Um ano após queda do vôo 1907, familiares ainda cobram respostas
LÍVIA MARRA,
Editora de Cotidiano da Folha Online
RENATO SANTIAGO
da Folha Online
Há um ano, familiares de passageiros do vôo 1907 da Gol aguardam os resultados da investigação da Aeronáutica sobre o acidente com o Boeing da companhia área e o jato Legacy da empresa americana ExcelAire. Os dois aviões bateram no ar, por volta das 17h do dia 29 de setembro do ano passado, causando a morte dos 154 ocupantes do Boeing.
| Jorge Araujo/Folha Imagem |
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| Destroços do Boeing 737-800 da Gol na Floresta Amazônica |
O acidente --até então o maior já ocorrido no país-- expôs a fragilidade do controle aéreo brasileiro e levou a uma crise no setor que culminou em troca de comandos e em CPIs (Comissões Parlamentares de Inquéritos). Controladores de tráfego aéreo ouvidos pela reportagem afirmam que, após um ano, problemas ainda persistem.
O avião da Gol que fazia o vôo 1907 seguia de Manaus (AM) para o Rio, com escala em Brasília (DF), quando bateu em um Legacy da empresa de taxi aéreo dos Estados Unidos. Os destroços do Boeing caíram em uma mata fechada, a 200 km do município de Peixoto de Azevedo (MT). Mesmo avariado, o Legacy, que transportava sete pessoas, conseguiu pousar em segurança em uma base na serra do Cachimbo (PA).
As investigações sobre o acidente conduzidas pela PF (Polícia Federal) apontaram responsabilidade dos pilotos americanos Joe Lepore e Jan Paladino, do Legacy. O Ministério Público Federal acusou, além deles, quatro controladores de tráfego aéreo pelo acidente, apontando suposta falha humana.
A Justiça já começou a ouvir os envolvidos no processo, mas ficou sem a versão dos americanos, que, no mês passado, faltaram à audiência na Justiça Federal de Sinop (MT) e serão julgados à revelia.
Paralela à investigação da PF, a colisão foi alvo de CPIs na Câmara e no Senado, além de investigação pela própria Aeronáutica. E o resultado da apuração é uma das reivindicações da Associação de Familiares e Amigos das Vítimas do Vôo 1907.
| Divulgação/FAB |
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| Membros de equipe de resgate exibem caixa-preta de Boeing 737-800 da Gol |
"A gente não tem ainda a conclusão das investigações do Cenipa (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos), que estava prometida aos familiares para setembro. Até agora nenhuma informação foi passada à Associação sobre quando o Cenipa faria uma nova reunião com os familiares para colocar o resultado da conclusão dessa investigação", reclama Angelita De Marchi, presidente da Associação.
O Comando da Aeronáutica afirma que os trabalhos não têm como objetivo apontar a culpabilidade pelo acidente, mas fazer uma análise técnica do que aconteceu e recomendar medidas de segurança que evitem novos acidentes. Para o coronel-aviador Rufino Antonio da Silva Ferreira, Presidente da Comissão de Investigação de Acidente Aeronáutico, o prazo da investigação está dentro do esperado por se tratar de um acidente de grande porte.
O Legacy trafegava em altitude diferente da prevista no plano de vôo. Entre as dúvidas sobre o acidente que permanecem sem resposta está o motivo pelo qual o transponder do jato estava inoperante --o transponder aciona o TCAS (sistema anticolisão), que avisa os pilotos, visual e sonoramente, em caso de aproximação perigosa de qualquer objeto. Há suspeita de defeito ou falha humana ao manipular o aparelho.
Também é investigada a falha de comunicação entre o controle de tráfego aéreo e o jato da empresa americana. A Aeronáutica descarta a existência do chamado "buraco negro" no espaço aéreo brasileiro. Ontem, véspera de um ano do acidente, a FAB (Força Aérea Brasileira) voltou a negar falhas em seu sistema de controle do tráfego aéreo e a afirmar que "algumas normas e procedimentos não foram corretamente executados".
Até agora, as principais conclusões da Aeronáutica sobre o acidente eximem o próprio sistema de radares da FAB e o sistema anticolisão e o rádio do Legacy de terem causado o acidente. Entre os procedimentos que não foram respeitados, segundo a Aeronáutica, estão o ingresso do Legacy, sem solicitação, na chamada aerovia UZ6 e o fato de não haver tentativas de comunicação entre o avião e centro de controle entre as 15h51 e as 16h26.
O coronel-aviador Rufino Antonio da Silva Ferreira, presidente da comissão que investiga o acidente, afirma que a prioridade da FAB é a de realizar recomendações de segurança baseadas no caso. "A confecção de recomendações, de acordo com os fatores levantados, pode tomar algum tempo adicional em relação à previsão de 12 meses", diz.
Ao todo, desde o início das investigações, 51 recomendações já foram emitidas pelo Cenipa.
| Claudio Versiani/Folha Imagem |
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| Os pilotos Joe Lepore e Jan Paladino |
Crise
A crise aérea vivida no país após o acidente com o vôo 1907 foi agravada por operações-padrão de controladores de tráfego aéreo e falhas em equipamentos. As conseqüências foram sentidas em efeito cascata por todo país, com cancelamentos, atrasos, e aeroportos cheios.
Em 30 de março, controladores promoveram um motim que paralisou o espaço aéreo do país por aproximadamente cinco horas.
O governo sinalizou negociar com os controladores, que reivindicavam melhores condições de trabalho. Para retomar o controle da situação, em junho, a Aeronáutica afastou de suas funções profissionais classificados como "lideranças negativas" no Cindacta-1. Para o Comando, os controladores praticaram ações de insubordinação --com punição prevista para os militares.
A crise no setor se agravou em julho, com o acidente com o Airbus da TAM em Congonhas (zona sul de São Paulo), que deixou 199 mortos. Após o acidente, deixaram os cargos quatro dos cinco diretores da Anac; o brigadeiro José Carlos Pereira, então presidente da Infraero; e Waldir Pires, que era ministro da Defesa. No lugar dele assumiu Nelson Jobim.
O relator da CPI do Apagão da Câmara, deputado Marco Maia (PT-RS), não pediu o indiciamento dos diretores da Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) por responsabilidade na crise aérea. A decisão dele fez com que a oposição pedisse vista do relatório e ameaçasse apresentar um documento alternativo.
O resultado foi criticado pela presidente da associação de familiares das vítimas do vôo 1907. "Confesso que nós estamos um pouco decepcionados com a postura morna com que eles fizeram o relatório. Parece que não quiseram se comprometer muito. Acho que eles tinham muitos dados em mãos e, pelo menos, [poderiam] fazer algumas exigências de indiciamento, de investigação (...). A gente depositava mais esperança", afirmou.
| Sergio Lima/Folha Imagem |
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| Familiares dos controladores aquartelados são barrados na entrada do Cindacta 1 |
Reclamações
Controladores ouvidos pela Folha Online na época do acidente com o Boeing da Gol reclamavam da carga de trabalho, da pressão devido ao regime rígido imposto pela hierarquia militar e o medo de punições. Em um ano, profissionais foram afastados e outros presos, por insubordinação.
A reportagem voltou a ouvir profissionais e as reclamações foram mantidas. Segundo eles, a pressão ainda é grande e os equipamentos, falhos.
À época da colisão das aeronaves, eles apontaram falhas em radares e a existência de "pontos cegos" no espaço aéreo brasileiro. Os profissionais voltaram a afirmar que, entre os problemas enfrentados atualmente, ainda estão as pistas falsas dadas pelos radares.
Na avaliação deles, as condições dos equipamentos, o excesso de trabalho e o afastamento de colegas e substituições de profissionais ainda expõem o país a riscos de acidentes aéreos.
A FAB admite que falhas em radares podem acontecer, mas afirma os controladores são treinados para lidar com o comportamento --que considera comum-- de visualização do radar.
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