exemplo, que está a 2.500 km. Para sorte dos times do oeste russo, o Luch-Energiya foi rebaixado.
Neste mapa dá para ter uma idéia.
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Fico imaginando o quanto era bizarro o Campeonato Soviético, que foi disputado de 1936 a 1991. A competição nacional tinha que abranger uma área de nada menos que 22.402.200 km 2. Maior, por exemplo, do que toda a América Latina, que tem 21.069.501 km 2.
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Outro dado interessante. O maior campeão soviético de todos os tempos não foi um time russo, mas sim um ucraniano, o Dínamo de Kiev, com 13 títulos, seguido de perto pelo Spartak Moscow, com 12. Os outros times não-russos que foram campeões soviéticos são o georgiano Dinamo Tbilisi (duas vezes), o armênio Ararat Yerevan e o bielo-russo Dinamo Minsk.
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Eduardo Vieira da Costa, 32, foi repórter do diário "Lance" e da Folha Online, onde atualmente é editor de Esporte. Escreve a coluna Regra 10, semanalmente, às sextas-feiras, além de comentar futebol em podcast neste mesmo dia. E-mail: eduardo.vieira@grupofolha.com.br |
