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Cotidiano
27/10/2007 - 18h29

Padre Júlio pode ter sigilo bancário quebrado para apurar pagamentos

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da Folha Online

O padre Júlio Lancelotti pode ter o sigilo bancário quebrado pela polícia para apurar supostas transferências de recursos para o ex-interno da Febem Anderson Marcos Batista, 25, ou pessoas ligadas a ele. O delegado da SIG (Setor de Investigações Gerais), André Luis Pimentel, afirmou neste sábado que vai apurar o valor da extorsão.

O advogado de defesa de Batista, Nelson Bernardo da Costa, afirmou ter recebido R$ 6 mil em honorários do padre. O pagamento seria referente à defesa que assumiu em um caso de homicídio e teria sido quitado em 2001.

Batista foi preso na sexta-feira (26), juntamente com sua mulher Conceição Eletério, 44, e Evandro Guimarães, 28, em um apartamento alugado em um prédio na rua Riachuelo (região central). Todos são acusados de extorquir o padre e permanecerão pelo menos até a semana que vem encarcerados em delegacias da zona leste.

O advogado negou que seu cliente tenha praticado extorsão e afirma que o dinheiro e os presentes foram dados pelo padre a título de "gratificação".

De acordo com Costa, os pagamentos dos honorários foram realizados por depósito bancário, em seis parcelas de mil reais. Na época, Batista era acusado por homicídio doloso após matar a tiros um homem em uma briga de bar. Ele foi condenado a 12 anos e recorreu da sentença.

O delegado Pimentel afirmou que, para a polícia, até o momento, as investigações indicam que o padre foi "vítima de extorsão". "Seria leviano afirmar o contrário com o que se tem até o momento", disse. Cinco carros de luxo teriam sido comprados com o valor obtido do padre.

Relacionamento amoroso

Ex-interno da Febem, Batista teria conhecido e iniciado um relacionamento amoroso com o padre na instituição, onde foi internado aos 16 anos por roubo. "Eles chegaram a ter relações sexuais dentro da igreja", disse o advogado de Batista. Em 2000, após fugir da instituição, teria começado a solicitar ajuda financeira ao sacerdote e, mais tarde, passado a exigir uma soma cada vez maior em dinheiro. Segundo o advogado de defesa, Lancelotti tinha conhecimento da condição de foragido de Batista.

O advogado afirma que o valor dos bens recebidos por seu cliente foi de quase R$ 700 mil e que o relacionamento entre o padre e ex-detento acabou após Batista ter se casado, em outubro de 2006.

O delegado-assistente da SIG Marco Antonio Bernardino informou que a Cúria Metropolitana de São Paulo (setor administrativo da Igreja Católica) pediu à Justiça, no início da semana passada, que o caso fosse conduzido sob sigilo.

Denúncia

O grupo preso nesta sexta-feira é acusado pela Polícia Civil de São Paulo de extorquir o padre Júlio Lancelotti, conhecido por ser um dos principais defensores dos direitos de jovens infratores e de moradores de rua de São Paulo. Foi o próprio padre quem procurou a polícia para denunciar o crime.

Os primeiros pedidos de dinheiro variavam entre R$ 800 e R$ 1,5 mil e eram feitos por meio de bilhetes. Os recados eram entregues pelos outros dois suspeitos, os irmãos Everson dos Santos Guimarães e Evandro dos Santos Guimarães. O padre deveria devolver o bilhete, para que não houvesse prova das ameaças, e entregar o dinheiro.

Pelo telefone, no entanto, as ameaças continuaram. Em uma das conversas gravadas pela polícia, Eletério e Batista ameaçam envolver o filho dela, que acusaria o padre de abuso sexual. Segundo o advogado do acusado, nesta gravação o padre afirma que estava sendo investigado e que as coisas 'não acabariam bem'. Júlio Lancelotti nega qualquer tipo de abuso.

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