Cotidiano
19/07/2007 - 05h20

Risco de desabamento e fogo prejudicam resgate de corpos em SP

da Folha Online

O risco de desabamento no prédio da TAM Express e focos de incêndio que ainda persistem no local prejudicam as buscas às vítimas do acidente com o vôo 3054 da TAM, ocorrido na noite da última terça-feira (17) em Congonhas (zona sul de São Paulo). Até o começo da madrugada desta quinta, 180 mortes haviam sido confirmadas, e o número pode chegar a 200. É o maior acidente aéreo da história do país.

O acidente com o avião --que havia decolado de Porto Alegre com 186 pessoas a bordo-- aconteceu durante pouso. Sem controle, a aeronave passou pela pista de pouso, atravessou as pistas da avenida Washington Luís e atingiu o prédio da TAM Express --empresa de transporte de cargas. Houve explosão e incêndio. Além dos passageiros, o acidente vitimou funcionários da empresa --uma funcionária morreu no hospital e cinco estão desaparecidos--, além de outras pessoas em solo --não há confirmação sobre o número.

O capitão Nilton Miranda, do Corpo de Bombeiros, afirma que equipes de resgate ainda não tiveram acesso a cerca de 20% da área atingida pelo Airbus-A320 devido ao risco de desabamento. Ele afirma que os bombeiros estimam que 20 corpos permaneçam sob os escombros.

Paulo Whitaker/Reuters
Bombeiros removem destroços do Airbus da TAM e buscam vítimas
Bombeiros removem destroços do Airbus da TAM e buscam vítimas

Na madrugada desta quinta, foi realizada a operação de transbordo do combustível dos tanques subterrâneos do posto da Shell vizinho ao prédio da TAM e também afetado pelo acidente. O objetivo era retirar cerca de 100 mil litros de combustíveis dos tanques --não danificados-- para que equipamentos pesados sejam usados no local e auxiliem na retirada dos escombros pela parte superior do prédio e no resgate das vítimas.

Devido ao esvaziamento dos tanques e ao risco de desabamentos, os trabalhos de busca foram reduzidos. Durante certo período, os bombeiros permaneceram resfriando as paredes do galpão, na tentativa de reduzir os focos de fogo.

"Com o trabalho de retirada dos escombros, o material que estava no depósito [da TAM Express] ficou sob o entulho. O oxigênio entra pelos escombros, e, com o querosene do avião, o fogo vai se alimentando", explicou o capitão.

No total, 84 homens do Corpo de Bombeiros permanecem no local e trabalham em turnos de 24 horas. Desde o início dos trabalhos, um bombeiro se feriu. Ele sofreu luxação no ombro após uma queda e foi encaminhado para atendimento médico.

Vítimas

Do total de corpos resgatados, 146 já foram levados ao IML (Insituto Médico Legal) e 12, identificadas por meio das digitais --João Francisco Caltabiano, Fabio Martinho Novakoski Fernandes, José Antônio Lima da Luz, José Luís Souto, Osvaldo Luiz de Souza, Fernando Volpe, Silvania Regina de Ávila Alves, Guilherme Duque de Moraes, Michele Dias Miranda, Marcio Rogério Andrade, Melissa Ura e Rubem Wiethaeuper.

O coordenador da Superintendência da Polícia Técnico-Científica, Celso Perioli, afirma que, agora, a equipe iniciará uma segunda fase no processo de identificação das vítimas --que foram carbonizadas. Nesta etapa, a identificação deverá ser feita a partir da análise de arcada dentária, implantes ou pinos nos corpos. O exame de DNA será o último recurso do processo.

"A gente vai esgotar todas as etapas, deixando por último o exame de DNA naqueles cadáveres que evidentemente estão comprometidos pela carbonização", afirmou.

Joel Silva/Folha Imagem
Bombeiros ainda trabalham no local do acidente em busca de vítimas do avião Airbus da TAM
Bombeiros ainda trabalham no local do acidente em busca de vítimas do avião Airbus da TAM

Segundo Perioli, não há prazo para a conclusão dos trabalhos. "Temos que cumprir etapas, procedimentos e padrões."

Investigação

Imagens gravadas no aeroporto de Congonhas (zona sul de São Paulo) e divulgadas nesta quarta-feira mostram o momento do pouso do vôo 3054 da TAM.

Os vídeos comparam pousos de outras aeronaves com o do Airbus A-320 acidentado. As imagens, divulgadas pela Infraero, mostram que o avião da TAM levou três segundos para fazer o trajeto na pista que, em condições normais, levariam 11 segundos. Clique aqui para assistir ao vídeo.

As causas do acidente, no entanto, ainda serão investigadas. A caixa-preta do avião será analisada na NTSB (National Transportation Safety Board), nos Estados Unidos. O resultado será avaliado pela comissão de profissionais do setor que investigará o acidente.

A Polícia Federal instaurou na quarta-feira (18) um inquérito para apurar fatos relacionados com o acidente. A PF (Polícia Federal) afirma que o objetivo da investigação é definir, por meio de perícia, as condições de segurança da pista do terminal, além de identificar "eventual responsabilidade de agentes públicos, ou de particulares, sobre a possível liberação da pista em obras sem o cumprimento dos requisitos técnicos necessários".

As pistas do terminal passaram por reformas recentemente e foram liberadas sem o chamado "grooving" --ranhuras feitas na superfície do pavimento que facilitam o escoamento de água em dias de chuva.

Em entrevista concedida na noite desta quarta por técnicos do setor aéreo e aeroportuário, o superintendente da Infraero Armando Schneider descartou a possibilidade de ter havido aquaplanagem durante o pouso. Segundo ele, a pista estava "apenas molhada", ou seja, não havia formação de lâmina de água, devido à chuva.

Durante a entrevista, Schneider afirmou repetidamente que a pista principal de Congonhas é "totalmente segura". Ele afirmou que, na última medição realizada, o coeficiente de atrito na pista principal estava, inclusive, "acima de padrões internacionais".

"Nem todos os aeroportos do mundo têm esse sistema [o "grooving"]. Só alguns aeroportos têm particularidades e devem utilizar o "grooving", como é o caso de Santos Dumont [no Rio] também", disse.

O prefeito Gilberto Kassab (DEM) e o governador José Serra (PSDB), defenderam, também na quarta-feira, a redução do tráfego aéreo de São Paulo. "Congonhas funciona acima de sua capacidade, e a curto prazo precisamos de uma definição por parte dos órgãos federais sobre a capacidade do aeroporto. É um direito do paulistano saber", afirmou Kassab.

Serra afirmou que, devido a sua localização, Congonhas "é um aeroporto inadequado" para a cidade e "não poderia ter se transformado no aeroporto principal de São Paulo".

O Ministério Público Federal quer que as operações de pouso e decolagem no aeroporto de Congonhas (zona sul de São Paulo) sejam interrompidas, nas pistas principal e auxiliar, até que sejam confirmadas as condições de segurança do terminal. Na ação, a Procuradoria defende o fechamento do aeroporto até que sejam afastadas as dúvidas deixadas pelo acidente. Para isso, o Ministério Público pede a realização de uma perícia nas pistas.

A pista principal de Congonhas deve permanecer fechada até sexta-feira (20), quando poderá ser reaberta para operar com pista seca. Em caso de chuva, ela deverá ser bloqueada novamente. Desde o acidente, pousos e decolagens são feitos pela pista auxiliar.

Com LÍVIA MARRA, editora de Cotidiano da Folha Online, CAROLINA FARIAS e RENATO SANTIAGO, da Folha Online

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