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Policial acena para afastar jornalistas das proximidades do complexo penitenciário de Papuda

Preso deixa hospital, escoltado por policial, após rebelião no presídio da Papuda, no DF, onde 11 pessoas morreram queimadas

  Rebelião em presídio de segurança máxima no DF deixa 11 mortos
  • Detentos morreram queimados e asfixiados
  • Motim foi o pior da história da Papuda

    WILLIAM FRANÇA
    da Folha de S.Paulo, em Brasília

    Onze presos morreram nesta quinta-feira _nove por asfixia e dois por queimaduras graves_ numa cela do Núcleo de Custódia, que integra o complexo penitenciário da Papuda (cerca de 35 km do Palácio do Planalto).

    Outros três presos ficaram gravemente feridos. Segundo a polícia, as mortes foram consequência de ajuste de contas entre os detentos e da luta pelo controle do tráfico de drogas no presídio. O pivô do conflito foi a morte de Ananias Elisário da Silva, ocorrida ontem no mesmo pavilhão.

    Ele estava preso desde 96 acusado de latrocínio (roubo seguido de morte) e assalto a caminhoneiros. A CPI do Congresso que apura o roubo de cargas apontava-o como líder da maior quadrilha de assalto e morte a caminhoneiros que atuou no país.

    A Secretaria da Segurança Pública do DF chegou a admitir, de manhã, a possibilidade de o crime ter conotações políticas _Ananias teria demonstrado disposição de delatar companheiros que atuavam no roubo de cargas ou mesmo alguns que pretendiam fugir do complexo penitenciário.

    À tarde, a versão da disputa pelo tráfico de drogas e pela liderança dos presos foi endossada inclusive pelo juiz da Vara de Execuções Criminais do DF, Henaldo Silva Moreira, que esteve no local. “Foi um fato isolado”, afirmou.

    Essa foi a maior ocorrência de mortes da história da Papuda. No Núcleo de Custódia deveriam ficar apenas os presos que aguardam condenação, mas 3 dos 11 mortos estavam em situação irregular, pois deveriam estar presos em regime fechado.

    De acordo com a polícia, na quarta-feira, às 10h, Ananias brigou com seis detentos do pavilhão B da unidade 5 da Colônia Penal Agrícola. Ele estaria cobrando pequenas dívidas de colegas consumidores de drogas _a perícia encontrou no bolso dele uma lista com nomes e pequenos valores anotados à frente.

    Na briga, Ananias foi ferido a golpes de faca artesanal feita pelos detentos e morreu em decorrência de hemorragia. Os seis envolvidos foram colocados na cela 2 do mesmo pavilhão B.

    Hoje, pouco antes das 8h, os detentos que estavam no pavilhão C conseguiram render os quatro carcereiros de plantão quando estavam sendo levados para o banho de sol. Segundo os agentes penitenciários, eles gritavam dizendo que o ajuste era entre eles e que não pretendiam fugir ou fazer reféns. Os carcereiros foram mantidos na ala administrativa, isolados por uma grade que foi amarrada com arame.

    Em seguida, um grupo grande _estima-se entre 30 e 60 pessoas_ estourou os cadeados que trancavam os detentos do pavilhão B. Segundo informações iniciais, os seis presos que mataram Ananias estavam entre os 15 mantidos na cela 2. Outros presos que teriam rixas também foram levados para lá e trancados.

    Sobre o que aconteceu em seguida, ainda não há conclusão da perícia técnica. Segundo alguns depoimentos, os presos do pavilhão C encheram a cela 2 com colchões trazidos das demais alas e atearam fogo. Outros afirmam que foram os próprios presos que estavam na cela 2 que decidiram fazer uma espécie de barricada com os colchões, mas foram envolvidos pelo fogo e pela fumaça.

    Os corpos dos 11 detentos foram encontrados amontoados sobre a área destinada à latrina. Na tentativa de apagar o fogo, os detentos chegaram a quebrar a torneira que é usada para asseio. Dos 6 presos que participaram da primeira briga com Ananias, 5 foram mortos _o outro, Fernando da Silva Pena, conseguiu escapar ileso. Dos 11 mortos, 2 tiveram grandes queimaduras na parte superior do corpo, o que teria provocado suas mortes. Os demais foram asfixiados pela fumaça.

    O juiz Henaldo Moreira afirmou que, apesar da superlotação do sistema penitenciário do DF, essa não foi a causa da sequência de mortes. “Saí de lá com boas impressões sobre o procedimento da polícia”, afirmou. Segundo ele, os policiais agiram certo ao não interferirem no conflito. “Seria um suicídio entrar nas celas.”

    O coordenador do Sistema Penitenciário do DF, Cícero Antônio de Araújo, não divulgou o número de detentos no Núcleo de Custódia justificando ser “por razões de segurança”. A Folha apurou que havia cerca de 320 detentos na unidade 5.

    Ao todo, segundo o juiz da VEC, o Núcleo de Custódia tem 42% a mais de detentos que sua capacidade prevista. O caso do Centro de Internação e Reclusão, onde ficam presos condenados, é mais grave. Abriga mais que o dobro de sua capacidade (112%).

    Mortos que participaram da briga com Ananias: Anderson Fernando Coelho da Silva, Humberto Farias Cabral, Wagner Fernandes de Souza, Wilson Alves dos Santos e Adailton Evangelista de Jesus. Mortos que não participaram da briga inicial: Marcelo Palhano Batista, Alexandre Vieira de Souza, Levino Ferreira de Souza, Alberto Martins Gomes, Paulo Roberto Ferreira Lopes e Vicente de Paula Souza Costa.


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