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12/12/2006 - 09h48

Milícia de policiais assedia área nobre do Rio

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SERGIO TORRES
da Folha de S.Paulo, no Rio

Milícias formadas por policiais, ex-policiais, bombeiros, agentes penitenciários e militares já expulsaram traficantes de comunidades pobres das zona oeste e norte, invadiram e ocuparam 3 das 17 favelas do complexo da Maré (zona norte), começaram a fechar ruas nos subúrbios e agora chegam à zona sul do Rio de Janeiro.

Semanas atrás, síndicos de 45 edifícios do Leme (extremidade esquerda de Copacabana) receberam por escrito a proposta de adotar um esquema de proteção 24 horas por dia.

A proposta, assinada por um sargento aposentado da Polícia Militar, oferece segurança (seis agentes por turno de seis horas) em quatro ruas próximas à favela do Chapéu Mangueira.
Ricardo Moraes/Folha Imagem
Adesivo alusivo ao Batman, símbolo usado por milícia de policiais na zona oeste do Rio
Adesivo alusivo ao Batman, símbolo usado por milícia de policiais na zona oeste do Rio


O motivo da oferta, de acordo com o documento, é "o grande índice de criminalidade" na área. O policial cita os crimes cometidos: "furto, roubo, tráfico e uso de entorpecentes".

O sargento estipulava o dia 28 passado como data-limite para a aprovação da proposta. Só então diria aos "clientes" o preço da taxa de segurança. Mesmo assim, já estipulava a data do pagamento: entre os dias 15 e 19 de cada mês.

Após consultar condôminos, os síndicos recusaram a proposta e denunciaram o policial, que está sendo investigado pela corporação. Embora aposentado, o sargento trabalha no serviço interno do 9º Batalhão, em Rocha Miranda (zona norte).

Cabe a essa unidade patrulhar parte de Jacarepaguá (zona oeste), região que é uma espécie de paraíso das milícias, onde controlam todas as favelas, exceto Cidade de Deus.

A ação miliciana na zona oeste começou no fim dos anos 70 na favela Rio das Pedras, perto da Barra da Tijuca, a primeira a ter o tráfico expulso. Em troca era cobrada taxa de segurança. A prática se espalhou na região e hoje as milícias substituem o tráfico. Nas zonas norte e oeste, milicianos cobram de moradores e comerciantes por segurança, pelo uso dos serviços de transporte alternativo (van, Kombi, mototáxi), por botijão de gás e pelas ligações clandestinas de TV a cabo, o "gatonet".

Para se estabelecer, a milícia tem representantes nas comunidades, geralmente policiais que moram lá. Com a ocupação, chegam outros milicianos. Os traficantes são ou mortos ou expulsos, segundo relatos.

Assim como o tráfico, a milícia usa o assistencialismo como meio de angariar a simpatia do morador. Nesse final de ano, nas comunidades do Quitungo e Guaporé (zona norte), a milícia anunciou que distribuirá cestas de alimentos no Natal e brinquedos para as crianças.

Conquistados recentemente, a favela do Quitungo e o conjunto Guaporé são conhecidos no subúrbio pela presença ostensiva do grupo miliciano autodenominado "Os Galáticos".
Seus integrantes são policiais e ex-policiais que moravam na área, aproveitaram o enfraquecimento do tráfico para se impor, convidaram colegas com experiência de ações semelhantes em outras áreas e dizimaram os criminosos.

Na região, o comentário é que pelo menos 20 rapazes envolvidos com o tráfico desapareceram. A polícia não confirma; diz que não há registro oficial de desaparecimentos e que nada está sendo investigado.

Na região de Campo Grande, na zona oeste, um outro grupo miliciano se destaca. Eles são conhecidos com "Os Justiceiros". Seu símbolo é o Batman. Os membros da milícia costumam vestir roupas com a estampa do personagem.

Nos carros, pregam adesivos também alusivos ao super-herói. O chefe da milícia, de acordo com os moradores, tem um apelido na região: Mata Rindo; é um policial civil.

Outro lado

Para a Secretaria de Segurança Pública do Estado do Rio, investigações não concluíram pela existência das milícias. O secretário do governo Rosinha Matheus (PMDB), Roberto Precioso, não quis falar. A pasta disse, em nota, que "averiguações abertas não encontraram provas que confirmassem denúncias de que policiais integrariam as ditas "milícias'".

Diz a nota que duas averiguações e uma sindicância da Polícia Militar não reuniram "provas materiais ou testemunhais de envolvimento de PMs".

Na Polícia Civil, há "investigação em andamento que apura suposta participação de agentes lotados numa delegacia da zona norte". "Face à gravidade do assunto, as duas corregedorias estão orientadas a acolher e investigar, com todo o rigor, o surgimento de novas denúncias."

O comando do batalhão de Jacarepaguá foi proibido de falar. O porta-voz da PM, tenente-coronel Aristeu Tavares, disse que "quem tem a competência constitucional para apurar delitos de natureza comum é a Polícia Judiciária [Civil]. Cabe à autoridade de Polícia Judiciária Militar apurar delitos de natureza militar, o que não é o caso solicitado."

O comandante do 18º batalhão, tenente-coronel César Lima, disse que não é errado policiais que moram em favela expulsarem traficantes em autodefesa.

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