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Cotidiano
29/10/2007 - 17h52

Entenda as denúncias envolvendo o padre Júlio Lancelotti

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da Folha Online

O padre Júlio Lancelotti, 58, conhecido internacionalmente por seu papel na luta por direitos humanos, está envolvido em uma série de denúncias de extorsão, má administração de uma ONG e corrupção de menores. Pressionado, ele chegou a parar de celebrar missas em público na paróquia São Miguel Arcanjo, em São Paulo.

Os problemas começaram em 2001, quando Anderson Marcos Batista, 25, deixou a Febem (Fundação Estadual para Bem-Estar do Menor), onde cumpria medidas socioeducativas por roubo. Lancelotti diz que Batista passou a extorqui-lo ameaçando ir à imprensa acusá-lo de ter abusado sexualmente de seu enteado, de 8 anos. Lancelotti nega qualquer abuso.

O padre formalizou as ameaças perante a Polícia Civil em agosto passado.

Na ocasião, Lancelotti disse ter entregue R$ 50 mil a Batista em três anos, sendo R$ 20 mil em pagamentos de prestações da compra de uma Mitsubishi Pajero. Depois, o padre disse ter repassado R$ 80 mil a Batista. No domingo passado (28), a defesa do padre admitiu que o valor pode chegar a R$ 150 mil. Para o advogado do ex-interno, Nelson Bernardo da Costa, 49, a quantia é bem maior --entre R$ 600 mil e R$ 700 mil, em oito anos.

Desde 2004, Batista movimentou mais de R$ 200 mil para comprar carros de luxo e imóveis. Ele é dono de uma pequena pensão e de um sobrado na zona leste de São Paulo.

Abuso

Com base nas denúncias do padre, a Justiça determinou a prisão de Batista, da mulher dele, Conceição Eletério, 44, e dos irmãos Everson e Evandro dos Santos Guimarães. Everson foi o primeiro a ser preso, no último dia 6 de setembro. Ele compareceu a um encontro com o padre, no Belém (zona leste de São Paulo), para receber R$ 2.000.

Os outros três suspeitos foram presos no último dia 26, no centro de São Paulo.

Preso, Batista afirmou que nunca extorquiu o padre, mas que recebia dinheiro dele por conta do relacionamento homossexual que ambos mantiveram por cerca de oito anos. Batista, de acordo com o advogado, não tem provas documentais do suposto relacionamento, mas teria descrito detalhes do corpo do religioso que poderiam ser comprovados.

De acordo com Costa, seu cliente disse que as relações sexuais passaram de um abuso, na adolescência, para um consentimento, no início da fase adulta. Por essa versão, Lancelotti teria ficado com ciúmes do casamento do ex-interno, há cerca de um ano. Ainda segundo o advogado, Batista disse que as relações ocorriam após as missas.

Dinheiro

Os altos montantes que teriam sido extorquidos do padre chamaram a atenção da Polícia Civil e deram origem a uma nova investigação. Os policiais, agora, apuram como o padre gerenciava os recursos da ONG Centro Social Nossa Senhora do Bom Parto, que recebe R$ 581 mil mensais da prefeitura para manter 36 serviços na zona leste de São Paulo.

Há suspeitas de que o padre tenha lançado mão da verba da ONG para pagar o ex-interno. Lancelotti diz ter rendimento mensal de R$ 3.480 --R$ 1.000 da ONG e R$ 2.480 por prestar atendimento a internos da antiga Febem em liberdade assistida.

Ele disse ter pago os chantagistas com economias pessoais e doações de amigos.

Com Folha de S.Paulo

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