Regra 10
Ronaldo a la Michael Jackson
EDUARDO VIEIRA DA COSTA
Editor de Esporte da Folha Online
A capacidade de Ronaldo de chocar é quase insuperável. Talvez fique um pouco atrás de Michael Jackson, já que vai ser difícil que outra pessoa negra apareça branca por aí --ou vice-versa. Mas o atacante corintiano não fica muito atrás.
São muitas as vezes em que ele opta pelo caminho menos provável, pelo inesperado. Não é só sua resiliência que impressiona.
Claro que a capacidade de se reerguer, de sair do limbo e voltar à glória, de calar críticos e de dobrar céticos é notória e ainda espanta, apesar de ele já ter passado por isso três vezes.
Se porventura acontecesse uma quarta lesão grave de joelho (toc, toc, toc, bato na madeira, é claro que ninguém quer isso), quem poderia duvidar de uma quarta volta por cima? Eu não.
Mas, voltando à questão das escolhas e atitudes do jogador, o que me chocou nesta semana foi a notícia de que Ronaldo assinou contrato para ser garoto-propaganda do SBT. É um ato bastante corajoso, para dizer o mínimo. Imagino como isso deve ter desagradado à Globo.
Afinal de contas, é na Globo que a maior parte das pessoas vê os jogos do atacante. Grande parte de sua popularidade se deve à emissora --e não é só pela transmissão dos jogos.
Após o episódio em que ele se envolveu com travestis, por exemplo, a Globo fez uma verdadeira força-tarefa para tentar limpar sua imagem e mantê-lo como ídolo. Ele apareceu em tudo quanto é programa da emissora, sempre dando entrevistas sobre sua importância como ídolo nacional --travestis devidamente omitidos.
Obviamente, o interesse da Globo nisso era econômico. Uma pessoa como ele é garantia de audiência. E era interessante resgatá-lo. Tanto foi que logo após sua chegada ao Corinthians a Globo praticamente monopolizou o jogador. Assim continuou quando ele de fato voltou a jogar e a marcar gols. Só dava ele na Globo. E ele só aparecia na Globo, com raras exceções.
Mas, agora, ele vai aparecer bastante ao lado de Hebe Camargo, Gugu, Celso Portiolli, Ratinho. E, provavelmente, junto a Silvio Santos. Confesso, jamais esperaria isso.
Como também não esperava que ele fosse contratado pelo Corinthians. Afinal de contas, ele estava treinando no Flamengo, é flamenguista declarado, tudo indicava que era na Gávea que ele ficaria.
E, provavelmente, ninguém em Barcelona esperava que, após uma única e espetacular temporada, ele acabasse indo para a Inter de Milão. E o choque foi maior ainda quando ele foi parar no maior rival dos catalães, o Real Madrid. Para não deixar de boca aberta apenas os fãs do Barça, repetiu a dose na Itália --ao voltar ao Calcio, escolheu o arquirrival da Inter, o Milan.
É um sujeito polêmico. Tudo isso sem contar outros escândalos da vida pessoal, flagras em boates, casamentos nababescos, controversos comerciais de cerveja etc.
Ele parece estar sempre na contramão, mas, ao mesmo tempo, sempre no caminho certo.
O certo (!?) é que com Ronaldo não dá para ter certeza de nada. Melhor que ninguém se assuste demais se algo que hoje parece impensável, como ele se transferir para o Palmeiras, por exemplo, vier a acontecer. Ou se ele aparacer com um corte de cabelo estilo samurai, como fez certa vez o Vampeta.
Se cuida, Michael Jackson.
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Sobre a possível volta de Ronaldo à seleção, apesar de o próprio Mano Menezes ter dito que ainda não é o momento, sou a favor. A seleção precisa ter alguma graça. E não tem tido muita. Não acho que o Dunga vai chamá-lo, mas também não seria exatamente um choque se o fizesse. Choque verdadeiro foi a convocação do Afonso Alves. E o interessante é que, depois de ele ter saído da fraca liga holandesa para a Inglaterra, nunca mais foi chamado. Ainda bem, claro. Mas é curioso. Cada um que tire suas conclusões sobre isso. Agora também nem poderia, já que ele quebrou o pé em jogo do Middlesbrough.
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Você se lembra do Bebeto comemorando gol na Copa de 1994 em homenagem ao nascimento do filho, balançando os braços? Esse moleque, o Mattheus, já está com 14 anos e integra a seleção brasileira sub-15, que se prepara para o o Sul-Americano. O tempo passa...
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Eduardo Vieira da Costa, 32, foi repórter do diário "Lance" e da Folha Online, onde atualmente é editor de Esporte. Escreve a coluna Regra 10, semanalmente, às sextas-feiras, além de comentar futebol em podcast neste mesmo dia. E-mail: eduardo.vieira@grupofolha.com.br |
