Comida
16/10/2009 - 08h00

Sucesso entre as refeições rápidas, "dogão" chegou ao Brasil há 80 anos; leia trecho

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da Folha Online

O Dia Mundial da Alimentação, comemorado nesta sexta-feira (16), lembra a criação em 1945 da FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação). No Brasil, o historiador, antropólogo e folclorista Luís da Câmara Cascudo (1898-1986) se dedicou ao estudo da culinária nacional, influenciada por indígenas, africanos e portugueses.

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Cachorro-quente chegou ao Brasil no fim dos anos 20, relata Câmara Cascudo
Cachorro-quente chegou ao Brasil no fim dos anos 20, relata livro de Câmara Cascudo

No clássico "História da Alimentação no Brasil" (1967-1968), reeditado pela Global Editoral, o leitor encontra em mais de 950 páginas histórias e curiosidades sobre a cozinha adotada no país. Um dos capítulos revela como o cachorro-quente, um dos lanches mais consumidos hoje pelos brasileiros, chegou ao Brasil, há 80 anos. Em São Paulo, virou uma refeição de rua no comércio popular, vendido em vans com chamativas faixas anunciando o produto ("dog", "dogão", "prensado"). Segundo o livro, o cachorro-quente surgiu em Frankfurt, na Alemanha, em 1852.

Leia abaixo trecho do livro.

Atenção: o texto reproduzido abaixo mantém a ortografia original do livro e não está atualizado de acordo com as regras do Novo Acordo Ortográfico. Conheça o livro "Escrevendo pela Nova Ortografia".

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Pesquisando sobre merendas e aperitivos não é dispensável a lembrança de duas entidades prestigiadas pela predileção coletiva: o sandwich e o hot-dog, o famigerado cachorro-quente.

A tradição guardou o nome do inventor que pôs uma fatia de fiambre entre as fatias de pão. Teria sido o lord John Montagu, conde de Sandwich (1718-1792), no tempo do rei George II da Inglaterra. Jogador fervoroso, não querendo abandonar as cartas diante do reclamo da fome, lembrou-se de meter um naco de carne entre delgados pedaços de pão, simplificando a consumação que teria seu nome. O inventor do sandwich seria o conde ou o seu cozinheiro? Tenho lido ambas as versões. A mais antiga e clássica afirma que sir John Montagu realizou sua idéia à vista dos companheiros de jogos, partindo o pão, dispondo o presunto, criando a unidade, aproveitando-a sem interromper o whist, tão tipicamente britânico que exige o silêncio na duração da partida.

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"História da Alimentação no Brasil" cita que a "fome e o amor" governam o mundo
Fome e amor governam mundo, cita "História da Alimentação no Brasil"

Desses fins do século XVIII, o sandwich atravessou a Mancha bem depois, atingindo Paris no mês Pluviôse do ano X da República, fevereiro de 1802, quando não havia República nenhuma e sim Napoleão, Primeiro Cônsul.

Discutem o sandwich em suas origens para negar ao conde a honra de havê-lo criado. O Brewer's Dictionnary of Phrases & Fables recusa a lord John Montagu tal benemerência, recordando que os romanos conheciam o sandwich sob o nome de offulas. Difícil conciliar sandwich com offula, diminutivo de offa, valendo sopa, pedaço de pão, de carne, qualquer massa dando almôndega, croquete, bolinho seco de carne moída. Não combina. E a persistência, quase duas vezes secular, com que o nome de sandwich, em qualquer paragem de terra, aliou-se à disposição dessa forma de embrechado, parece-me concludente para deduzir que lord Sandwich dera sempre na Europa a impressão de haver "inventado" o acepipe, possibilitando as sucessivas adaptações. Res judeicata pro varitate habetur.

Quando o sandwich alcançou o Brasil? Em que época do século XIX? Até o Primeiro Império, 1822-1831, e Regência, 1831-1840, não deparei menção alguma. Possivelmente, à volta do casamento de D. Pedro II, 1843, quando o Rio de Janeiro teve clima festivo, acentuando-se a partir de 1850, e mais vivamente com a projeção elegante da fête impériale de Napoleão III, seria "tempo lógico" para o sandwich aparecer e agradar.

O hot-dog, "cachorro-quente", é de mais fácil constatação Artur Coelho, uma inteligência viva e curiosa por todas as investigações da cultura popular, enviou dos EUA informação suficiente e preciosa porque ele é um dos raros sabedores, na parte referente ao Brasil.

Transcrevo essa carta de Hackensack, N. J., 1º de dezembro de 1962, documento essencial na espécie. "Quanto ao que agora me pede, na carta de Anna-Maria, para verificar a procedência do hot-dog, noto das minhas pesquisas que não há muita documentação. Enciclopédias, dicionários e volumes de tira-teimas abrigam verbetes pobres, de simples sinonímia com salsichas e Wienerwursts; ou uma referência humorística na revista New Yorker (10-XI-42) de que os chamados Frankwursters são mesmo feitos de carne de cachorro dachshund.

A coisa melhorzinha que encontrei foi a comemoração do centenário de S. Majestade "o cachorro-quente". A notícia, oriunda de Chicago, o abattoir da nação, foi inserta no N. Y. Herald Tribune de 28-VIII-52. Traz por título "Centenary of the Hot Dog. Born in Frankfurt, Germany, 1852". Eis o texto:

"Chigaco. The institution known as the Hot Dog became 100 years this year. The National Live Stock Producers, the national leading live stock magazine, published an editorial today in honor of the event. The magazine said that in 1852 in Frankfurt (Germany) a butcher whose name has not been recorded, concocted the add-shaped delicacy in honor of his dog - a dachshund. The editorial added, "Today however the Hot Dog has found its place in America where some seven billions of these canines are consumed annually. That's over 550.000 miles of hot dogs".

E a notícia poderia ter adiantado, em sentido cômico, que esse milhedo daria para passar um cinturão de cachorros-quentes de duas ou três voltas em redor da terra. Mas é notável que o magazine tenha tachado de instituição o uso dos ditos cachorros-quentes, consumidos nessa incrível proporção, em competição com o não menos institucional sandwich. Este, segundo se sabe, foi criado pelo conde de Sandwich (1718-1792), que grande jogador, pedia ao seu criado quando jogava em casa, que para merenda lhe trouxesse uma talisca de carne entre duas fatias de pão, pois não queria perder tempo...Entretanto, diz o Brewer's Dictionnary of Phrases & Fable que essa merenda não se originou com o conde no reinado de George III (o rei que perdeu a América), visto como os romanos já se serviram de sandwiches, a que chamavam offulas.

Mas, o mais importante é saber como o popularíssimo "cachorro-quente" conseguiu emigrar da América para o Brasil e tirar aí o necessário título de cidadão brasileiro.

E aqui entro eu, por mero acaso, como fornecedor da luz necessária à explicação do caso. Em 1928 ou 29, travei conhecimento em Nova York com o sr. Francisco Serrador, que por aqui andava de passeio. Em conversa com o grande cinegrafista e esplêndido cavalheiro, perguntei-lhe, por mero dizer, que novidades ia levando dos EUA. Ele respondeu-me que levava uma idéia fantástica e de seguro sucesso. Posso saber? perguntei. Claro. Trata-se do hot-dog, a que chamarei mesmo "cachorro-quente" e cujas máquinas já estão compradas. Garanto-lhe que será um tiro! E foi mesmo.

Agora, uma anedota para terminar. Nos subúrbios de Chicago, famoso por seus matadouros, uma firma de comestíveis fundou uma fábrica muito anunciada de "cachorros-quentes" feitos garantidamente de carne de coelho. Um vizinho fronteiro fez-se logo freguês da nova e deliciosa iguaria. Entretanto, com tempo, notou ele que na fábrica entravam com material enormes carroções puxados por quatro ou seis cavalos, e depois saíam tirados por dois apenas. O homem desconfiou e acabou processando a casa e pedindo indenização. No tribunal o fabricante acabou confessando usar alguma carne de cavalo nos dogs. Em que proporção? inqueriu o juiz. Fifty-fifty, Sr. juiz. Fifty-fifty? Que quer dizer? Pois, titubeou o homem: - um cavalo, um coelho.

E aqui concluo "el cuento"...

Até aqui, a lição do mestre Artur Coelho, tornara pública para a homenagem ao sr. Francisco Serrador e notícias do "cachorro-quente" há mais de cem anos, e no Brasil desde 1929.

Da anedota, já existe uma velha réplica brasileira. A fábrica de goiabada denunciada por empregar jerimuns e raras goiabas. Confessa o técnico ante o juiz usar proporcionalmente as componentes, na relação de cinqüenta por cento. Como 50%? Uma goiaba, uma abóbora, uma abóbora, uma goiaba...

O "cachorro-quente" divulgou-se largamente de 1942 em diante com a vinda de norte-americanos para as bases militares nas cidades do litoral brasileiro, durante a guerra contra Hitler. Depois de 1945, tonara-se costume...

Ficamos sem saber o nome do criador do "cachorro-quente", o imortal e anônimo açougueiro de Frankfurt, com sua criação saborosa em homenagem ao seu dachshund.

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"História da Alimentação no Brasil"

Autor: Luís da Câmara Cascudo
Editor: Global
Páginas: 954
Quanto: R$ 98
Onde comprar: Pelo telefone 0800-140090 e no site da Livraria da Folha .

 

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