Regra 10
E esse Defederico, hein?
EDUARDO VIEIRA DA COSTA
Editor de Esporte da Folha Online
Conversas sobre futebol só perdem para considerações sobre o clima nos encontros casuais, em geral bastante constrangedores, nas padarias, em volta de bebedouros, em cafés ou, especialmente, nos elevadores. Pelo menos com os homens costuma ser assim.
Se o sujeito não tem absolutamente nada o que dizer, quase sempre saca um "Será que vai chover?" ou um "Está quente hoje, não?". A variante futebolística vem na forma de "E o Bonsucesso, hein?".
No lugar de Bonsucesso é possível colocar o nome de qualquer outro time. E assim está garantida a interação social desnecessária.
A vantagem da opção pelo futebol em detrimento do clima é que as respostas costumam ser menos monossilábicas. Talvez porque todo mundo é comentarista esportivo, mas pouca gente é um galinho do tempo.
Se há algum jogador que está em destaque, a questão pode ser mais específica: "E o Didico, hein?"
Um "Didico" que tem estado muito presente nas conversas casuais dirigidas a mim nos últimos tempos é o Defederico, novo reforço do Corinthians.
Já perdi as contas de quantas vezes ouvi algo como "E esse Defederico, hein?".
A dúvida é muito natural. O argentino chega com muita fama, com rótulos de novo Messi, novo Tevez e o escambau. Existem textos espalhados pela internet que colocam o jogador como craque. Elogios na Argentina, na Itália, na Espanha --e no Brasil, claro.
Mas a carreira dele é curtíssima. Ele fez apenas 29 jogos pelo Huracán. Marcou no total cinco gols. Segundo a imprensa argentina, foi destaque do time na conquista do vice-campeonato do último Torneio Clausura.
Mas quem é que viu? Fora os argentinos, é claro, quem é acompanhou de verdade os jogos do Huracán?
Para a pergunta casual sobre o Defederico, portanto, dou sempre minha resposta casual já preparada. "Só vi pelo Youtube."
E pelo que vi no Youtube, posso dizer que parece que joga muito. Parece de fato o novo Messi. Mas, obviamente, esses vídeos são compilações de melhores jogadas. Estão ali todos seus cinco gols pelo Huracán e mais um marcado pela seleção argentina na única vez que foi convocado pelo Maradona. E mais um monte de assistências. Tudo muito bonito.
Quando a conversa casual se estende, em geral respondem que no Youtube qualquer um é bom. Verdade. Pelo menos meia verdade. Porque se o cara não faz jogadas boas, não há como compilá-las. Mas de fato é fácil fazer um cara mais ou menos se passar muito bom num vídeo.
O que leva a crer que não é o caso é a euforia da imprensa argentina com o jogador. As comparações com Messi começaram justamente nos jornais do país vizinho.
É difícil acreditar que de fato ele seja um novo Messi. O meia-atacante do Barcelona é um fenômeno. Não dá nem para apostar em um desempenho como o de Tevez. Se ele chegar perto do que fez Carlitos, já vai ser grande lucro para o Corinthians.
Só não pode ser um novo Sebá. Se for, haja edição no Youtube.
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Falando em Sebá, fiquei surpreso ao saber que ele seria titular da seleção argentina contra o Brasil nas eliminatórias. Ele acabou de ser campeão argentino com o Vélez Sarsfield, superando justamente o Huracán de Defederico.
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Sobre o estilo de jogo de Defederico, pelo pouco que dá para ver no Youtube, não parece que ele seja substituto para o Douglas. Ele tem um estilo de mais velocidade e de mais chegada no ataque, com muitos dribles. Parece mais atacante do que meia, caindo pelos lados do campo, mais pelo direito. Confira aqui.
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A explosão de Defederico no Clausura do Argentino tem bastante a ver com o Botafogo. O clube do Rio tentou contratar o jogador no ano passado e quase conseguiu. Depois do assédio, ele virou titular do time e se firmou. Curiosidade: segundo o dirigente botafoguense Ricardo Rotenberg, Defedrico chorou com ele ao telefone ao saber que o negócio não daria certo.
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Mais choro: antes de o jogador acertar com o Corinthians, o técnico do Huracán, Angel Cappa, disse que Defederico chorou emocionado em sua frente e afirmou que não sairia do clube.
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Muitos dizem que o melhor jogador do Huracán na campanha do vice no Clausura era, na verdade, Javier Pastore, que foi negociado com o Palermo.
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Eduardo Vieira da Costa, 32, foi repórter do diário "Lance" e da Folha Online, onde atualmente é editor de Esporte. Escreve a coluna Regra 10, semanalmente, às sextas-feiras, além de comentar futebol em podcast neste mesmo dia. E-mail: eduardo.vieira@grupofolha.com.br |

