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Cotidiano
12/08/2005 - 22h13

PF acha casa de empresário que pode ter recebido ladrões do BC

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da Agência Folha, em Fortaleza
VICTOR RAMOS
da Folha de S.Paulo, em Fortaleza

A Polícia Federal identificou nesta sexta-feira uma casa que pode ter sido usada pelos ladrões da caixa-forte do Banco Central de Fortaleza (CE) para "rechear" veículos com parte do dinheiro furtado. No total, foram levados R$ 164,8 milhões, no final de semana passado. Quatro suspeitos estão presos.

Também está sendo investigada uma possível conexão com São Paulo, já que existe a possibilidade de integrantes da quadrilha terem embarcado para a cidade logo depois do crime.

Segundo a PF, a casa pertence ao empresário José Charles Machado de Moraes, dono da transportadora JE Transporte, que foi preso há dois dias, na região de Sete Lagoas (MG). Ele estava a bordo do caminhão-cegonha que levava 11 carros supostamente pagos com parte do dinheiro furtado.

Dentro de ao menos três destes veículos foram encontrados quase R$ 5 milhões. O motorista do caminhão, Rogério Maciel, também está preso.

A casa, grande e com piscina, fica num bairro periférico de Fortaleza, mas onde há outras casas de luxo. A PF conseguiu à tarde um mandado de busca e apreensão e teve de abrir o imóvel com a ajuda de um chaveiro.

Dentro da casa, foi encontrado um carro, um Ford EcoSport preto de placas HXF 1361, que está em nome da empresa JE Transporte. O carro foi apreendido e levado à sede da PF. A própria casa, segundo o delegado Wagner Sales, também é de Moraes.

Apesar disso, ele não morava no local, apenas visitava a casa com freqüência, segundo a polícia. Os moradores até o último sábado seriam um casal, Marcos Rogério e Joni, que não foi mais visto pelos vizinhos desde então. O dia do sumiço coincide com furto ao Banco Central.

Movimento

Testemunhas afirmam que, até dez dias atrás, havia uma placa de vende-se em frente à casa e pouco movimento dos moradores. Depois disso, a placa foi retirada e o casal voltou a ser visto, até o último sábado. Naquela noite, entre 19h30 e 20h, houve um entra-e-sai de carros importados da garagem.

Segundo a PF, o furto à caixa-forte do Banco Central, por meio de um túnel de 80 metros cavado de uma casa próxima à sede do banco, começou na sexta-feira à noite e terminou no sábado, até, no máximo, 12h.

"Estranhei a movimentação, eram uns dez carros grandes, mas achei que podia ser alguma festa de despedida, porque o casal dizia que ia se mudar", disse uma testemunha, que preferiu não se identificar.

No final da noite de quinta, a PF apreendeu documentos e um computador na sede da Brilhe Car, revendedora de veículos onde a quadrilha teria comprado nove carros e um caminhão-cegonha sem a carroceria, por R$ 980 mil, em cédulas de R$ 50 --como as mesmas levadas do Banco Central.

Os donos da empresa, José Elizomartes Fernandes e Dermerval Fernandes, tiveram a prisão temporária decretada, porque a polícia considera que há indícios do envolvimento deles no crime. A compra dos veículos foi feita por Moraes, segundo os advogados dos donos da revenda.

São Paulo

A polícia investiga ainda se integrantes da quadrilha viajaram a São Paulo logo depois que terminaram a ação, ainda na tarde de sábado. Dez passagens aéreas foram compradas à vista e com notas de R$ 50 no balcão da empresa aérea TAM, no aeroporto de Fortaleza, às 8h do sábado, dia 6, para o embarque às 14h. A venda das passagens foi confirmada pela TAM.

No começo da tarde, a Polícia Militar de São Paulo apreendeu um veículo Mitsubishi, abandonado na zona leste da cidade. O carro é parecido com os outros comprados pela quadrilha e passará por uma perícia. Existem indícios de que a picape possa ter sido usada pela quadrilha na cidade.

Outro lado

Os advogados do empresário José Charles Machado de Moraes, dono da JE Transporte, voltaram a negar ontem que ele tenha qualquer envolvimento no furto do Banco Central. Segundo o advogado José Nogueira, Moraes não é dono da casa onde a PF fez uma busca e apreensão nem do carro estacionado dentro dela.

Para Nogueira, pode não ter havido a transferência legal do carro, mas o veículo não era mais de Moraes. O advogado disse que preferiu primeiro pedir, na Justiça, uma cópia do inquérito, para ter acesso à investigação, para depois solicitar um habeas corpus.

Paulo Quezado, um dos advogados dos donos da revenda de veículos Brilhe Car, os irmãos José Elizomartes Fernandes e Demerval Fernandes, presos desde a noite de anteontem sob a acusação de envolvimento com a quadrilha que furtou o banco, disse que vai esperar o prazo de cinco dias da prisão temporária dos dois para tomar providências.

"Ainda não tive nenhuma informação do inquérito. Os empresários apenas realizaram um negócio, que já vinha sendo encomendado há uns 15 dias, com uma pessoa [Moraes] que já conheciam há quase dez anos. Vamos esperar que tudo se esclareça", disse Quezado.

Foram devolvidos R$ 980 mil, referentes à venda de dez veículos à quadrilha, com o dinheiro do furto.

Quezado solicitou um laudo médico sobre o estado de saúde de um dos empresários. Ele disse que não sabia nada a respeito da investigação na rede de motéis dos irmãos Fernandes. Outro advogado dos irmãos, Paulo César Feitosa, afirmou que os dois colaboraram com a polícia e que, mesmo antes da busca e apreensão no escritório da revenda, já haviam disponibilizado os documentos sobre a venda dos veículos.

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