Regra 10
Ameaças atômicas e embates ideológicos
EDUARDO VIEIRA DA COSTA
Editor de Esporte da Folha Online
A Coreia do Norte nos proporciona uma volta ao passado. A Guerra Fria acabou faz tempo, mas a turma do ditador Kim Jong-il mantém no noticiário ameaças atômicas e embates ideológicos que caberiam muito melhor em manchetes dos anos 80 ou 70. Melhor ainda, 60.
Não bastasse isso, os norte-coreanos conseguiram agora emplacar o retorno da rivalidade também nos gramados de futebol. Até 1990, qualquer jogo de Copa do Mundo entre países de lados opostos da Cortina de Ferro, que dividia a Europa em duas áreas de influência, era antes de tudo um jogo político.
Com a classificação da Coreia do Norte para a Copa do Mundo de 2010, o comunismo vai voltar a campo --neste caso, literalmente.
A China participou da Copa-2002, e inclusive enfrentou o Brasil na primeira fase, mas nem de longe foi a mesma coisa. Os chineses sofrem com a ditadura, com a linha dura do governo, com as restrições políticas, mas no contexto econômico internacional a China é um país capitalista. A ameaça que a China oferece ao mundo ocidental é outra.
Já um possível jogo da Coreia do Norte contra os Estados Unidos no Mundial-2010, por exemplo, terá cores muito mais contrastantes do que possa indicar a coincidência do azul, vermelho e branco nas duas bandeiras.
Kim Jong-il já deixou claro que considera os EUA um inimigo e que está pronto para a batalha. Mais: em resposta às sanções internacionais contra seu teste atômico, disse que considerará qualquer "bloqueio" contra seu programa nuclear como "um ato de guerra".
Se um confronto com os EUA poderia ser uma volta ao passado no que diz respeito aos embates ideológicos no futebol, o que dizer de um possível jogo com a Coreia do Sul?
Seu vizinho, que também é seu alvo preferido para ataques com mísseis, também está classificado para a Copa da África do Sul.
Assim, esta será a primeira vez que o Mundial de futebol terá duas seleções de um país rachado desde o Mundial de 1974, quando jogaram Alemanha Ocidental e Alemanha Oriental. Duas Alemanhas, duas Coreias, diria Humberto Gessinger numa letra oitentista de gosto para lá de duvidoso.
Para a Copa do Mundo da Alemanha-2006, chegou a ser discutida a possibilidade de as Coreias jogarem com time único. Mas o plano foi por água abaixo porque o time do norte não se classificou.
Mas agora que conseguiu sua vaga, o regime comunista de Pyongyang não vai abrir mão de tentar mostrar sua força por nada. Afinal, como comprova a história, o que pode ser melhor que o futebol para legitimar uma ditadura perante o povo?
Como eu dizia lá em cima, a Coreia do Norte nos leva de volta aos anos 80, 70, 60...
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Hoje, o clima entre as Coreias é bem diferente daquele que proporcionou desfiles conjuntos nas aberturas dos Jogos Olímpicos de Sydney-2000 e Atenas-2004. Em Pequim-2008, com as relações já prejudicadas pela questão nuclear, ficaram separadas.
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Em sua única participação em Copas do Mundo na história, na Inglaterra-1966, a Coreia do Norte fez bonito. Na primeira fase, perdeu para URSS, empatou com o Chile e venceu a Itália. Classificada para as quartas-de-final, pegou o fortíssimo time de Portugal, que tinha Eusébio. Os norte-coreanos chegaram a estar na frente com 3 a 0 no placar, mas tomaram uma virada incrível: 5 a 3.
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O confronto que poderia ser o mais explosivo dos últimos tempos em Copas foi EUA x Irã, na França 1998. Os iranianos venceram por 2 a 1, mas o clima foi pacífico. Antes da partida, o goleiro do Irã deu um buquê de rosas a uma torcedora norte-americana.
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Eduardo Vieira da Costa, 32, foi repórter do diário "Lance" e da Folha Online, onde atualmente é editor de Esporte. Escreve a coluna Regra 10, semanalmente, às sextas-feiras, além de comentar futebol em podcast neste mesmo dia. E-mail: eduardo.vieira@grupofolha.com.br |
