Regra 10
Botou sal na batida de limão
EDUARDO VIEIRA DA COSTA
Editor de Esporte da Folha Online
Chegou em casa outra vez doidão
Brigou com a preta sem razão
Quis comer arroz-doce com quiabo
Botou sal na batida de limão
Deu lavagem ao macaco, banana pro porco, osso pro gato
Sardinha ao cachorro, cachaça pro pato
Entrou no chuveiro de terno e sapato, não queria papo
Vacilão, de Zé Roberto, famosa com Zeca Pagodinho
A epígrafe é dedicada aos vacilões da semana no mundo do futebol, todos eles, que não são poucos, mas em especial ao trio Domingos/Diego Souza/Salvio Spínola e ao zagueiro Pepe.
Dos quatro, é difícil escolher quem levaria o prêmio de vacilão-mor. Vão ter que dividir a "honraria".
Vou tentar começar por ordem cronológica. Seria leviano afirmar com certeza que o Domingos entrou em campo somente para provocar a expulsão do Diego Souza. Mas no mínimo ele entrou para arrumar confusão. Não fosse isso, por que, imediatamente após entrar em campo, ele correria para fungar no cangote de um sujeito que está na lateral de campo, de costas para o jogo, e ali permanecer?
E por que se atirar ao chão com as mão no rosto, rolando como um crocodilo, quando o adversário mal encostou nele? A simulação tinha que ser erradicada do futebol. É um mal do futebol brasileiro. É desonestidade, é má-fé. Pior, é incitação à violência. É feio. Deveria ser motivo de vergonha. Mas tem gente que considera que é malandragem.
Pior: esse é comportamento padrão no Brasil. O certo aqui é simular para tentar levar vantagem, como escrevi tempos atrás em defesa do goleiro Marcos. Mas, desde então, nada mudou.
Mais patético ainda foi ver Domingos sair de campo vibrando como se tivesse conquistado um título, o que indica que de fato ele parece ter conseguido seu objetivo. Poucas vezes vi tamanha comemoração. Logo depois de o juiz ter mostrado o cartão vermelho, o santista já olhou para o banco e deu um sorriso e uma piscada, como quem diz "missão cumprida". Deprimente.
Na Europa não é assim. Os ingleses implicam até com jogadores que caem demais procurando cavar faltas (dive, eles dizem). Simular agressão é impensável. Em 2007, quando o brasileiro Dida, do Milan, fez um teatro na Copa dos Campeões contra o Celtic, bem parecido do Domingos, aliás, foi suspenso pela Uefa. Com justiça.
Mas Domingos não deverá responder no tribunal esportivo por sua simulação. Na primeira denúncia da Procuradoria do TJD, ele não foi citado por isso. Mas sim por ato desleal, por conta de uma suposta cabeçada em Diego Souza.
O que nos leva ao segundo vacilão, o árbitro Salvio Spínola. Na súmula do jogo, ele relata que expulsou Domingos e Diego Souza por darem cabeçadas um no outro. Vi e revi as imagens inúmeras vezes. Não consegui ver a troca de cabeçadas nenhuma vez. Pode ser que essas agressões não tenham sido flagradas por nenhuma câmera --o que me parece improvável. Caso contrário, é má-fé de Sálvio também relatar na súmula um coisa que não aconteceu, que ele inventou. E, se for esse mesmo o caso, a expulsão não tem razão de ter acontecido.
Do terceiro vacilão, Diego Souza, consigo entender a revolta. Mas não a burrice, como ele mesmo classificou o ato de voltar a campo para chutar o rival. Vacilo puro.
Espero muito que o TJD não vacile. Diego merece punição, mas Domingos também merece. E Sálvio, no mínimo, precisa se explicar.
O quarto vacilão da semana é quem mais chega perto do personagem da epígrafe. A impressão que dá é que ficou Lelé.
Após fazer pênalti diante do Getafe, o brasileiro naturalizado português Pepe, do Real Madrid, agrediu o jogador caído com dois chutes covardes. Em seguida, deu um soco em outro rival, que nem mesmo estava tentando ir para a briga.
Se houvesse ali um cachorro, ele com certeza ofereceria uma sardinha --e daria cachaça pro pato.
Mas pelo menos Pepe se arrependeu e pediu desculpas, reconheceu o erro e não se escondeu na demagogia. Cogita até abandonar o futebol.
Vacilar, vacilou. Como qualquer um pode vacilar. Como qualquer um pode ter um momento de loucura. Mas mostrou que não perdeu a razão e a dignidade.
*
Confira a confusão entre Domingos e Diego Souza.
*
Veja a vacilada de Pepe.
*
Ouça Vacilão, com Zeca Pagodinho.
*
Na semana passada, falei que o Twitter do Mano Menezes precisava de duas coisas para ser legal. Conteúdo relevante e regularidade de atualização. Apesar de ter conseguido muitos seguidores, ele não faz nenhuma coisa nem outra. Seu twitter é chato. E, desconfia-se, quem atualiza é sua assessoria. O que seria outro ponto negativo.
*
Veja outras bobagens no meu twitter.
![]() |
Eduardo Vieira da Costa, 32, foi repórter do diário "Lance" e da Folha Online, onde atualmente é editor de Esporte. Escreve a coluna Regra 10, semanalmente, às sextas-feiras, além de comentar futebol em podcast neste mesmo dia. E-mail: eduardo.vieira@grupofolha.com.br |

