Família doa órgãos de turista assassinado em São Sebastião (SP)
da Folha de S.Paulo
A família do técnico em eletrônica Ed Carlos Queiroz Amaral, 39, autorizou ontem a retirada de todos os seus órgãos aptos para doação. Essa retirada deveria ocorrer ainda na noite de ontem. "Tudo de bom que ele tem vai ser doado. Coração, do que precisar", afirmou o irmão da vítima, Fernando Cardoso Amaral, 28.
Amaral foi baleado na cabeça durante uma tentativa de assalto numa casa de veraneio em Camburi, em São Sebastião (214 km da capital), no litoral norte, na madrugada de anteontem. O técnico estava com a família e amigos para comemorar a passagem de ano.
Duas outras pessoas também ficaram feridas levemente --uma mulher e uma criança de cinco anos--, que foram liberadas após serem medicadas. Um adolescente de 17 anos foi detido acusado de realizar os disparos. O jovem foi reconhecido pela família assaltada.
Desde a noite de anteontem Amaral apresentava morte cerebral e suas funções vitais eram mantidas por meio de aparelhos. Durante todo o dia de ontem a família do técnico esteve no hospital Professor Edmundo Vasconcelos, na Vila Clementino (zona sul de São Paulo), para acertar os detalhes da doação e esperar pela confirmação da morte.
O corpo de Amaral foi levado na noite de ontem para o hospital São Paulo, que fica próximo ao Edmundo Vasconcelos, onde a retirada dos órgãos deveria ocorrer. Mesmo com as funções vitais mantidas por aparelhos e medicamentos, a remoção dos órgãos tem um prazo para ser feita sem prejuízo de qualidade.
Os familiares de Amaral contaram ontem que não houve reação ao assalto. Segundo eles, o adolescente começou a atirar depois de tropeçar em um colchão e cair no chão da sala. "A gente pedia calma para ele [adolescente] a todo instante. Eu, meu irmão", disse o irmão. "Ele tropeçou, tinha um colchão na sala, e caiu. E caiu atirando. Teve até um tiro que pegou no teto. Ele deu três tiros e saiu correndo", completou.
Fernando contou ainda que a família acredita que o adolescente que efetuou o disparos seja o mesmo que roubou parte da família em março, na mesma casa. A voz, o jeito de andar e a arma seriam os mesmos.
Na época, ninguém se feriu. Foram levados celulares e carteiras. Foi registrado apenas o boletim de roubo dos objetos, mas já em São Paulo.
Clima
Ontem, nas casas vizinhas àquela em que Amaral foi baleado, brinquedos deixados pelo chão davam a impressão de que foram abandonadas às pressas logo após o tiroteio.
Os que ficaram diziam do medo que se instalou no região. "Estamos muito assustados. Fomos para o Réveillon, mas voltamos mais cedo com medo de sermos assaltados. Íamos ficar mais tempo, mas devemos ir embora hoje", disse o motorista Rodolfo Ferreira Silva, 25, morador da capital.
Alguns vizinhos ouvidos pela Folha disseram que ninguém imaginou que os disparos ouvidos na madrugada de anteontem fossem de arma de fogo. Pensaram ser fogos de artifício, comuns nessa época.
Ficaram sabendo se tratar de algo grave quando os carros da polícia foram até o local e, ainda, já no outro dia, ao ver a família de Amaral recolhendo seus pertences aos prantos.
ROGÉRIO PAGNAN, DÉBORA MISMETTI E MÁRCIO PINHO
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