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Cotidiano
03/09/2007 - 09h39

Justiça condena três policiais por tráfico em SP

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MARIO CESAR CARVALHO
KLEBER TOMAZ
da Folha de S.Paulo

Três investigadores do Denarc, o departamento de narcóticos da Polícia Civil de São Paulo, foram condenados a 12 anos de prisão por tráfico de drogas. Não é um simples caso de policial que se torna traficante. No decorrer do processo, a cúpula do Denarc defendeu os investigadores e tentou evitar que eles fossem presos pela PF.

Os delegados que comandavam o departamento alegaram que os policiais estavam infiltrados num grupo criminoso para depois incriminá-lo. A Justiça desconsiderou o argumento. Não havia autorização judicial para a infiltração.

Os investigadores --os irmãos Sérgio Antonio Saconi, 39, e Sandro José Saconi, 37, e César Wesley Porcelli, 39-- foram condenados por terem financiado a remessa de 1,5 kg de cocaína de Manaus (AM) para Campinas (SP) em 2004.

De acordo com a Polícia Federal, o volume de droga que eles negociavam era muito maior, de 1.520 kg. O grande negócio não foi concretizado porque a PF prendeu os traficantes que os policiais usavam, segundo a decisão judicial.

O trio condenado continua trabalhando no Denarc, mas está em função administrativa: perdeu o direito de portar armas e usar o distintivo. Presos pela PF em novembro de 2004, os três obtiveram em abril de 2006 um habeas corpus do Supremo Tribunal Federal que lhes dá o direito de apelar da condenação em liberdade.

A Corregedoria da Polícia Civil investiga os três policiais condenados. A tendência do órgão é seguir a decisão judicial e pedir a demissão do trio. A condenação ocorreu em julho.

A PF esbarrou no caso dos policiais traficantes ao investigar um grupo de colombianos em Araçoiaba da Serra, a 117 km de São Paulo. Ao grampear um telefone público que os traficantes usavam, a PF deparou-se com os policiais. As conversas mostram que eles negociavam a compra de cocaína. Ainda segundo a investigação da PF, os irmãos Saconi cuidavam da segurança dos traficantes durante o transporte da droga.

Robert Leon Carrel, um dos delegados mais famosos da história do Denarc, por causa da quantidade de drogas que apreendia, aparece em interceptações telefônicas combinando com um dos investigadores condenados, Sérgio Saconi, onde pegariam a droga.

"Tem um hangarzinho?", pergunta Carrel.

"Tem", responde Sérgio.

"Não tem PM, não tem nada...", quer saber Carrel.

"PM?"

"É."

"Há, não. É bem... o negócio é agrícola", afirma Sérgio.

"Minha preocupação é: a gente tá lá esperando os caras e acontece que nem aconteceu em Itu. Caralho! E chega aquele monte de filha da puta de PM lá", explica o delegado.

Logo em seguida, Carrel parece detalhar o que estavam negociando: "Tá legal, tá bom pra caralho, pô! 100 kg, caralho! A gente já vira a página".

Quando foi preso o traficante que trazia 1,5 kg de cocaína de Manaus, Sérgio ligou para o delegado e ele orientou-o a ir até o Denarc. Carrel, no entanto, não foi acusado no processo.

Dois delegados da Polícia Civil que conversaram com a Folha dizem que a PF pode ter incluído o nome de Carrel no processo por ciúmes das apreensões que ele fazia, superiores à dos federais. Até 2004, Carrel era abastecido com informações do DEA, a agência antidrogas dos Estados Unidos.

Carrel era uma lenda entre os policiais. Teria alugado helicóptero para fazer o papel de traficante superpoderoso. Num outro episódio, teria aparecido de cadeira de rodas, interpretando um traficante tetraplégico. Como fazia apreensões de grande porte, nunca teve seus métodos questionados.

Outros dois delegados da cúpula do Denarc à época, Ivaney Cayres de Souza e Everardo Tanganelli, testemunharam na corregedoria a favor dos investigadores --disseram que eram bons profissionais.

No processo, o delegado da PF Sílvio César Fernandes Dias diz que Ivaney, Everardo e Carrel tentaram impedir a prisão dos investigadores. Ivaney teria ligado a ele e ameaçado: "Seu trabalho é sem critério. Você vai ver o que vai acontecer com você". Ivaney refuta essa versão. Diz que foi ele quem prendeu os três investigadores.

Na interpretação do juiz, a infiltração dos investigadores era uma farsa. Quando o traficante peruano foi preso com 1,5 kg de cocaína no aeroporto de Viracopos, em Campinas (95 km de SP), os policiais do Denarc estavam no local. Se fossem infiltrados, eles ajudariam a PF a efetuar a prisão. Os investigadores, porém, fugiram.

Outra evidência de que os investigadores eram traficantes, segundo o juiz, foi que nenhum grama de cocaína comprada por eles foi apresentado ao Denarc --a droga era revendida pelos investigadores.

Outro lado

A Folha não conseguiu falar com Daniel Bialski, advogado de César Wesley Porcelli. Ele estava nos EUA, segundo seu pai, o também advogado Hélio Bialski. A Folha não conseguiu localizar os atuais advogados de Sérgio e Sandro Saconi.

No processo, os dois informaram que uma decisão judicial autorizava a infiltração em um caso e que este acabou se desdobrando em outra investigação.

O atual diretor do Denarc, Everardo Tanganelli, diz que o departamento não compra drogas nem infiltra policiais em grupos criminosos sem autorização judicial. Em nota enviada pela Secretaria de Segurança, ele afirma que o Denarc segue rigorosamente o que está previsto na lei nº 9.034, de 1995, a qual estabelece a obrigatoriedade de acompanhamento judicial nos casos de infiltração.

No caso dos policiais condenados, o departamento não tinha conhecimento da compra de drogas sem autorização judicial, segundo ele.

A nota informa que a cúpula do Denarc em 2004 (Ivaney Cayres, Tanganelli e Robert Leon Carrel) prestou depoimento sobre os três investigadores à Corregedoria, limitando-se a comentar a rotina dos policiais --não falaram sobre o crime "uma vez que não o presenciaram".

Ivaney, que hoje está na Academia de Polícia, informou por um assessor que nunca tentou impedir a prisão dos policiais. Ele diz que foi ele quem os prendeu e os entregou à PF. Ainda segundo o delegado, o Denarc nunca comprou drogas com dinheiro de verdade --só usava cédulas falsas.

Ivaney e Carrel não quiseram falar à Folha. A reportagem explicou a um assessor de Carrel que as conversas do delegado com um dos condenados seriam citadas. O assessor disse que a mãe do delegado estava doente e ele não falaria.

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