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Cotidiano
11/06/2000 - 03h58

Após provão, "alguns cursos serão fechados", diz ministro

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ANTÔNIO GOIS, da Folha de S.Paulo

O ministro da Educação, Paulo Renato Souza, diz "não ter dúvida" de que alguns cursos serão fechados por causa do mau desempenho no provão.

"O objetivo da avaliação não é fechar cursos, mas os que não estão levando a sério a avaliação não serão recredenciados", afirmou.

Apesar da resistência de alguns setores, ele diz não temer um boicote dos estudantes ao exame de hoje, para o qual estão inscritos 214 mil formandos de 18 cursos universitários em todo o Brasil.

O ministro admite estudar algumas mudanças no provão. A principal delas é a criação de um mecanismo que possa medir o quanto o curso ajudou o universitário na sua formação, comparando sua situação no vestibular e, posteriormente, na formatura.

Sobre a proposta da UNE de fazer a campanha pelo boicote nos melhores cursos, o ministro chama isso de "espírito de porco".

A avaliação do MEC é feita com base na nota dos alunos e nas visitas de comissões de avaliações aos cursos. Os conceitos variam de A, o melhor, a E, o pior.

Além do conceito do curso no provão, o MEC avalia também as condições de oferta dos cursos com visitas de técnicos às faculdades. Veja os principais trechos da entrevista.

Folha - O MEC admite mudar o provão?

Paulo Renato Souza - Sempre estivemos abertos a todas as sugestões. Desde o primeiro ano, mudamos a forma de apresentar as notas. Na primeira vez, simplesmente divulgamos os conceitos dos cursos. Depois passamos a divulgar também a variação da média dos alunos de cada curso em relação ao ano anterior. Essas mudanças surgiram após diversos seminários e debates que fizemos com as instituições. Hoje a análise dos dados é muito melhor do que era no primeiro provão, em 1996.

Folha - Muitas instituições particulares alegam que têm conceitos baixos porque seus alunos já entram no curso sabendo menos do que os estudantes que passam nas públicas. Não há como medir isso?

Paulo Renato Souza - Há uma metodologia que está sendo desenvolvida para avaliar isso. Quem me deu essa notícia foi o Cláudio Moura Castro (economista do Banco Mundial). Ela nos permitirá comparar o desempenho dos alunos que entram no vestibular com os que se formam. Para isso, serão usados critérios do vestibular das instituições, do Enem e do provão. A comparação será feita principalmente de acordo com o perfil socioeconômico do aluno. Somos simpáticos a essa metodologia.

Folha - As instituições reclamam que, independentemente da melhoria da nota dos alunos, sempre haverá cursos com E, já que esse conceito é atribuído ao se comparar a nota dos alunos de cada curso com a média geral. Por que não adotar o modelo de avaliação da pós-graduação, que não compara as notas das instituições?

Paulo Renato Souza - No caso da avaliação da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), era muito mais fácil avaliar a pós-graduação quando escolheram esse modelo. Foram fixados objetivos para os cursos atingirem e quem conseguisse isso ganharia um bom conceito. Quando assumimos o ministério, 54% dos cursos eram A, mas isso não significa que a nossa pós-graduação era a melhor do mundo.

Adotamos critério diferente no provão porque acredito que toda nota tem que ser relativa. A Capes traça metas para serem atingidas. Também fazemos isso quando avaliamos as condições de oferta. Se todos os cursos atenderem às nossas exigências, todos terão conceitos bons.

Folha - O MEC vai realmente fechar cursos com base nos resultados da avaliação?

Paulo Renato Souza - Eu não tenho dúvida de que alguns cursos serão fechados. Eu vejo que nem todos reagem positivamente e alguns ainda pensam que a avaliação não é para valer. Eu não quero fechar curso, mas acho que alguns serão fechados porque não demonstraram vontade de mudar.

Folha - Quanto custa o provão?

Paulo Renato Souza - É barato. Neste ano, vamos avaliar cerca de 3.000 cursos. O custo médio por curso é de R$ 5.300. É mais barato do que enviar um consultor para cada instituição.

Folha - Alguns conselhos de classe têm muita resistência ao provão. Quando o senhor acha que isso vai acabar?

Paulo Renato Souza - A resistência é corporativa. Quem resiste, custa a entender que a avaliação é um processo. Isso vem diminuindo com o tempo. Temos claramente uma diminuição no percentual de alunos que entregam a prova em branco, mas não espero nunca ter unanimidade.

Folha - O que o senhor acha da estratégia da UNE de tentar convencer os melhores cursos a boicotar o provão?

Paulo Renato Souza - Isso eu chamo de espírito de porco. Sabem que está dando certo, querem acabar por quê? Qual a vantagem que levaram os alunos desses cursos?

Folha - O senhor não teme que um novo governo que não concorde com o provão acabe com ele?

Paulo Renato Souza - Para evitar que isso aconteça, estamos tomando duas providências. A primeira é tornar lei o processo de avaliação. A segunda é ter uma instituição independente capaz de avaliar os cursos. Para isso, vamos criar a Agência Nacional de Educação, que irá assumir as responsabilidades do Inep (órgão do MEC que cuida da avaliação).

Folha - Como funcionará?

Paulo Renato Souza - Hoje nós fazemos a avaliação com um grupo de pessoas de confiança. Se o ministro mudar, uma nova equipe pode ter problemas em continuar com o processo, o que pode causar atrasos. Os dados do censo escolar, por exemplo, não podem atrasar, pois é a partir deles que os recursos do Fundef são distribuídos. É preciso ter uma instituição independente, com diretores com mandatos de longo prazo. A proposta de criação dessa agência irá para o Congresso no segundo semestre deste ano.

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