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Cotidiano
02/05/2005 - 09h40

Vilarejo paulista já sofreu 160 tremores

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RICARDO GALLO
Enviado especial da Folha de S.Paulo a Bebedouro

O chão treme, os móveis caem, as cortinas balançam, os cachorros se escondem. No pacato distrito de Andes, a 14 km de Bebedouro (381 km a noroeste de SP), tremores de terra mudam os hábitos da população, deixam os moradores temerosos e intrigam os geofísicos.

Desde 25 de fevereiro, cerca de 160 pequenos terremotos foram registrados no vilarejo de 300 habitantes. O último ocorreu na terça passada. O maior, em 30 de março, atingiu 2,9 graus na escala Richter. A partir de 3,5 graus, segundo a escala, um terremoto é capaz de causar danos. O tsunami de 2004 no sudeste da Ásia, por exemplo, atingiu 9 graus de magnitude e matou 200 mil pessoas.

Ainda não há causa definida para os tremores, mas a suspeita é que, em Andes, o fenômeno seja causado por poços artesianos que captam a água a cerca de 200 m de profundidade. Há 15 deles no distrito. A investigação está a cargo de geofísicos do IAG (Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas), da USP, e da Unesp (Universidade Estadual Paulista).

"Barulhinho"

Alguns sitiantes na área rural de Andes foram os primeiros a sentir a terra tremer, entre janeiro e maio de 2004. "A gente ouvia um barulhinho debaixo da terra. Era estranho. Não dava para saber o que era", diz o agricultor José Siles Cagnin, 61, que vive do plantio de laranjas e cana-de-açúcar.

Os tremores voltaram a ser notados em 25 de fevereiro, com maior intensidade. "Parecia um trovão que ia ficando cada vez mais forte debaixo da terra", afirma Cagnin. A duração era inferior a dez segundos. O barulho chamou a atenção dos moradores. "Fazia "bruuuuuuuuum"."

Contatado por uma amiga da família, o IAG instalou seis sismógrafos na região, um dos quais no sítio onde o agricultor vive com a mulher, Didier. Desde fevereiro no local, o equipamento registrou três sismos mais fortes: em 11 de março, em 30 de março e em 2 de abril. Os terremotos apresentaram variação entre 2,6 e 2,9 graus na escala Richter. O epicentro do fenômeno (onde começam os tremores) está numa área de dois quilômetros, no entorno do sítio dos Cagnin.

"Causa susto, mas ainda é pouco. É um chacoalhão, que dura até dois segundos e não tem dano nenhum", afirma o geofísico do IAG Marcelo Assumpção.

"Horrível"

Embora insuficiente para produzir danos, a sucessão de tremores alterou a rotina dos moradores de Andes, vilarejo paulista de paisagem bucólica, onde o movimento de tratores e charretes é superior ao dos carros.

"É horrível. A gente não se acostuma nunca", afirma Didier, 59, que chegou a cair da cadeira durante um dos tremores.

Dentro da casa, o fenômeno derrubou as panelas e mexeu as venezianas e as portas. Três quadros que decoram a parede da sala ficaram tortos. "Não vamos mudar. É lembrança", diz. Ela conta que os sete cachorros da família se assustam e correm para dentro de casa quando escutam os pequenos terremotos.

Numa propriedade próxima dali, não são apenas os cães que fogem. "Os empregados saíram correndo de casa e queriam dormir do lado de fora", afirma o agricultor Aparecido Lombardo Jorge, 66, que diz ter passado noites em claro por medo. Ele chegou a pensar em se mudar do sítio onde vive há mais de 50 anos por causa dos sismos. "Mas, não vou mudar, não. Tenho medo de deixar a minha casa."

Também sitiante, Dalvo Vitório, 54, foi mais radical: dormiu três dias em seu Opala 78, temeroso de que a sua casa caísse com os tremores.

Poços

A exemplo do IAG, os moradores de Andes dizem acreditar que os poços são a causa dos sismos. Elegeram, inclusive, um culpado: a fazenda Aparecida, a maior da região, que tem dez poços de profundidade superior a 200 m, instalados desde 2003. "O barulho vem de lá", afirma Lombardo, que também vive da produção de laranja e cana-de-açúcar.

O administrador da fazenda, Carlos Aparecido Santos, discorda. "Nunca tremeu nada. Quer dizer, já tremeu, mas foi pouco. Se fosse verdade [a associação dos tremores com os poços da fazenda], teríamos que parar todos os poços [do distrito]", afirma.

A hipótese dos técnicos para os sismos é de que a perfuração de poços tubulares sem vedação esteja causando o deslocamento de água entre as placas na camada de basalto.

Embora incomum, existem precedentes que associam poços artesianos profundos a tremores. Em Nuporanga (SP), em 1977, 1978, 1988 e 1989, tremores de 2,6 a 3 graus na escala Richter foram originados por esse motivo. "Em Nuporanga, detectou-se que a água entrava por uma camada do poço e penetrava nas fraturas do basalto", afirma Tereza Higashi Yamabe, geofísica da Unesp de Presidente Prudente.

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