Polícia pede segredo de Justiça em investigações sobre padre Júlio Lancelotti
da Folha Online
A 5ª Delegacia Seccional de São Paulo pediu segredo de Justiça para as investigações que envolvem o padre Júlio Lancelotti, 58. O religioso denunciou um ex-interno da Febem (atual Fundação Casa) de extorqui-lo ao menos R$ 80 mil. Em contra partida, o acusado pelo crime, Anderson Marcos Batista, 25, preso na sexta-feira (26), afirmou que nunca extorquiu o padre, mas que recebia dinheiro dele por conta do relacionamento homossexual que ambos mantiveram por cerca de oito anos.
De acordo com o delegado-assistente do SIG (Setor de Investigações Gerais), da 5ª seccional, Marco Antonio Bernardino, foi solicitado segredo de Justiça nos inquéritos que investigam a extorsão e formação de quadrilha, em que o padre é vítima; e na denúncia de corrupção de menores, onde Lancelotti aparece como suposto autor.
Hoje, duas testemunhas foram ouvidas pela SIG, no entanto, segundo o delegado, o depoimento não acrescentou muito às investigações.
Lancelotti, conhecido internacionalmente por seu papel na luta por direitos humanos, anunciou nesta segunda-feira que parou de celebrar missas em público na paróquia São Miguel Arcanjo, em São Paulo, enquanto estiver sendo assediado a comentar as denúncias.
Os problemas do padre teriam começado em 2001, quando Batista deixou a Febem, onde cumpria medidas socioeducativas por roubo. Lancelotti diz que Batista passou a extorqui-lo ameaçando ir à imprensa acusá-lo de ter abusado sexualmente de seu enteado, de 8 anos. Lancelotti nega qualquer abuso.
O padre formalizou as ameaças perante a Polícia Civil em agosto passado.
Na ocasião, Lancelotti disse ter entregue R$ 50 mil a Batista em três anos, sendo R$ 20 mil em pagamentos de prestações da compra de uma Mitsubishi Pajero. Depois, o padre disse ter repassado R$ 80 mil a Batista. Neste domingo (28), a defesa do padre admitiu que o valor pode chegar a R$ 150 mil. Para o advogado do ex-interno, Nelson Bernardo da Costa, 49, a quantia é bem maior --entre R$ 600 mil e R$ 700 mil, em oito anos.
Desde 2004, Batista movimentou mais de R$ 200 mil para comprar carros de luxo e imóveis. Ele é dono de uma pequena pensão e de um sobrado na zona leste de São Paulo.
Com base nas denúncias do padre, a Justiça determinou a prisão de Batista, da mulher dele, Conceição Eletério, 44, e dos irmãos Everson e Evandro dos Santos Guimarães. Everson foi o primeiro a ser preso, no último dia 6 de setembro. Ele compareceu a um encontro com o padre, no Belém (zona leste de São Paulo), para receber R$ 2.000.
Os outros três suspeitos foram presos na noite de sexta-feira passada.
Preso, Batista acusou o padre de manter com ele um relacionamento, mas, de acordo com seu advogado, não tem provas documentais do suposto envolvimento.
Dinheiro
Os altos montantes que teriam sido extorquidos do padre chamaram a atenção da Polícia Civil e deram origem a uma nova investigação. Os policiais, agora, apuram como o padre gerenciava os recursos da ONG Centro Social Nossa Senhora do Bom Parto, que recebe R$ 581 mil mensais da prefeitura para manter 36 serviços na zona leste de São Paulo.
Há suspeitas de que o padre tenha lançado mão da verba da ONG para pagar o ex-interno. Lancelotti diz ter rendimento mensal de R$ 3.480 --R$ 1.000 da ONG e R$ 2.480 por prestar atendimento a internos da antiga Febem em liberdade assistida.
Ele disse ter pago os chantagistas com economias pessoais e doações de amigos.
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