Antes do acidente, engenheiros protestaram contra condições "insuficientes"
GABRIELA GUERREIRO
da Folha Online, em Brasília
Um grupo de 11 engenheiros da Infraero encaminhou no final de maio ao presidente da estatal, brigadeiro José Carlos Pereira, um manifesto no qual afirmam ter condições "insuficientes" de trabalho na empresa. O protesto foi assinado por engenheiros que temiam ser responsabilizados por eventuais problemas que pudessem ser provocados por falhas da estatal.
O manifesto foi encaminhado ao brigadeiro quase dois meses antes do acidente com o Airbus-A320 da TAM. No texto, os engenheiros reclamam da falta de pessoal na Infraero diante do intenso crescimento do tráfego aéreo nacional.
"Essas cifras de crescimento não encontram paralelo no cenário nacional e, certamente, induziram à rápida obsolescência da estrutura aeroportuária do país, objeto agora de forte ação administrativa para a reconquista da modernização", afirmam os engenheiros no texto.
Em depoimento nesta terça-feira à CPI do Apagão Aéreo na Câmara, o superintendente de empreendimentos da engenharia da Infraero, Armando Schneider Filho --que foi um dos signatários do manifesto--, disse que está frustrado com as condições de trabalho impostas pela empresa nos últimos anos.
"Para mim, é dolorido trabalhar 27 anos nessa empresa e vê-la nessa situação. Eu não estou insatisfeito, estou apenas externando uma situação", disse.
Ao ser questionado após prestar depoimento à CPI sobre suas declarações, o superintendente voltou atrás. "Não queria comentar porque era uma coisa interna. Não era para ser divulgada", disse Schneider.
Os engenheiros cobram da Infraero, no manifesto, que não sejam culpados por eventuais falhas da empresa sem antes terem direito ao contraditório. "Nós assumimos a responsabilidade apenas pelas ações estritamente técnicas, em nível gerencial de empreendimentos que conduzimos e continuamos conduzindo", afirmam.
No texto, os engenheiros ainda alertam que muitas decisões tomadas pela estatal são "políticas", determinadas por dirigentes da empresa. "É natural que numa organização o corpo técnico obedeça às diretrizes que não impressas pelos dirigentes, escolhidos por critérios políticos. O compromisso com a hierarquia, para os técnicos que este subscrevem, nunca ultrapassou os limites da legalidade nem da ética", diz o texto.
Resposta
Em ofício encaminhado pela Infraero à CPI do Apagão Aéreo na Câmara, o brigadeiro José Carlos Pereira afirma que as reclamações dos engenheiros não têm fundamento.
"Informo que a matéria será submetida à diretora-executiva da Infraero e que este presidente não concorda com a argumentação, de forma genérica, nem com a lógica formada pela manifestação em pauta", diz o brigadeiro.
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