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Cotidiano
14/05/2006 - 15h34

Sob "estado de silêncio" e revolta, policiais enterram colegas em SP

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RICARDO FELTRIN
Editor-chefe da Folha Online

O governo do Estado declarou "toque de silêncio" a todas as delegacias, policiais militares e bombeiros após a onda de ataques do crime organizado às forças de segurança em São Paulo. Em cinco delegacias, postos e guarnições visitados pela Folha Online neste domingo, o discurso era o mesmo: não é permitido falar.

Lágrimas, no entanto, não podem ser contidas. Elas caem dos olhos de um dos sargentos do Corpo de Bombeiros na rua Barão de Piracicaba, centro de São Paulo, enquanto fala (em off) sobre como o soldado Alberto foi assassinado a tiros no início da madrugada de sexta-feira. Seu corpo foi enterrado na manhã deste domingo no cemitério da Quarta Parada (zona leste).

Desde sexta à noite, foram 52 mortos e 50 feridos em cerca de 100 ataques coordenados, em diversos bairros da capital e cidades do Estado. A culpa recai sobre a organização criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital), criada por bandidos em penitenciárias do Estado, com estrutura similar à de outras facções criminosas, como o Comando Vermelho, no Rio.

Luiz Carlos Murauskas/FI
Enterro do investigador Paulo Jose da Silva, em São Paulo
Enterro do investigador Paulo Jose da Silva, em São Paulo
Além de Alberto, que trabalhava no posto havia cerca de dois anos, outro bombeiro foi atingido na perna, está internado e não corre risco de morte. Alberto e o companheiro foram encurralados por dois grupos de três homens cada um, que vieram de sentidos opostos da rua Barão de Piracicaba --próxima à estação Júlio Prestes, conhecida pelo tráfico de drogas e pelas brigas e crimes constantes.

O tenente da corporação, que pede para não ser identificado, diz que um grupo desceu de um carro, enquanto o outro veio a pé. Ambos miraram nos bombeiros indefesos com armas pesadas. Dispararam rajadas por quase um minuto antes de fugir. Há furos de balas em várias paredes do posto.

"Foi muita covardia. Bombeiros são um organismo que salva, que ajuda, e não que combate", diz o tenente com o rosto molhado de lágrimas. Cerca de dez PMs mantêm guarda diante do posto 24 horas por dia, desde o crime.

Morto pelas costas, tomando chope

A cerca de oito quilômetros do centro, no 15º DP, instalado no bairro de classe média Itaim Bibi, os companheiros do policial civil José Antonio Martinez Prado lembram como ele, assim como o bombeiro Alberto, foi morto de forma covarde e reptícia.

Já fora de serviço, Martinez, 41, estava com a mulher em um restaurante próximo, por volta das 22h de sexta-feira. Tomava seu segundo chope no Cabana Grill, na rua Clodomiro Amazonas. Segundo testemunhas, dois homens entraram no local, encapuzados, e dirigiram-se diretamente à mesa onde Martinez estava --de costas para a porta. Dispararam em sua cabeça. Sua mulher nada sofreu fisicamente, mas desde então está em choque e medicada. Os assassinos fugiram correndo em meio ao pânico no bar e na rua.

Os criminosos deixaram outras três vítimas indiretas: três órfãs, filhas de Martinez, de 10, 8 e 2 anos. As duas primeiras, de seu primeiro casamento. As crianças só souberam da morte do pai quando seu corpo era enterrado no cemitério da Vila Mariana, na manhã deste domingo.

"O que a gente quer é uma reação muito dura, incisiva. Isso não vai ficar assim", declara Nilo Faria Hellmeister, 45, delegado plantonista do 15 º DP --e amigo de Martinez. O único a se pronunciar.

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