Publicidade

Cotidiano
13/10/2007 - 09h38

Receita Federal dá brinquedo com droga a escola infantil

Publicidade

TALITA BEDINELLI
Colaboração para a Agência Folha
HUDSON CORRÊA
da Agência Folha, em Campo Grande

Um garoto de cinco anos ganhou na escola, no município de Eldorado (464 km de Campo Grande), um carrinho de fricção como presente do Dia da Criança. Dentro dele, porém, a surpresa: o brinquedo escondia droga e dinheiro falso.

O carrinho era um dos 900 brinquedos doados pela Receita Federal para a Prefeitura de Eldorado distribuir nas escolas municipais de educação infantil da cidade. Os pais estão sendo alertados, por meio de anúncios em rádio, a entregar os outros brinquedos à polícia.

Em outro brinquedo, que ainda não havia sido distribuído, foi encontrada uma substância de cor marrom, com pequenos pregos misturados. Suspeita-se de que se trata de explosivos.

O menino Guilherme descobriu que o seu fusca de fricção (que se movimenta por atrito com o chão) escondia drogas ao tentar, com a ajuda do pai, desmontar o brinquedo, que não funcionava. Dentro estavam 40 notas falsas de R$ 50 e 30 gramas de uma substância branca que a polícia diz ser cocaína. Uma perícia irá confirmar isso.

O menino recebeu o presente durante festa de comemoração do Dia da Criança, na quarta-feira, feita na Escola Municipal Pingo de Gente, onde estuda.

Em casa, tentou brincar, mas o carrinho não funcionou. "À noite, ele pediu pra eu arrumar, mas eu estava cansado", conta o pai Sebastião Tobias Vieira, 29.

Anteontem, quando foi arrumar o brinquedo, Vieira diz que tomou um susto. Ao desparafusar a parte de baixo do carrinho, o papelote com a substância e as notas falsas caíram no chão. Ele afirma que, a princípio, teve receio de procurar a delegacia. "Não sabia o que fazer. Fiquei com medo. Vai saber qual é a reação da polícia."

Vieira diz que falou com um oficial da PM que mora no bairro e cujo filho também recebeu um brinquedo na escola. A PM apreendeu o carrinho.

O carrinho seria o único brinquedo que Guilherme receberia de presente de Dia da Criança, disse o pai, que trabalha em um frigorífico e ganha cerca de R$ 500 por mês. Para compensar a perda, a madrinha da criança e colegas de sala se juntaram e deram uma lousa de brinquedo para ele.

Doação

A Prefeitura de Eldorado afirma que a doação foi feita a pedido das escolas. Os brinquedos estavam no depósito da Receita e tinham sido apreendidos na região da fronteira. A PM diz que a principal hipótese é que parte dos brinquedos tenha sido usada para traficar drogas e tenha sido apreendida por ser contrabandeada.

Para o subcomandante da Polícia Militar, Neuri Luís Roseni, há a possibilidade de mais brinquedos doados conterem drogas e dinheiro falso.

Parte da doação ainda não foi distribuída, mas a prefeitura não sabe precisar o número. Alguns desses brinquedos já foram vistoriados.

Outro lado

O delegado da Receita Federal em Dourados (MS), Marcelo Rodrigues de Brito, afirmou ontem que o órgão não tem condições de fiscalizar todo o material apreendido que é posteriormente destinado a doação ou leilão. Ele disse que "com certeza não houve má-fé" na distribuição dos brinquedos, mas admitiu que "há sempre o risco" de haver drogas escondidas em mercadorias trazidas do Paraguai e apreendidas em Mato Grosso do Sul.

Segundo o delegado, os fiscais podem não descobrir que há droga escondida ao destinar produtos para doação ou leilão, pois não é feito um controle de cada item apreendido.

"Não é a primeira vez [que isso acontece]. Já aconteceu de carros irem a leilão e encontrarem drogas escondidas neles."

Ocorrem diariamente, de acordo com Brito, apreensões de grande quantidade de brinquedos trazidos do Paraguai para venda em bancas de camelôs nas cidades brasileiras. A cidade de Eldorado está situada na região da fronteira.

O brinquedo com a cocaína e o dinheiro falso doado à escola saiu provavelmente do depósito da Receita em Mundo Novo (MS), segundo o delegado. Em março, saiu do mesmo depósito material escolar apreendido em fiscalização na fronteira que acabou doado à Secretaria da Educação de Mundo Novo.

De acordo com Brito, os depósitos da Receita não têm espaço para tantas mercadorias apreendidas e, por essa razão, após concluído o processo administrativo de apreensão, os produtos são doados. A Receita só destrói cigarros.

Há uma cota de US$ 300 (R$ 537) em mercadorias que cada pessoa pode trazer do Paraguai. As apreensões ocorrem quando os fiscais verificam que elas são destinadas à venda no Brasil. Só em julho, afirmou, o volume de apreensões superou o de todo o ano passado. Isso ocorreu, disse, em razão da fiscalização mais rigorosa em Foz do Iguaçu (PR), levando os sacoleiros a utilizar uma nova rota.

 

FolhaShop

Digite produto
ou marca