Passageiros reclamam de atrasos em vôos; situação deve melhorar amanhã
da Folha Online
A suspensão de pousos e decolagens no aeroporto internacional de São Paulo, em Cumbica (Guarulhos, região metropolitana), entre a noite de segunda e a manhã desta terça-feira, causou atrasos em mais de 150 vôos, provocou filas e reflexos em outros terminais do país. Os problemas foram atribuídos ao nevoeiro. A expectativa do presidente da Infraero (estatal que administra os aeroportos), brigadeiro José Carlos Pereira, é de que a situação esteja normalizada amanhã, se as condições meteorológicas não voltarem a interromper as operações.
"A estimativa é que só volte ao normal amanhã [quarta-feira] cedo, se não ocorrer mais nevoeiro. E é possível que ocorra. Aí o país inteiro é afetado pelo efeito dominó [de atrasos]", afirmou o brigadeiro.
Muitos passageiros passaram a noite no aeroporto de Cumbica, que interrompeu pousos e decolagens por volta das 22h20 de segunda (2). As decolagens foram retomadas às 5h04, com auxílio de instrumentos, e os pousos, às 6h44. Por volta das 14h, o terminal ainda operava com auxílio de aparelhos.
Durante toda a manhã, os passageiros reclamavam de filas e dos atrasos. Balanço da Infraero mostra que 158 dos 268 vôos programados para ocorrer no aeroporto das 22h de ontem às 14h de hoje sofreram atrasos superiores a uma hora --74 chegadas e 84 partidas. Os problemas afetam vôos domésticos e internacionais.
Espera
No começo da tarde, ao menos dez vôos internacionais registravam atrasos de mais de 17 horas. São vôos que deveriam ter decolado na noite de segunda, mas foram remarcados para a tarde desta terça.
| Raimundo Pacco/Folha Imagem |
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| Vôo que seguia para Fortaleza atrasa, e passageiros se recusam a deixar avião, em SP |
É o caso de um vôo da American Airlines para Miami (EUA), que deveria ter decolado às 22h45, mas foi remarcado para as 14h de hoje e, depois, para as 15h. Os passageiros relataram à Folha Online que, na noite de ontem, ficaram cinco horas dentro da aeronave à espera da decolagem. Eles dizem que tiveram a bagagem devolvida apenas às 3h.
"Disseram que poderíamos passar a noite em um hotel, mas quando chegamos lá, soubemos que tínhamos que pagar para, depois, pedir reembolso à companhia", afirma a atriz e cantora Nayla Paschoa, 24. Ela pagou R$ 85 ao hotel Express Inn pela diária. A American Airlines afirma que irá reembolsá-la com depósito em conta corrente na próxima semana.
Pela manhã, entre os passageiros que lotavam o saguão de Cumbica estava a professora Rosana Ferraz, 33. Ela saiu de Roma (Itália) com destino a São Paulo na noite de ontem, com uma conexão em Milão (Itália). Ao chegar em São Paulo, porém, o aeroporto estava fechado, e o avião foi desviado para o aeroporto Tom Jobim, no Rio. Uma hora depois, ela embarcou de volta para São Paulo. "O vôo Rio-São Paulo durou mais de duas horas, porque ficamos rodando sobre o aeroporto, esperando autorização para pousar", afirmou.
Quando conversou com a reportagem da Folha Online, ela enfrentava fila para fazer check-in e embarcar em um vôo da TAM com destino a Florianópolis (SC), de onde seguirá de carro até Criciúma (SC). Devido ao desvio para o Rio, a professora deveria ter perdido o vôo para Florianópolis, mas ele também atrasou. "Estou contando com mais quatro horas de espera."
Durante a madrugada, passageiros de um vôo da TAM que deveria ter decolado às 20h45 de segunda (2) para Fortaleza (CE) protestaram. Cerca de 70 pessoas se recusaram a deixar a aeronave. Eles queriam a confirmação da nova data da viagem.
Por volta das 2h, os passageiros afirmavam que não tinham recebido o serviço de bordo ou mesmo água. Segundo a economista Ana Carla Fonseca, que viajava a trabalho, depois de uma hora de atraso e quando começava a manobrar a aeronave, o piloto avisou que precisava parar porque uma fechadura blindada deveria ser trocada. "Quinze minutos se passaram e o piloto avisou que não decolaria mais porque passava das 22h e o aeroporto estava fechado", afirmou Carla.
Outros aeroportos
As operações no aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre (RS), também foram suspensas na manhã desta terça. Pousos e decolagens foram interrompidos também por causa da neblina, afirma a Infraero (estatal que administra os aeroportos). As decolagens foram retomadas às 9h30 e os pousos, por volta das 11h.
Apesar dos problemas no aeroporto de Cumbica, a situação é tranqüila no aeroporto de Congonhas (zona sul de São Paulo). De acordo com balanço parcial da Infraero, da 0h às 10h, apenas cinco dos 80 vôos programados sofreram atrasos. Outros sete foram cancelados.
A estatal informa que, no Rio, seis dos 50 vôos programados para o Tom Jobim sofreram atrasos (12%) e sete foram cancelados, da 0h às 10h. O número de atrasos é maior em aeroportos do Nordeste, de acordo com o levantamento. Em Recife, a espera atingiu 36,3% dos 22 vôos previstos para o horário.
Defesa do consumidor
A recomendação dos órgãos de defesa do consumidor é para que os passageiros prejudicados cobrem seus direitos na Justiça. Para isso, devem guardar notas fiscais de lanches, táxis ou gastos com hospedagem.
O Idec (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor) criou uma campanha "Apagão aéreo: exija respeito e o fim da crise!". O instituto disponibiliza em seu site um modelo de ação que pode ser preenchido pelo próprio interessado, sem necessidade de auxílio de um advogado.
A Fundação Procon disponibiliza em seu site uma cartilha elaborada em dezembro de 2006 dando orientações ao consumidor. Com quatro páginas, é possível inclusive imprimi-la, dobrá-la e mantê-la na carteira.
Seqüência de problemas
O governo afirma que os novos atrasos são resultado das condições meteorológicas, ao contrário da última crise do setor aéreo, no final de junho, quando a Aeronáutica atribuiu os problemas aos controladores de tráfego aéreo, afastou profissionais do Cindacta-1 (Centro Integrado de Defesa Aérea e Controle do Tráfego Aéreo), com sede em Brasília, e anunciou medidas para controlar a situação.
A recente seqüência de atrasos começou na noite da última sexta-feira e atrapalharam as viagens no primeiro fim de semana das férias de julho. Os atrasos foram causados principalmente pelo fechamento de Congonhas (zona sul de São Paulo) devido a um forte nevoeiro, na noite de sexta (29); e pelo seqüenciamento de vôos instalado no aeroporto de Guarulhos (Grande SP) pelo Comando da Aeronáutica. Com a ordem, o espaçamento entre pousos e decolagens, que normalmente não passa de quatro, foi de até sete minutos.
Na manhã de segunda, até o presidente da Infraero enfrentou atraso para embarcar de Brasília para o Rio. "Evidentemente os passageiros não estavam satisfeitos com o atraso, nem eu", afirmou. Para Pereira, a crise aérea poderia ser resolvida com a implementação de um plano aeroviário --que incluiria mudanças na estrutura dos aeroportos e no tráfego aéreo.
Ao se referir sobre os problemas enfrentados no fim de semana pelos passageiros, o brigadeiro José Carlos Pereira afirmou que a malha aérea "foi para o espaço" devido a problemas meteorológicos, que causaram atrasos em um efeito cascata.
A Anac, em nota, afirmou que fiscaliza "rigorosamente e cotidianamente os eventos relacionados com a operação da aviação civil brasileira" e que "as concessionárias serão autuadas caso não estejam compatíveis".
Colaboraram GABRIELA MANZINI, da Folha Online, LÍVIA MARRA, editora de Cotidiano da Folha Online, e MARTHA ALVES, da Agência Folha
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