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Cotidiano
27/04/2006 - 09h44

Capivaras são caçadas na marginal Pinheiros

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AFRA BALAZINA
da Folha de S.Paulo
RENATO STOCKLER
repórter-fotográfico da Folha de S.Paulo

As capivaras, animais silvestres que são os maiores roedores do mundo, têm sido alvo de caça em plena área urbana de São Paulo, nas margens do rio Pinheiros.

Há cerca de 80 a 100 capivaras no local, segundo o projeto Pomar, vinculado ao governo estadual, que cuida da revitalização da margem do rio e que, a cada três meses, conta os animais.
Renato Stockler/Folha Imagem
Capivaras nadam perto da represa de Guarapiranga
Capivaras nadam perto da represa de Guarapiranga


Armadilhas feitas com arame foram encontradas por funcionários do projeto. "Os caçadores colocam laços metálicos no caminho das capivaras para prendê-las. Como elas são fortes, às vezes conseguem romper o laço, mas ficam com ferimentos e podem se infectar com a água do rio", diz o biólogo do projeto Pomar Alexandre Soares. Segundo ele, os animais que conseguem escapar da armadilha muitas vezes morrem em razão da infecção.

O biólogo suspeita que moradores da favela do Jaguaré e funcionários de obras que ficam próximas ao rio caçam os animais para comer. Até agora, ninguém foi pego em flagrante --a caça de animais silvestres é crime ambiental.

Os moradores da favela do Jaguaré ouvidos pela Folha negam a prática. Segundo o líder comunitário Antonio Marcos Cardoso, "quem gosta de carne cara como a de javali, pato e capivara são os ricos". Ele diz que, lá, a carne mais consumida é a de frango, que "custa R$ 1,99 o quilo". A desempregada Maria de Fátima Alves, 49, diz que a carne é saborosa, "parece de porco". Mas afirma ter provado em Goiás. "Aqui não tenho coragem. O rio é poluído."

Segundo o biólogo Soares, as capivaras se reproduzem quatro vezes por ano e têm de seis a oito filhotes em cada gestação. Ele explica que as capivaras apareceram nas margens do rio com o seu reflorestamento, há seis anos.

Segundo o biólogo do Ibama Vincent Kurt Lo, elas migram das represas Guarapiranga e Billings e o seu controle é difícil. Os animais chegam até pela galeria de esgoto e se alimentam de capim.

Acidentes

Outro problema envolvendo as capivaras são os acidentes de trânsito. Em pontos da marginal onde não há defensas, elas entram na pista e são atropeladas. "Em 2005, pelo menos dez motoristas nos telefonaram para falar que passaram por cima desses animais", diz Soares.

Segundo Rossana Borioni, analista ambiental do Ibama, a solução é colocar cerca, alambrado ou qualquer tipo de barreira física que impeça a entrada dos animais na pista. "Elas podem causar acidentes graves. Na marginal, os carros vêm em alta velocidade, e a capivara não é um animal pequeno", diz Borioni.

Ela disse que será realizada uma reunião em maio para debater o problema. Segundo a analista, é necessário obter recursos para viabilizar financeiramente a colocação da cerca. Além de evitar acidentes, ela protegeria os animais.

O Ibama ainda não sabe por que as capivaras invadem a via. "Pode ser falta de alimento ou pressão da caça, que até o momento não sabíamos que acontecia", disse a analista ambiental.

As capivaras são hospedeiras do carrapato que transmite a febre maculosa. Entretanto, segundo a Covisa (Coordenadoria de Vigilância Sanitária do município), não há nenhum caso da doença na cidade relacionado ao roedor. Mesmo assim, os animais do Horto Florestal --onde uma garota foi picada por carrapato em 2005 e morreu-- estão sob análise.

A Secretaria da Saúde não respondeu se o consumo da carne da capivara que vive no poluído rio Pinheiros pode ser prejudicial.

Lei proíbe caça

A caça de qualquer animal é proibida pela Constituição do Estado de São Paulo. A lei federal de crimes ambientais prevê multa e pena de detenção de seis meses a um ano para quem caçar animais silvestres, como a capivara.

Segundo o artigo 29 dessa lei, constitui crime "matar, perseguir, caçar ou apanhar espécimes da fauna silvestre sem a devida permissão, licença ou autorização".

A autuação é de R$ 500 para cada animal caçado --o valor aumenta se, por exemplo, for uma espécie ameaçada de extinção. A legislação, entretanto, determina que não é crime o abate de animal quando há necessidade --para saciar a fome.

As denúncias de caça podem ser feitas ao Ibama pelo 0800-618080, e a Polícia Ambiental também pode ser acionada.

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