Regra 10
Brasil vira "Série B" na Europa
EDUARDO VIEIRA DA COSTA
Editor de Esporte da Folha Online
A final da Copa dos Campeões da Europa, a final da Copa da Uefa, as decisões das maiores e mais prestigiadas ligas nacionais europeias e a convocação da seleção brasileira para as eliminatórias da Copa-2010 e a Copa das Confederações permitem uma análise que mostra um fenômeno interessante: o Brasil (ou o pé de obra brasileiro) caiu de nível no exterior.
Começando pela seleção, convocada na quinta pelo Dunga. A julgar pelo que ele vinha escalando, dá para imaginar que o time para a Copa das Confederações, que não deve mudar muita coisa para a Copa do Mundo, será formado mais ou menos com: Júlio César; Maicon, Lúcio, Juan e Kléber; Gilberto Silva, Felipe Melo, Elano e Kaká; Robinho e Luis Fabiano.
Destes 11, apenas quatro jogam em times europeus verdadeiramente grandes, de prestígio, status e história. São eles Júlio César e Maicon (Inter de Milão), Lúcio (Bayern de Munique), Kaká (Milan).
E, destes quatro, apenas Júlio César e Maicon ostentam nesta temporada títulos de ligas nacionais, já que se sagraram campeões italianos com a Inter. O Lúcio também ainda tem chance, mas pequena.
Muito pouco.
Nos três mais prestigiosos campeonatos nacionais do Velho Continente, aliás, são raros os brasileiros que levantaram o troféu --e mais escassos ainda os que se destacaram.
Na Itália, como citado, apenas Júlio César e Maicon fizeram por merecer de fato estar no pôster do título, apesar de Maxwell e Mancini estarem no elenco.
Na Inglaterra, o Manchester United foi campeão sem ter nenhum brasileiro no time base. Anderson e Rafael entraram em número considerável de jogos, mas sem conseguirem vaga cativa, e Fábio e Rodrigo Possebon foram apenas figurantes.
Na Espanha, o Barcelona triunfou com Daniel Alves de titular absoluto, e Sylvinho passou a temporada na reserva.
Muito pouco.
A Copa dos Campeões, principal interclubes europeu e mais badalada competição do mundo, já começou esvaziada de brasileiros, com "apenas" 80 na fase de grupos, contra mais de cem na edição anterior --primeira queda em vários anos seguidos--, e poderá ter uma final sem nenhum atleta brasileiro em campo.
O Manchester United, como já citado, pode tanto ser escalado por Alex Ferguson com Anderson e Rafael como sem nenhum dos dois. E o Barcelona já sabe que não terá Daniel Alves, suspenso --Sylvinho pode aparecer no time, mas não é certeza.
Outra vez, muito pouco.
Já na Copa da Uefa, praticamente a segunda divisão da Copa dos Campeões, os brasileiros fizeram a festa. O Shakhtar Donetsk foi campeão com nada menos do que cinco titulares brasileiros: Willian, Jadson, Fernandinho, Ilsinho e Luiz Adriano. E mais o boliviano-brasileiro Marcelo Moreno na reserva. Batendo na final o Werder Bremen de Naldo e Diego --o meia, suspenso, não jogou.
Aí, não é pouco.
Mas é mais uma prova de que o Brasil hoje é mais "Série B" do que "Série A" na Europa.
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Esses mercados antes considerados alternativos para os brasileiros, como Ucrânia e Rússia, acabam sendo grandes engodos para a maior parte dos jogadores. Não no quesito financeiro, já que de fato eles pagam muito tanto aos clubes e empresários como aos atletas. Mas esses jogadores sempre saem daqui pensando em usar times como Shakhtar, Dinamo de Kiev, Lokomotiv, CSKA, Saturn e afins como trampolim. Só que o salto nunca acontece. De todos os que foram para estas regiões nos últimos tempos, apenas Elano e Jô conseguiram pular para ligas mais atraentes. E mesmo assim, para times de pouco prestígio.
Errata: eu havia incuído o Robinho como jogador que saiu destes mercados, por engano. Desculpem-me pelo ato falho.
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Uma possível explicação é que fica mais barato para um time europeu buscar um atleta direto no Brasil do que comprar jogadores já inflacionados por contratos maiores na Rússia ou na Ucrânia.
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Um exemplo de como esses jogadores podem se dar mal pode ser visto nas declarações do ex-são-paulino Ilsinho em entrevista ao repórter Rafael Reis, da Folha Online, antes da final da Copa da Uefa. O cara simplesmente se mostrou desesperado para deixar o Shakthar Donetsk. O trampolim não funcionou, e a melhor possibilidade vista por ele é esperar acabar o contrato, não renovar de jeito nenhum e voltar ao Brasil.
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Eduardo Vieira da Costa, 32, foi repórter do diário "Lance" e da Folha Online, onde atualmente é editor de Esporte. Escreve a coluna Regra 10, semanalmente, às sextas-feiras, além de comentar futebol em podcast neste mesmo dia. E-mail: eduardo.vieira@grupofolha.com.br |
