Regra 10
Battisti e o inimistoso Brasil x Itália
EDUARDO VIEIRA DA COSTA
Editor de Esporte da Folha Online
O jogo da seleção brasileira no próximo dia 10, contra Itália, em Londres, é um amistoso. Ou seja, uma partida para confraternização, disputada entre países amigos. Mas pode virar um inimistoso. Nem tanto por possíveis caneladas dentro de campo, prática tão incentivada pela cultura do catenaccio, o esquema tático italiano do cadeado, que, digamos, dá ênfase à defesa. Mas muito pelos prováveis respingos do caso Cesare Battisti.
Battisti, para quem anda meio por fora do noticiário, não é nenhum zagueirão italiano.
Simplificando (e muito) a história toda, trata-se de um ex-ativista de esquerda condenado a prisão perpétua na Itália como terrorista pelo assassinato de quatro pessoas. Preso no Brasil, ele ganhou status de refugiado político. Isso gerou uma grave crise diplomática entre as duas nações. Um parecer final sobre a extradição exigida pela Itália ainda será dado pelo Supremo Tribunal Federal brasileiro.
Não sendo Battisti um craque da Azzurra, isso tudo deveria passar longe das páginas esportivas. Mas na Itália, como no Brasil, futebol é tão importante como política. E as reações a quase tudo, lá como cá, são apaixonadas.
E assim não faltaram defensores de um boicote ao amistoso contra o Brasil, em represália ao abrigo dado ao ex-guerrilheiro. Entre eles até mesmo o subsecretário italiano de Relações Exteriores, Alfredo Mantica.
Um artigo publicado no "il Giornale", de autoria de Angelo Mellone, dá uma ideia de quão indignados ficaram os italianos com a atitude do ministro da Justiça brasileiro, Tarso Genro, de conceder refúgio a Battisti. (Leia aqui, em italiano).
O texto, cheio de ironia, afirma que se Genro realmente acredita que Battisti corre risco de ser assassinado na Itália, onde ainda haveria um aparato ilegal de repressão, então o próprio Brasil deveria se recusar a entrar em campo em amistoso contra país tão cruel, fazendo o mesmo que se faria contra a África do Sul do apartheid.
No mesmo "il Giornale", no entanto, Beppe di Corrado assina texto em que dissocia totalmente o futebol de questões políticas e diplomáticas, lembrando que técnicos não são embaixadores e jogadores não são cônsules. E que futebol já é uma coisa bem complicada para ter, ainda por cima, responsabilidade política. (Leia aqui).
Felizmente (pelo menos para o futebol), o governo italiano não deu ouvidos aos mais radicais e confirmou a realização do amistoso. Mas o ministro das Relações Exteriores do país, Franco Frattini, deu o tom de como deverá ser o clima: "Sou um torcedor da seleção italiana e quero que a Itália vença o Brasil. No segundo round venceremos na Suprema Corte".
Ou seja, o jogo tem mesmo tudo para ser o primeiro inimistoso Brasil x Itália.
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Vale lembrar que durante todo o tempo em que Battisti esteve escondido ou refugiado na França nunca um jogo da seleção italiana com os franceses foi cancelado ou ganhou clima político.
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Eduardo Vieira da Costa, 32, foi repórter do diário "Lance" e da Folha Online, onde atualmente é editor de Esporte. Escreve a coluna Regra 10, semanalmente, às sextas-feiras, além de comentar futebol em podcast neste mesmo dia. E-mail: eduardo.vieira@grupofolha.com.br |
