Colunas

Regra 10

11/09/2009

A zaga de Charles Miller a Dunga

Publicidade

EDUARDO VIEIRA DA COSTA
Editor de Esporte da Folha Online

O estereótipo foi formado ao longo de mais de um século. Desde que Charles Miller voltou ao Brasil da Inglaterra, em 1894, trazendo na bagagem duas bolas de football, o abrasileirado futebol desenvolveu seu ataque tanto quanto os japoneses desenvolveram tecnologia e relegou zagueiros e defensores a segundo plano mais do que os chineses desprezaram a democracia.

Futebol brasileiro é sinônimo de dribles, golaços, tudo em meio a muito samba e displicência. Pergunte a qualquer inglês ou alemão.

Ingleses ou alemães menos desavisados dirão que isso é apenas uma ideia concebida por quem não tem conhecimento real do futebol brasileiro --ou pelo menos do que tem sido praticado pelo país nas últimas décadas.

Japoneses e chineses, estes últimos caso não tenham TV ou internet censurada, poderão ir além e dizer até mesmo que o ponto mais forte dos brasileiros é a defesa.

Se nenhum deles disser isso, o próprio Dunga dirá. Pois não é que o setor mais sólido da seleção brasileira, hoje, é a zaga?

As críticas ao trabalho de Dunga aos poucos vão rareando, estão quase sumindo. As que ainda brotam aqui e acolá jamais se referem aos zagueiros.

Com Lúcio e Juan, o Brasil parecia ter encontrado verdadeiros baluartes inexpugnáveis. Na ausência de Juan, Luisão, outrora alvo de inúmeras críticas, mostrou-se outro bastião da muralha brasileira nas últimas rodadas das eliminatórias. Melhor: bons nomes como alternativa não faltam.

Ninguém ousará dizer que o Brasil tem problemas na defesa. Pelo menos não na zaga, especificamente. Com boa parcela de mérito para o goleiro Júlio César, a defesa brasileira é a menos vazada do classificatório sul-americano. Foram apenas nove gols sofridos nos 16 jogos realizados até agora.

Nos 48 jogos com Dunga à frente da seleção principal no total, o Brasil sofreu 34 gols.

Então japoneses, ingleses ou quaisquer outros já poderiam dizer que a seleção brasileira virou sinônimo de boa defesa. Afinal, é só pensar em um jogador brasileiro e já vem à cabeça um zagueirão, não é? Não é.

Isso porque, apesar de o setor defensivo ter sido o que teve mais evolução no país nas últimas décadas, o ataque nacional continua funcionando como nenhum outro no mundo --e sustentando o estereótipo.

Assim como tem a melhor defesa das eliminatórias, a seleção tem também o melhor ataque, com 32 gols marcados. E se sofreu 34 gols em 48 jogos desde o início da Era Dunga, o time também marcou nada menos do que 104.

Um chinês esperto ou um alemão atento dirá que o sucesso do futebol brasileiro vem, desde muito tempo, do equilíbrio. Foram-se os tempos em que atacante bom era o brasileiro e zagueiro bom era o argentino, se é que existiram.

Com todo respeito à genial crônica de Luís Fernando Veríssimo, talvez tenha chegado o momento em que todos estão satisfeitos com nossa zaga. Talvez não viveremos eternamente a privação do zagueiro absoluto.

*

Dizer que os zagueiros brasileiros evoluíram muito nem de longe significa que acabaram os zagueiros presepeiros. Símbolo maior desta classe, Domingos foi afastado do Santos depois de quebrar a perna de um colega, o goleiro Rafael, em um treino. Antes, já havia arrancado um dente do atacante Kléber Pereira e arrebentado o joelho do lateral Bruno em Disputas de treino. Jogadores mais jovens estavam até com medo de chegar perto dele, relatam reportagens. Além de não jogar nada, já fez outras bobagens piores. Ponto fora da curva.

*

Juan não ficou nem no banco contra a Argentina e foi reserva de André Dias e Miranda contra o Chile. Machucado ele não está. Então porque não jogou? Se não estava bem fisicamente, que é a única explicação, por que foi convocado? Muito estranho.

*

O nome que pegou por aqui foi futebol, mas no início do século passado o filólogo Antônio de Castro Lopes tentou emplacar uma versão "traduzida" do vocábulo, chamando o esporte bretão trazido por Charles Miller ao Brasil de ludopédio. Não pegou, assim como todas as outras versões aportuguesadas, como pebol, balípodo, pedibola e bodabolismo.

*

Mais no Twitter.

*

Blog 2 x 1

Eduardo Vieira da Costa, 32, foi repórter do diário "Lance" e da Folha Online, onde atualmente é editor de Esporte. Escreve a coluna Regra 10, semanalmente, às sextas-feiras, além de comentar futebol em podcast neste mesmo dia.

E-mail: eduardo.vieira@grupofolha.com.br

Leia as colunas anteriores

FolhaShop

Digite produto
ou marca