10/06/2000
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19h42
Alunos e professores dos 21 cursos de medicina ameaçados de fechamento são unânimes ao criticar o Exame Nacional de Cursos, o provão.
A alegação mais frequente é o fato de o provão avaliar apenas o conhecimento teórico dos alunos e não a prática ou a posição ética diante de situações que o futuro profissional vai enfrentar no campo de trabalho. O exame do MEC (Ministério da Educação) será realizado neste domingo, a partir das 13h
O fato de a avaliação ser pontual também é muito criticado. Mas o maior problema apontado é o 'rankeamento' das universidades e o estabelecimento prévio de 12% de cursos com conceito E, 18 % com conceito D, 40% com conceito C, 18% com conceito B e 12% com conceito A.
Para Walmir Albuquerque, reitor da UA (Universidade do Amazonas), "todas as universidades têm de se submeter a uma avaliação, mas os critérios do provão têm de ser revistos", diz.
William Mota de Siqueira, coordenador do curso de medicina da UFPA (Universidade Federal do Pará), também é contra os critérios do provão. 'As universidades têm de fazer sua avaliação continuamente, mas o que o MEC avalia nós questionamos. Os critérios do MEC são eliminatórios', analisa.
Para Maria Deise Onich, coordenadora do curso de medicina da UEPA (Universidade Estadual do Pará), o conceito obtido pelo curso no último provão foi injusto pois os alunos não tinham qualquer motivação e não concordavam com a avaliação. 'Boa parte dos alunos apenas assinou a prova, o que levou o conceito para baixo'.
Nelson Fraiji, professor de Clínica Médica da UA também é da mesma opinião. 'Os alunos negligenciaram por que para eles não pesava o desempenho no provão'.
Depois do "descaso", os três cursos estão na lista do MEC e passaram por avaliação de especialistas que vão indicar até o final de junho se o credenciamento dos cursos deve ser renovado ou não.
Mesmo com as críticas, os professores consideram que as avaliações são necessárias. 'A avaliação feita pelas entidades da classe médica é a mais aconselhável', sugere Fraiji.
Segundo Regina Estella, presidente da Abem (Associação Brasileira de Ensino Médico), a entidade vem fazendo avaliação, conhecida como Cinaem, das escolas de medicina de todo o país desde 91. 'Queremos chegar a um modelo de escola que responda mais à sociedade. O que está faltando em muitas escolas é a questão da responsabilidade social e do humanismo e isso o provão não pega', analisa.
Para Estella, o provão só avalia a memória, o que não garante que as escolas estejam boas ou não, pois os alunos podem se sair bem na prova, mas as condições gerais do curso podem estar ruins.
Tancredo Maia, da Diretoria de Avaliação e Acesso ao Ensino Superior do Inep, responsável pelo provão, afirma que o exame não substitui o Cinaem, mas que os dois se completam. "O Cinaem avalia uma coisa e o provão, outra." Para ele, a vantagem do provão é que foi possível separar os cursos bons dos ruins. "Em 9 anos de Cinaem isso não havia sido feito."
Especificidades regionais também são apontadas pelos alunos como um aspecto a ser reavaliado pelo MEC. Para Tatiana Arruda, aluna do último ano de medicina da UA, o provão supervaloriza assuntos que não fazem parte da realidade do profissional em algumas regiões.
Fechamento
Os 21 cursos de medicina que correm o risco de ser fechados após terem recebido conceitos D e E no último provão aguardam para o final de junho uma posição do MEC sobre a continuidade ou não de seus credenciamentos.
No final deste mês ficarão prontos os relatórios das comissões de especialistas que analisaram, durante seis meses, as condições de ofertas desses cursos. A avaliação foi baseada em três quesitos: corpo docente, grade curricular e infra-estrutura.
Os relatórios serão enviados ao CNE (Conselho Nacional de Educação). Os cursos que tiverem fraco desempenho vão para a avaliação do conselho com a indicação de não terem seu credenciamento renovado.
No entanto, mesmo com essa indicação, esses cursos ainda vão ter uma nova chance. Eles terão um prazo de mais seis meses para restabelecerem suas condições de oferta, quando então passarão por uma nova avaliação e então será tomada uma posição definitiva sobre o descredenciamento ou não da instituição.
Entre os 21 cursos ameaçados, 6 são de universidades públicas, das quais 4 são federais, mantidas pelo MEC.
Sobre os cursos das federais, a SESu (Secretaria de Ensino Superior do MEC) disse, por meio de sua assessoria, que esses cursos 'não correm risco' de descredenciamento, pois a maior deficiência deles é a infra-estrutura. Para amenizar esse problema o ministério abriu um programa para renovação de equipamentos que prevê, para o segundo semestre, a compra de 60 mil itens para todas as áreas das 52 universidades federais e 47 Hospitais Universitários de todo o país. O investimento será de R$ 500 milhões.
Único curso
Na região Norte, a ameaça de descredenciamento é preocupante. Dos 4 cursos de medicina existentes na região, 3 (Universidade do Amazonas, Federal do Pará e Estadual do Pará) estão na lista do MEC. A outra universidade existente na região é a Federal de Roraima, mas o curso de medicina é novo e ainda não foi avaliado.
Em Estados como Amazonas e Maranhão existe apenas um curso para todo o Estado. Segundo Nelson Fraiji, professor de Clínica Médica da UA (Universidade do Amazonas), o curso de medicina atende também a uma demanda dos Estados do Acre e Rondônia e há um déficit de profissionais no mercado na região. 'A proporção de médicos por habitante no Amazonas é de 1 para 500 e nós precisaríamos ter pelo menos o dobro disso', diz.
Investimentos
Entre as universidades públicas são frequentes as queixas sobre a carência de recursos e déficit de pessoal.
Segundo o reitor da UA existe uma necessidade de reposição de 25% de docentes e corpo técnico. Apenas para o Hospital Universitário Getúlio Vargas, gerenciado pela universidade, existe a necessidade de reposição de 300 funcionários, o que compromete o aprendizado dos alunos.
No curso de medicina da UFPA, a média é de 1 professor para 6 alunos, quando o ideal seria 1 professor para cada 3 alunos, segundo o coordenador do curso.
Quando o assunto são cifras os diretores das instituições só falam em déficit.
Na Universidade Municipal de Blumenau, em Santa Catarina, juridicamente uma instituição pública, os alunos pagam, em média R$ 900 mensais para frequentar as aulas do curso de medicina. De acordo com o coordenador do curso, João Natel, os únicos recursos públicos que a universidade recebe vêm do governo do Estado, sob a forma de bolsas de estudo.
Na UFPA, segundo Siqueira, em 95 o orçamento da universidade era de R$ 24 milhões, este ano foi de R$ 11 milhões. Sobre o investimento de R$ 500 milhões previsto para o segundo semestre ele é cético. 'Se vier, será bem-vindo, mas até agora não tenho conhecimento de nada', diz.
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Alunos e professores de cursos ameaçados criticam provão
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CARLA NASCIMENTO, repórter da Folha OnlineAlunos e professores dos 21 cursos de medicina ameaçados de fechamento são unânimes ao criticar o Exame Nacional de Cursos, o provão.
A alegação mais frequente é o fato de o provão avaliar apenas o conhecimento teórico dos alunos e não a prática ou a posição ética diante de situações que o futuro profissional vai enfrentar no campo de trabalho. O exame do MEC (Ministério da Educação) será realizado neste domingo, a partir das 13h
O fato de a avaliação ser pontual também é muito criticado. Mas o maior problema apontado é o 'rankeamento' das universidades e o estabelecimento prévio de 12% de cursos com conceito E, 18 % com conceito D, 40% com conceito C, 18% com conceito B e 12% com conceito A.
Para Walmir Albuquerque, reitor da UA (Universidade do Amazonas), "todas as universidades têm de se submeter a uma avaliação, mas os critérios do provão têm de ser revistos", diz.
William Mota de Siqueira, coordenador do curso de medicina da UFPA (Universidade Federal do Pará), também é contra os critérios do provão. 'As universidades têm de fazer sua avaliação continuamente, mas o que o MEC avalia nós questionamos. Os critérios do MEC são eliminatórios', analisa.
Para Maria Deise Onich, coordenadora do curso de medicina da UEPA (Universidade Estadual do Pará), o conceito obtido pelo curso no último provão foi injusto pois os alunos não tinham qualquer motivação e não concordavam com a avaliação. 'Boa parte dos alunos apenas assinou a prova, o que levou o conceito para baixo'.
Nelson Fraiji, professor de Clínica Médica da UA também é da mesma opinião. 'Os alunos negligenciaram por que para eles não pesava o desempenho no provão'.
Depois do "descaso", os três cursos estão na lista do MEC e passaram por avaliação de especialistas que vão indicar até o final de junho se o credenciamento dos cursos deve ser renovado ou não.
Mesmo com as críticas, os professores consideram que as avaliações são necessárias. 'A avaliação feita pelas entidades da classe médica é a mais aconselhável', sugere Fraiji.
Segundo Regina Estella, presidente da Abem (Associação Brasileira de Ensino Médico), a entidade vem fazendo avaliação, conhecida como Cinaem, das escolas de medicina de todo o país desde 91. 'Queremos chegar a um modelo de escola que responda mais à sociedade. O que está faltando em muitas escolas é a questão da responsabilidade social e do humanismo e isso o provão não pega', analisa.
Para Estella, o provão só avalia a memória, o que não garante que as escolas estejam boas ou não, pois os alunos podem se sair bem na prova, mas as condições gerais do curso podem estar ruins.
Tancredo Maia, da Diretoria de Avaliação e Acesso ao Ensino Superior do Inep, responsável pelo provão, afirma que o exame não substitui o Cinaem, mas que os dois se completam. "O Cinaem avalia uma coisa e o provão, outra." Para ele, a vantagem do provão é que foi possível separar os cursos bons dos ruins. "Em 9 anos de Cinaem isso não havia sido feito."
Especificidades regionais também são apontadas pelos alunos como um aspecto a ser reavaliado pelo MEC. Para Tatiana Arruda, aluna do último ano de medicina da UA, o provão supervaloriza assuntos que não fazem parte da realidade do profissional em algumas regiões.
Fechamento
Os 21 cursos de medicina que correm o risco de ser fechados após terem recebido conceitos D e E no último provão aguardam para o final de junho uma posição do MEC sobre a continuidade ou não de seus credenciamentos.
No final deste mês ficarão prontos os relatórios das comissões de especialistas que analisaram, durante seis meses, as condições de ofertas desses cursos. A avaliação foi baseada em três quesitos: corpo docente, grade curricular e infra-estrutura.
Os relatórios serão enviados ao CNE (Conselho Nacional de Educação). Os cursos que tiverem fraco desempenho vão para a avaliação do conselho com a indicação de não terem seu credenciamento renovado.
No entanto, mesmo com essa indicação, esses cursos ainda vão ter uma nova chance. Eles terão um prazo de mais seis meses para restabelecerem suas condições de oferta, quando então passarão por uma nova avaliação e então será tomada uma posição definitiva sobre o descredenciamento ou não da instituição.
Entre os 21 cursos ameaçados, 6 são de universidades públicas, das quais 4 são federais, mantidas pelo MEC.
Sobre os cursos das federais, a SESu (Secretaria de Ensino Superior do MEC) disse, por meio de sua assessoria, que esses cursos 'não correm risco' de descredenciamento, pois a maior deficiência deles é a infra-estrutura. Para amenizar esse problema o ministério abriu um programa para renovação de equipamentos que prevê, para o segundo semestre, a compra de 60 mil itens para todas as áreas das 52 universidades federais e 47 Hospitais Universitários de todo o país. O investimento será de R$ 500 milhões.
Único curso
Na região Norte, a ameaça de descredenciamento é preocupante. Dos 4 cursos de medicina existentes na região, 3 (Universidade do Amazonas, Federal do Pará e Estadual do Pará) estão na lista do MEC. A outra universidade existente na região é a Federal de Roraima, mas o curso de medicina é novo e ainda não foi avaliado.
Em Estados como Amazonas e Maranhão existe apenas um curso para todo o Estado. Segundo Nelson Fraiji, professor de Clínica Médica da UA (Universidade do Amazonas), o curso de medicina atende também a uma demanda dos Estados do Acre e Rondônia e há um déficit de profissionais no mercado na região. 'A proporção de médicos por habitante no Amazonas é de 1 para 500 e nós precisaríamos ter pelo menos o dobro disso', diz.
Investimentos
Entre as universidades públicas são frequentes as queixas sobre a carência de recursos e déficit de pessoal.
Segundo o reitor da UA existe uma necessidade de reposição de 25% de docentes e corpo técnico. Apenas para o Hospital Universitário Getúlio Vargas, gerenciado pela universidade, existe a necessidade de reposição de 300 funcionários, o que compromete o aprendizado dos alunos.
No curso de medicina da UFPA, a média é de 1 professor para 6 alunos, quando o ideal seria 1 professor para cada 3 alunos, segundo o coordenador do curso.
Quando o assunto são cifras os diretores das instituições só falam em déficit.
Na Universidade Municipal de Blumenau, em Santa Catarina, juridicamente uma instituição pública, os alunos pagam, em média R$ 900 mensais para frequentar as aulas do curso de medicina. De acordo com o coordenador do curso, João Natel, os únicos recursos públicos que a universidade recebe vêm do governo do Estado, sob a forma de bolsas de estudo.
Na UFPA, segundo Siqueira, em 95 o orçamento da universidade era de R$ 24 milhões, este ano foi de R$ 11 milhões. Sobre o investimento de R$ 500 milhões previsto para o segundo semestre ele é cético. 'Se vier, será bem-vindo, mas até agora não tenho conhecimento de nada', diz.
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