Beber na balada não intimida jovens a voltar dirigindo
PAULO SAMPAIO
da Folha de S.Paulo
Mais uns golinhos de Catuaba e o estudante de engenharia Julio de Mello estará pronto para entrar na balada. Catuaba é uma bebida à base de vinho liquorado e 'frutas afrodisíacas', que, nesse caso, foi comprada em um supermercado vizinho. A garrafa está em cima do capô do Honda Civic preto do universitário. Vai dirigir depois?
"Cara, meus pais têm uma confiança inacreditável em mim. Eles sabem que, mesmo bebendo, eu não perco a noção do que estou fazendo. Não sou mais um moleque de 18 anos", diz o estudante, que tem 20.
Outros grupos de jovens na baladeiríssima Vila Olímpia (zona oeste de São Paulo) fazem o mesmo e pensam igual (só muda a bebida: vodca, uísque, cerveja etc.). 'Lá dentro [na balada] o drinque é 20 conto, véio, não dá. A gente pagou isso pela garrafa toda', diz Rafael Siqueira, 21, e o amigo Rodrigo Saad, 21, que esperam mais dois amigos fazendo um 'esquenta' no meio da rua, com o carro aberto, o som alto e a vodca na capota.
A cerca de dez quilômetros dali, no IML (Instituto Médico Legal), um levantamento feito em 2005 revelou que 56% dos condutores mortos em acidentes automobilísticos no município de SP estavam alcoolizados. Isso significa que registravam no organismo mais que 0,6 grama de álcool por litro de sangue (limite estipulado por lei), o equivalente a três latas de cerveja, ou dois copos de vinho, ou, ainda, uma dose bem servida de algum destilado.
'Embora a pesquisa tenha apontado um número maior de pessoas entre 28 e 35 anos (mais homens), essa média de idade pode baixar bastante no fim de semana, por causa das baladas', diz a fisiatra Julia Greve, professora da USP.
Ela explica que o levantamento foi feito 'no braço', por um aluno de medicina legal, já que não existe no IML um registro específico de acidentes por causa de álcool no município de São Paulo.
A pesquisa evidentemente não leva em conta os condutores bêbados que se acidentaram e não morreram nem as pessoas que morreram atingidas por condutores bêbados. Ou seja, os estragos ainda são maiores do que o que se pode tabular --como no caso do estudante Ricardo Frangello, vítima de um motorista alcoolizado. Ricardo também havia bebido, mas estava no banco de trás: ele ainda sofre com as seqüelas.
Cheios de 'noção'
Uma incursão pelos bares da cidade mostra que não são só os garotos de 20 anos, como Júlio Mello e seus amigos baladeiros, que se consideram cheios de 'noção' mesmo depois de beber uma garrafa toda.
'Esse é o meu primeiro chope aqui, mas já tomei uns dez no outro bar. Se você quer saber, fico muito mais alerta quando dirijo depois de beber', diz, rindo, meio molenga, a relações-públicas Marília C., 32, que está com amigos em um bar da Vila Madalena (zona oeste). Ela ainda pretende dirigir de volta até Alphaville (Grande São Paulo), onde mora. 'Tem uma hora em que o carro vai sozinho', acredita.
Na mesa ao lado, o sociólogo Fernando Guimarães, 32, acha que a solução para parte do problema é melhorar o transporte público. 'Quem está na noite tem de andar quilômetros, depois esperar horas por um ônibus, em lugares sem iluminação nem segurança. Os bares deveriam ter convênios com empresas de táxi que dessem descontos', diz.
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