Regra 10
Bobby, Ronaldo e Romário
EDUARDO VIEIRA DA COSTA
Editor de Esporte da Folha Online
Dirão os ingleses que os maiores feitos da carreira de Sir Bobby Robson, que morreu no último dia 31 de julho, aos 76 anos, foram os improváveis títulos da Copa da Inglaterra e da Copa da Uefa comandando o modesto Ipswich Town, em 1978 e 1981. Ou os troféus levantados como técnico do PSV, do Porto ou do Barcelona.
Mas Robson teve também em seu currículo algo que não se guarda na estante, mas que é uma honraria que nenhum outro técnico do mundo alcançará. Ele teve o privilégio de ter sob seu comando, em momentos distintos, os dois maiores centroavantes da história do futebol, Romário e Ronaldo. Tanto um quanto o outro no auge de suas carreiras.
E teve o mérito de saber lidar com ambos, sendo decisivo na carreira dos dois.
Quando chegou para treinar o PSV Eindhoven, Romário já era o "dono" do time holandês. O elenco era vencedor, mas estava rachado e Romário fazia o que queria. Robson tinha a missão de unir a equipe, acabar com animosidades e dar um jeito nos indisciplinados.
Mas o Baixinho bateu de frente com o novo técnico. Segundo o próprio Robson, o atacante faltava a treinos, reclamava do posicionamento pedido, encrencava com tudo. Na Inglaterra, não havia nada disso. "Um profissional inglês aceita a decisão do técnico", reclamava Robson.
Ele resolveu então usar Frank Arnesen, seus assistente, como tradutor em conversas particulares com o craque. O tete-a-tete não adiantou nada.
Mas em vez de punir Romário com o banco, o que certamente traria dores de cabeça ainda maiores, Robson levou a situação em banho-maria, tentando ser conciliador. Afinal, sem Romário o time não era grande coisa.
Com o atacante em campo, jogando muito bola, foi duas vezes campeão holandês, em 1990/91 e em 1991/92. Anos depois, ele admitiria em livro que Romário foi um dos personagens mais difíceis com quem teve que lidar na vida, mas que também foi um dos futebolistas mais geniais que já havia encontrado.
Com Ronaldo, a situação foi bastante diferente. Quando foi convidado para assumir o Barcelona, em 1996, após passagem vitoriosa pelo Porto, Robson disse que só aceitaria se levassem também um jovem brasileiro que estava brilhando justamente no PSV.
Ronaldo tinha então 20 anos. Para aconselhá-lo, Robson usava seu assistente, que falava português. Era José Mourinho, hoje técnico da Inter de Milão.
De acordo com relatos de Robson, Ronaldo ouvia tudo o que Mourinho falava. Em texto publicado pelo "Daily Mail" em 2007, o técnico escreveu que "Ronaldo não queria saber de mulheres, de discotecas, de brincos, de carros. Ele precisava ser um grande jogador, e por isso escutava o que José [Mourinho] dizia".
Hoje está provado que Ronaldo, mesmo com carros, mulheres e baladas, continua genial. Mas nada vai se comparar ao Ronaldo de 1996/97.
O dinheiro que Bobby Robson fez o Barcelona pagar pela então jovem promessa valeu, e muito, a pena. Mesmo que ele tenha ficado pouco tempo no clube.
Foi apenas uma temporada, mas três troféus foram levantados --Supercopa da Espanha, Recopa europeia e Copa do Rei. Em 49 jogos, ele fez 47 gols. Foi eleito o melhor do mundo pela Fifa em 1996 e 1997.
Em seguida, foi vendido para a Inter de Milão, o que ainda gerou um grande lucro para o clube catalão. Tudo graças a Robson.
Já aposentado, o treinador foi questionado sobre qual jogador foi o melhor que teve sob seu comando. Mesmo tendo treinado craques do futebol mundial como o próprio Romário, Luis Figo, Gary Lineker, Ruud Van Nistelrooy, Alan Shearer, Patrick Kluivert etc, Robson não titubeou: Ronaldo.
Em suas palavras: "Ronaldo era magro, agressivo, tão rápido quanto um velocista olímpico. Alguns dos gols que ele marcou me fizeram balançar a cabeça em descrença".
Ronaldo e Romário dobraram a lenda. O técnico e jogador que recebeu a Ordem do Império Britânico e o título de cavaleiro por seus feitos.
Diz-se na Inglaterra que, quando ele falava, todos paravam para escutar. Quando Ronaldo e Romário jogavam, ele parava para assistir.
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Veja como eram Robson, Mourinho e Ronaldo na época do Barcelona.
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Robson e Mourinho festejam golaço de Ronaldo. Veja todos os gols de Ronaldo no Barcelona.
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Um pouquinho de Romário no PSV.
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Como jogador, Bobby Robson não conquistou nenhum título. Mas fez 20 jogos pela seleção entre 1957 e 1962, com quatro gols, e participou da Copa da Suécia-1958. Jogaria também no Chile-1962, mas se machucou.
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Apesar de não ter conquistado nada com a seleção inglesa como técnico, ele levou o time às quartas-de-final no México-1986 (perdeu para a Argentina, com os clássicos gols de Maradona, um de mão e outro partindo do meio-campo). Em 1990, levou o English Team às semifinais, quando caiu para a Alemanha nos pênaltis --melhor resultado desde o título de 1966.
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Bobby Robson falhou em tentar classificar a seleção inglesa para a Eurocopa-1984. Mas neste ano conseguiu um feito curioso. Venceu o Brasil por 2 a 0, em amistoso no Maracanã, feito inédito --jamais os ingleses haviam batido a seleção brasileira no Brasil.
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Eduardo Vieira da Costa, 32, foi repórter do diário "Lance" e da Folha Online, onde atualmente é editor de Esporte. Escreve a coluna Regra 10, semanalmente, às sextas-feiras, além de comentar futebol em podcast neste mesmo dia. E-mail: eduardo.vieira@grupofolha.com.br |
