Triplica número de pit bulls abandonados em SP
MARINA GAZZONI
FELIPE MODENESE
Colaboração para a Folha de S.Paulo
A quantidade de cães pit bulls recolhida no CCZ (Centro de Controle de Zoonoses) de São Paulo é quase o triplo do total do ano passado. Até o dia 26 de setembro, o CCZ recebeu 943 pit bulls, a maioria abandonados nas ruas. Em todo o ano de 2006, foram 350 cães.
De acordo com o subgerente de Vigilância e Controle de Animais Domésticos, Arquimedes Galano, 52, o CCZ recebe ligações de pessoas que encontram os animais abandonados e captura os cães nas ruas. Os donos têm três dias úteis para buscar os cachorros antes que eles sejam encaminhados para a adoção ou para o sacrifício.
No caso dos pit bulls, não existe a opção de adoção e a única pessoa que pode salvar o cachorro da injeção letal é o próprio dono. "Para encaminhar um cão adulto à adoção é preciso um serviço de socialização que não podemos realizar", justifica Galano.
Os animais de raças consideradas agressivas, como o pit bull e o rottweiler, ficam em áreas separadas do CCZ e não podem ser vistos pelos visitantes. A direção do centro não permite que eles sejam fotografados ou filmados pela imprensa. "Sinto que expor a imagem do cachorro motiva ainda mais o abandono", lamenta Galano.
Por trás de uma porta de metal com um cartaz que informa que ali estão os cães "invasores" e pede que as pessoas não coloquem as mãos sobre a grade, oito pit bulls e três rottweilers aguardam seus donos em celas individuais. A estimativa do CCZ é de que 10% dos animais recolhidos são resgatados pelos donos, mas o percentual cai para 6% para os pit bulls.
Rejeição
Dona de oito cachorros e dois gatos, a empregada doméstica Maria do Carmo da Silva, 53, doou a cadela pit bull com cinco meses de idade para um amigo que já tinha um macho.
Quando o animal matou e comeu dois gatos, ela passou a temer pela segurança da família, principalmente da neta de dois anos. "Depois que ela matar todos os bichos vai virar para o lado da gente", pensou Maria do Carmo.
A empregada doméstica não foi a única que desistiu de ter um pit bull. Criador da raça desde 1999, Jefferson Martins, 25, não quer mais cruzar seus quatro cachorros. Ele reclama dos altos custos para a criação e da baixa demanda por filhotes. "Ninguém mais quer pit bull hoje em dia", desabafa.
Martins critica os proprietários que se impressionam com as reportagens sobre ataques de cães e abandonam os animais. Para ele, são casos isolados que aconteceram pela irresponsabilidade dos donos e criaram uma imagem negativa para a raça.
Adestramento
O criador defende que o próprio dono pode adestrar o cachorro com noções simples de obediência. Martins classifica os pit bulls como uma raça atleta, com capacidade para acompanhar o homem em qualquer atividade esportiva.
Martins insiste na necessidade do proprietário dispor de tempo para levar o cachorro passear. Segundo ele, a prática permite a socialização do animal com os seres humanos e o gasto de energia como forma de evitar a agressividade. "Se a pessoa não tem condição de ter um pit bull, não tenha. Compre um cachorro que não precisa gastar energia", frisa.
A raça surgiu no século 18, quando as rinhas entre ursos e cães eram populares na Inglaterra. O cruzamento do antigo bulldog inglês com o extinto terrier inglês buscou o desenvolvimento de uma raça selecionada para a força e o combate. Com a proibição das rinhas em 1835, uma nova seleção foi feita priorizando cachorros com temperamento mais equilibrado em relação aos agressivos. Em 1898, o United Kennel Club reconheceu o primeiro cão da raça pit bull.
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