Inspirados em livro, chefs criam cardápios "imaginários"
LUIZA FECAROTTA
da Folha de S.Paulo
| Leticia Moreira/Folha Imagem |
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| Chef Andre Mifano, 32, do restaurante Vito, na Vila Madalena, em SP, gostaria de ter feito um jantar para o personagem Don Corleone |
Escolha alguém para quem você gostaria de cozinhar, mas (ainda) não teve a chance. Depois, elabore um menu imaginário. Pense no cenário e na trilha sonora. A Folha convidou três chefs para colocar em prática essa ideia, como fez Bettina Orrico, 76, no livro "Os Jantares que Não Dei", que acaba de sair pela editora Beï (R$ 58, 172 págs.).
Ela conta histórias que envolvem personagens de sua memória afetiva, desde a babá da infância até o cantor Chico Buarque, e, para cada um deles, prepara um menu completo com suas receitas.
Envolvido nessa missão, André Mifano, do Vito, transportou-se para uma cidadezinha da Sicília, na Itália, e arriscou um cardápio simples e campesino para o mafioso do clássico "O Poderoso Chefão". Mari Hirata escolheu um barco futurista para servir receitas sazonais ao cineasta Takeshi Kitano. Um banquete ao ar livre é o cenário inventado por Roberta Sudbrack para receber o principal personagem da gastronomia do século 19, Carême.
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Mari Hirata - Pelos canais de Tóquio
Num cenário que combina imagens dos canais de Tóquio e dos prédios hipermodernos, segue o barco Himiko, desenhado por Leiji Matsumoto, um dos principais quadrinistas japoneses. É dentro desse espaço futurista que a chef Mari Hi rata, 49, brasileira radicada no Japão, serviria o menu que elaborou para um de seus ídolos: o cineasta Takeshi Kitano (de "Zatôichi", 2003).
"No Japão, ele tem cinco programas de televisão, em canais diferentes. É meio guru dos japoneses. Dá palpite em todas as áreas", diz Mari. "E sempre teve ótimo gosto para comida."
Mari selecionou um ingrediente sazonal para explorar em seu cardápio imaginário: o cogumelo matsutake. O fungo tem cheiro delicado e não é cultivável. "Usaria os que crescem na floresta de Kyoto." São raros e alcançam preços altos (US$ 100, a unidade).
Para começar, uma infusão do cogumelo em consomê de hamo, uma espécie de congrio japonês. "É um peixe um pouco mais gorduroso e daria suporte ao matsuke sem 'matar' seu sabor." Em seguida, cogumelo inteiro grelhado em brasa, com um toque de limão japonês (sudashi), que tem um "perfume maravilhoso".
Finas lâminas de Kobe beef envolveriam o cogumelo, para depois ir à grelha num pequeno braseiro de carvão. "A carne ficaria levemente tostada, com gosto defumado e, depois de morder, apareceria o sabor do cogumelo." Mari Hirata finalizaria o menu como no Japão, com arroz. "Faria naquelas panelas de cerâmica com caldo básico japonês, o dashi [alga kombu e lascas de bonito seco], e com os cogumelos picados."
Tudo na companhia de champanhe ou de um "bom saquê japonês" servido em um copo pequeno "e pesadinho, sabe?". O convidado decide.
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André Mifano - Sem frescuras, para Don Corleone
André Mifano, 32, quebrou a cabeça diante do desafio de escolher um personagem para homenagear. "Pensei em cozinhar para o Obelix, mas desisti. É muito trabalho." Chef do pequeno italiano Vito, ele considerou ainda Júlio César e até Edith Piaf. "Queria convencê-la de que a cozinha italiana é melhor que a francesa."
Depois, entrou em acordo com a sua imaginação e elegeu Don (Vito) Corleone, do clássico "O Poderoso Chefão", de Francis Ford Coppola. "É um jeito de mostrar um outro lado do personagem. Ele é bandido, assassino? Pode ser. Mas ele era um moleque que saiu do interior da Sicília, de origem supercampesina."
Inspirado na cena da morte de Don Corleone, na qual o mafioso está no meio de uma plantação de tomate, Mifano escolhe começar com uma salada de tomates grelhados, com um fio de azeite italiano extravirgem não filtrado, sal e pedaços de queijo pecorino romano, na companhia de pão italiano.
Ao som de Paolo Conte e Louis Prima, este entoando "Angelina", Mifano segue o almoço com um conchiglioni (massa em formato de concha) ao molho apimentado de tomate, com cubinhos de berinjela, fritos no óleo --tudo em uma varanda na Sicília coberta por um pano branco para proteger os convivas do sol. Antes de servir a massa, misture grana padano, pecorino "bem curado" e mussarela de búfala, "são três texturas". Polvilhe mollica, uma farinha de rosca feita com pão amanhecido puxado no azeite. "É uma invenção dos sicilianos, que não tinham dinheiro para usar queijo."
Para beber, não há frescura: "água e vinho naquelas tacinhas de vidro mesmo". Mifano aproveitou a cena do tiroteio na barraca de frutas para bolar a sobremesa: nectarina e pêssego fatiados com mel de jasmim. "Acho que o cara não devia ser muito de sobremesa."
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Roberta Sudbrack - Um banquete ao ar livre
Roberta Sudbrack, 41, já cozinhou para uma infinidade de celebridades. A começar pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, no Palácio da Alvorada. Depois, vieram rei Juan Carlo, príncipe Charles, Fidel Castro... Até já realizou o maior sonho: preparar um jantar para Fernanda Montenegro. E duas vezes, inclusive no aniversário de 80 anos da atriz. Ainda assim, se pudesse voltar no tempo e alcançar o século 19, faria um banquete para Antonin Carême, o "cozinheiro dos reis e o rei dos cozinheiros".
Uma mesa ao ar livre, em um jardim sob as árvores, acolheria 12 convidados. Entre eles, o chef Claude Troisgros, a nutricionista Neide Rigo e o sociólogo Carlos Alberto Dória. Na taça, vinhos selecionados por Jonathan Nossiter, que também estaria presente.
"Sempre fui apaixonada por banquetes. No meu restaurante, faço questão de manter esse ritual todas as noites", diz a premiada chef gaúcha, que hoje mora no Rio. "Carême é a refe rência de todos nós. Sou auto didata e estudei pelos livros dele. Todos em francês e eu nem falava francês (risos)."
Na imaginação de Roberta, o cardápio teria sete etapas, nas quais ela tentaria traduzir sua cozinha e mostrar alguns dos ingredientes que estudou nos últimos anos. Nas receitas, aparecem maxixe, chuchu, quiabo, magarito. "Meu barato é fazer com que ingredientes do dia a dia possam se expressar também na alta gastronomia."
Ela prepararia, por exemplo, um porquinho de leite assado em baixa temperatura caseira. "Essa técnica era a grande especialidade de Carême. Tenho medo dessas máquinas modernas. Controlo a carne de maneira artesanal, num recipiente coberto, para criar vapor e fazer com que não perca umidade nem volume."
Uma torta de pera com tapioca encerra o banquete. "A escolha do menu não poderia ser diferente: cozinha brasileira moderna. Tenho certeza de que Carême conseguiria compreender."



