Publicidade

Cotidiano
08/10/2007 - 09h00

Opinião: Pensamentos de um "correria"

Publicidade

FERRÉZ

ELE ME olha, cumprimenta rápido e vai pra padaria. Acordou cedo, tratou de acordar o amigo que vai ser seu garupa e foi tomar café. A mãe já está na padaria também, pedindo dinheiro pra alguém pra tomar mais uma dose de cachaça. Ele finge não vê-la, toma seu café de um gole só e sai pra missão, que é como todos chamam fazer um assalto.

Se voltar com algo, seu filho, seus irmãos, sua mãe, sua tia, seu padrasto, todos vão gastar o dinheiro com ele, sem exigir de onde veio, sem nota fiscal, sem gerar impostos.

Quando o filho chora de fome, moral não vai ajudar. A selva de pedra criou suas leis, vidro escuro pra não ver dentro do carro, cada qual com sua vida, cada qual com seus problemas, sem tempo pra sentimentalismo. O menino no farol não consegue pedir dinheiro, o vidro escuro não deixa mostrar nada.

O motoboy tenta se afastar, desconfia, pois ele está com outro na garupa, lembra das 36 prestações que faltam pra quitar a moto, mas tem que arriscar e acelera, só tem 20 minutos pra entregar uma correspondência do outro lado da cidade, se atrasar a entrega, perde o serviço, se morrer no caminho, amanhã tem outro na vaga.

Quando passa pelos dois na moto, percebe que é da sua quebrada, dá um toque no acelerador e sai da reta, sabe que os caras estão pra fazer uma fita.

Enquanto isso, muitos em seus carros ouvem suas músicas, falam em seus celulares e pensam que estão vivos e num país legal.

Ele anda devagar entre os carros, o garupa está atento, se a missão falhar, não terá homenagem póstuma, deixará uma família destroçada, porque a sua já é, e não terá uma multidão triste por sua morte. Será apenas mais um coitado com capacete velho e um 38 enferrujado jogado no chão, atrapalhando o trânsito.

Teve infância, isso teve, tudo bem que sem nada demais, mas sua mãe o levava ao circo todos os anos, só parou depois que seu novo marido a proibiu de sair de casa. Ela começou a beber a mesma bebida que os programas de TV mostram nos seus comerciais, só que, neles, ninguém sofre por beber.

Teve educação, a mesma que todos da sua comunidade tiveram, quase nada que sirva pro século 21. A professora passava um monte de coisa na lousa -mas, pra que estudar se, pela nova lei do governo, todo mundo é aprovado?

Ainda menino, quando assistia às propagandas, entendia que ou você tem ou você não é nada, sabia que era melhor viver pouco como alguém do que morrer velho como ninguém.

Leu em algum lugar que São Paulo está ficando indefensável, mas não sabia o que queriam dizer, defesa de quem? Parece assunto de guerra. Não acreditava em heróis, isso não!

Nunca gostou do super-homem nem de nenhum desses caras americanos, preferia respeitar os malandros mais velhos que moravam no seu bairro, o exemplo é aquele ali e pronto.

Tomava tapa na cara do seu padrasto, tomava tapa na cara dos policiais, mas nunca deu tapa na cara de nenhuma das suas vítimas. Ou matava logo ou saía fora.

Era da seguinte opinião: nunca iria num programa de auditório se humilhar perante milhões de brasileiros, se equilibrando numa tábua pra ganhar o suficiente pra cobrir as dívidas, isso nunca faria, um homem de verdade não pode ser medido por isso.

Ele ganhou logo cedo um kit pobreza, mas sempre pensou que, apesar de morar perto do lixo, não fazia parte dele, não era lixo.

A hora estava se aproximando, tinha um braço ali vacilando. Se perguntava como alguém pode usar no braço algo que dá pra comprar várias casas na sua quebrada. Tantas pessoas que conheceu que trabalharam a vida inteira sendo babá de meninos mimados, fazendo a comida deles, cuidando da segurança e limpeza deles e, no final, ficaram velhas, morreram e nunca puderam fazer o mesmo por seus filhos!

Estava decidido, iria vender o relógio e ficaria de boa talvez por alguns meses. O cara pra quem venderia poderia usar o relógio e se sentir como o apresentador feliz que sempre está cercado de mulheres seminuas em seu programa.

Se o assalto não desse certo, talvez cadeira de rodas, prisão ou caixão, não teria como recorrer ao seguro nem teria segunda chance. O correria decidiu agir. Passou, parou, intimou, levou.

No final das contas, todos saíram ganhando, o assaltado ficou com o que tinha de mais valioso, que é sua vida, e o correria ficou com o relógio.

Não vejo motivo pra reclamação, afinal, num mundo indefensável, até que o rolo foi justo pra ambas as partes.

REGINALDO FERREIRA DA SILVA, 31, o Ferréz, escritor e rapper, é autor de "Capão Pecado", romance sobre o cotidiano violento do bairro do Capão Redondo, na periferia de São Paulo, onde ele vive, e de "Ninguém é Inocente em São Paulo", entre outras obras.
Leia o artigo de Luciano Huck em www.folha.com.br/072801

Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo. debates@uol.com.br

Comentários dos leitores
Fábio Eugênio de Faria (2) 06/01/2008 23h18
Fábio Eugênio de Faria (2) 06/01/2008 23h18
Bom, não tenho a intenção criar um ambiente de apologia ao crime. Contudo, ratifico integralmente o texto do Ferréz. O caso é de polícia e não de auto promoção. Só para ilustrar, cito o exemplo do Paulinho da Viola, aliás, esse sim um artista no sentido primário do termo. Ele também foi assaltado não ficou choramingando pelos meios de comunicação. No entanto em suas músicas, o lord do samba, expõe com maestria a questão social. Isso sim, caro amigo do comenário acima, é trabalho social e não o assistencialismo hipócrita pequenoburgês que busca apenas vender a miséria da sociedade brasileira a troco de pontos no ibope para o próximo longo intervalo, talvez até daquela marca de relógio. Só para terminar, queria dizer que correria precisa bater na porta da casa do Ferréz para que ele conheça a violencia, pois ele, assim como todo morador de periferia (me incluo nessa), conhece pelo no e sobrenome a injustiça social. 7 opiniões
avalie fechar
Antonio Jota (1) 21/10/2007 09h51
Antonio Jota (1) 21/10/2007 09h51
Já andava e corria com boa firmeza. Mas estava de gatinhas por pirraça. Lambuzado de urina, terra roxa, o ranho a besuntar-me o rosto, e a lama me envolvia a pele branca. Berrava em diferentes tons e ninguém botava indiferença ao redor: apoiava-me nas mãos e joelhos, rolava o corpo miúdo no terreiro, voltava a apoiar-me nos cotovelos e ponta dos pés, empenhava-me ferrenhamente em botar bananeira, cambalhotas... Nu!
Já tentei, sobremaneira, me lembrar de algo anterior a isto, mas nada me vem à memória. Nesta cena é que percebi a existência. Nunca esqueci as caras que botaram - minha mãe, minha irmã e meu pai – estão estagnadas na lembrança tais e quais naquele dia, o dia primeiro em que percebi a vida!
Acho que era manhã de verão. Pois o sol escarlate botava-me quieto por aversão ao clarão ofuscante. Há dias não chovia porque me lembro bem da poeira farta e do ar quente. Sobre os ombros de meu irmão, quase já rapaz, a vara corcova e nas extremidades, arames que prendiam os galões cheios de água para abastecer a pia grande, onde se lavava louças. Essa prática é realizada até hoje, na parte da manhã, pouco antes do almoço!
A ordem da minha mãe era clara: que não me desse brinquedo de menina mulher! Eu queria a Sarita, a boneca de pano, a qualquer custo! Minha irmã em exagerado contentamento por não correr o risco de ter sua boneca esfacelada.
Chegava ele – meu pai - de voltear os confins de suas terras mortas. Atou ao estai o cabresto do cavalo, jogou no ombro...
5 opiniões
avalie fechar
Rita de Cássia Benedito (1) 19/10/2007 12h34
Rita de Cássia Benedito (1) 19/10/2007 12h34
SAO PAULO / SP
É, o que parece é que o assaltante virou vítima porque roubou uma droga de um relógio de 50 mil... Uma droga que não dura anos, que não tem vida, que não tem família... um acessório de luxo que vai virar lixo.
Esse texto ficou ótimo sim, mas não me fez mudar de opinião em relação a esses marginais. De que adianta ir à escola se o governo aprovou uma lei para todos os alunos serem aprovados? Claro que adianta muita coisa... quem faz a escola é o aluno, sempre estudei em escolas públicas e nem por isso saí por aí roubando de relógio do braço de ninguém. Pouco me importa de era famoso ou não, se o bandido tem filho ou não para sustentar. EMPREGO tem de monte o que falta é GENTE QUALIFICADA... isso mesmo, essas mesmas pessoas com esses pensamentos idiotas de que estudar não serve para nada se vai passar de ano de qualquer jeito. Coitado mesmo ficou o assaltante que tem a mãe alcoólatra...como se fosse a população culpada por dar pinga pra ela todos os dias, como se as pessoas não tivessem o livre arbítrio de escolher: Só porque a mídia faz a propaganda eu tenho que ir lá no bar tomar todas.... BEBE quem quer, não estuda quem não e não muda de vida quem não quer tbém.
Portanto não fiquem prolongando essa história de relógio roubado como se o bandido estivesse coberto de razão, como se uma pessoa que está ali, parada dentro do carro também não tivesse 36 ou 48 ou até mais parcelas para pagar, como se ela também não tivesse problemas, família, como se também não fosse um coitado ou até mesmo tivesse uma mãe alcoólatra dentro de casa. COITADOS somos nós que viramos reféns desses marginais, desses monstros que deveriam mofar numa cela. Isso sim deveria virar discussão... O que fazer com esses bandidos.. e não a droga de um relógio!!!!
20 opiniões
avalie fechar
Comente esta reportagem Veja todos os comentários (20)
Termos e condições
 

FolhaShop

Digite produto
ou marca