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Cotidiano
16/09/2006 - 09h03

Guarda civil de São Paulo denuncia ritual de batismo

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RICARDO GALLO
da Folha de S.Paulo

O guarda civil metropolitano Anselmo (nome é fictício por questões de segurança), recém-transferido para a tropa de elite da GCM de São Paulo, trocava de roupa no vestiário da sua unidade quando foi abordado por colegas.

Nos minutos seguintes, Anselmo diz ter sofrido o que é conhecido na corporação como "chá de manta" ou "batismo". Tomou, segundo seu relato, cassetadas em várias partes do corpo, apanhou no rosto e sofreu agressões e humilhações de conotação sexual --foi mordido nas nádegas e, com luvas cirúrgicas, os colegas introduziram o dedo em seu ânus.

Era setembro de 2005. Anselmo denunciou as agressões à sua chefia na Inspetoria de Mediação e Conflitos. Mas só em agosto deste ano, segundo a própria GCM, foi aberta sindicância para apurar o que ocorreu. Ainda não há conclusão.

No dia 15 de setembro de 2005, o inspetor Nelson Tadeu da Silva Ferreira, chefe imediato de Anselmo, esteve em sua casa e constatou: "diante dos fatos, o GCM encontra-se depressivo, não mais compareceu ao trabalho, tirou licença médica [...], pois sente-se humilhado, com vergonha, não consegue olhar para sua esposa nem tampouco para seus companheiros de trabalho".

No relatório aos superiores, o chefe diz que Anselmo precisa de cuidados médicos especializados e que é necessário apurar as "eventuais irregularidades administrativas".

Anselmo ganha R$ 1.200 por mês e, àquela altura, estava havia dois anos na corporação. Ele acabara de ser transferido da Inspetoria da Sé, responsável pela fiscalização dos camelôs da cidade. A "iniciação" ocorreu no vestiário da Mediação e Conflitos, setor conhecido na GCM como "choque" e sediada no parque Dom Pedro (centro). O "choque" tem cerca de 200 guardas, os "boinas azuis", que atuam em situações nas quais há risco de confronto.

Depressão

Um ano depois da denúncia do batismo, Anselmo mora só, numa casa de dois cômodos alugada a R$ 180 mensais na zona leste. A Folha esteve ontem no local, mas não conseguiu localizá-lo. Segundo vizinhos, estava num "bico".

Anselmo se separou de Sandra (nome fictício também), 33, mulher com quem viveu por 14 anos. Segundo pessoas de sua convivência, ele tornou-se dependente de álcool.

Desde agosto último também, o guarda responde a um processo de exoneração da prefeitura. Segundo a GCM, ele foi flagrado ao consumir bebida alcoólica em serviço e por faltas no trabalho. A GCM diz que as infrações são relativas a janeiro de 2005, antes, portanto, da denúncia do trote, em setembro do mesmo ano.

Investigação

Dentro da GCM, a apuração da possível violência praticada contra o agente da guarda começou a ocorrer em maio deste ano, após o coordenador municipal de Segurança Urbana, Alberto Silveira Rodrigues, receber a denúncia do sindicato dos guardas civis metropolitanos.

Na ocasião, um procedimento administrativo foi aberto, segundo o corregedor-geral da GCM, Paulo Máximo, mas a investigação não conseguiu reunir provas que comprovassem a autoria do abuso.

Um guarda apontado como um dos agressores negou a acusação e outro, testemunha de Anselmo, também desmentiu a denúncia de batismo violento.

Em agosto, quase um ano depois do episódio, o coordenador de segurança determinou a abertura de sindicância, instrumento posterior ao procedimento administrativo.

A investigação está em andamento, afirmou o corregedor-geral, sem entrar detalhes. Paulo Máximo disse que todos serão novamente ouvidos. Caso haja elementos para comprovação de má conduta, os envolvidos podem ser exonerados.

Outro lado

A Guarda Civil Metropolitana abriu sindicância para apurar a denúncia. "Vamos apurar se houve esse trote e se ele tem autoria", afirmou Paulo Máximo, corregedor-geral da GCM. Todas as pessoas envolvidas, além do próprio guarda civil, serão novamente ouvidas.

A sindicância foi aberta em agosto último e é a segunda apuração sobre o caso. A primeira foi em abril, com a abertura de procedimento administrativo. Mas, segundo a corregedoria, o relatório foi inconclusivo.

Na ocasião, dois guardas foram ouvidos. O primeiro, acusado de ser um dos agressores, negou o batismo. O segundo, apontado como testemunha do guarda agredido, refutou a denúncia.

De acordo com a GCM, não há histórico de denúncias que indique trotes, agressões ou batismos.

Ainda segundo o corregedor, não há relação entre o processo de exoneração e a denúncia do guarda, já que, segundo Máximo, o processo se refere a duas infrações disciplinares cometidas em janeiro de 2005. As faltas que ele acumulou desde setembro foram abonadas por ele estar de licença médica.

Questionado sobre o motivo de o guarda ter sido transferido para a Inspetoria de Mediação e Conflitos, Máximo respondeu não se tratar de uma promoção, mas sim de uma transferência por motivos operacionais.

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