Cotidiano
25/01/2008 - 08h01

Conversa com donos dos boxes é atração peculiar do Mercadão

CAROLINA FARIAS
da Folha Online

Passear pelo Mercado Municipal Paulistano sem conversar com ao menos um dos proprietários dos boxes é desperdiçar parte do passeio. Alguns dos mais antigos permissionários das bancas são parte da história do Mercadão --que completa 75 anos-- e também da cidade --que faz 454 anos--, já que o lugar é um dos símbolos de transformação de São Paulo.

Veja o especial dos 75 anos do Mercadão

São filhos, netos e bisnetos de imigrantes que chegaram na cidade no início do século 20 e se aglomeraram na região da rua 25 de Março, no centro, local que abrigava mercados ao ar livre que vendiam de gêneros alimentícios a roupa e tabaco.

Vale a pena aproveitar um pouco mais da gentileza e puxar uma conversa com esses proprietários, que gostam de atender os clientes de maneira peculiar.

É o caso de Guerino Amaro, 76 anos e 68 de Mercadão. Ele começou a trabalhar no local aos 8 anos para ajudar o pai, um dos primeiros permissionários, que abriu a banca de frutas em 1933, atividade que o filho segue até hoje.

Antes de ir para o Mercadão, o pai de Amaro trabalhava com os pais no mercado da 25 de Março. Eles chegaram ao Brasil, vindos da Itália, em 1901.

"Meus filhos estão no Mercadão. Já é a quarta geração aqui. Mas acredito que meus netos não continuarão", afirmou Guerino, que trabalha das 6h às 18h diariamente.

Amaro viu todas as mudanças do Mercadão e sempre as encarou de maneira positiva. "A cada década acontece uma mudança no Mercado, que vai se adaptando. Não é o público que mudou, mas o abastecimento. Quando inaugurou [em 1933] era o único ponto de distribuição de alimentos. Mas depois da Ceagesp [Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de SP], mudou pra lá de 80%", diz Amaro.

No boxe de Alfredo Saporito, 67, os atrativos são os produtos para feijoada, queijos, azeitonas. Mas o que conquista mesmo é seu atendimento, seu sorriso largo. Diz ele, que quando chegou da Itália, em 1953, "desembarcou" no Mercadão.

"Meu pai era carregador de caixas aqui e eu o ajudava. Depois, passei a ajudar meu tio. Quem "bebe dessa água' não esquece. O Mercadão faz bem", diz Saporito, que trabalha todos os dias das 5h às 17h.

Depois de muito trabalhar com o tio Francisco Saporito no ramo de cereais, ele abriu há 35 anos seu próprio boxe, no mesmo ramo. Hoje são seis bancas, mas somente a família de seu tio --com as bancas mais antigas do Mercadão-- continuou no ramo de cereais. Saporito diversificou a partir da década de 1990 e atualmente tem três boxes de frutas e três empórios.

"Tudo foi mudando. Vieram novas pessoas, o mundo hoje é mais moderno. Antes havia dez marcas de azeite e hoje tem 10 mil. As pessoas gostam disso, do que é diferente. Esse é nosso diferencial", afirma Saporito.

Quem está no Mercadão desde sua inauguração também é a família de Leonardo Chiappetta, 54. Aliás, desde antes da inauguração. Carlo Chiappeta, seu avô, veio da Itália e abriu um empório de "secos e molhados" na avenida São João em 1918.

"Na época eram cerca de cem itens. Hoje temos mais de 2.000. Atualmente os clientes são bem mais informados, resgatam as informações sobre os pratos e encontram os ingredientes somente aqui", diz Chiappetta.

Ele é membro da terceira geração da família a trabalhar no Mercadão, mas afirma que a quarta geração dos Chiappetta já está sendo representada pelo seu sobrinho.

Segundo Chiappetta, alguns clientes também estão na terceira geração, já que ele atende hoje netos de fregueses que foram de seu avô. Formado em administração, Chiappetta quase seguiu sua carreira, mas foi trabalhar no Mercadão a pedido do pai.

"Comecei a trabalhar aqui com dez anos. Me formei, trabalhei fora e meu pai disse que se eu não voltasse, ele fecharia o empório, então eu voltei", disse satisfeito o empresário.

Ao longo dos anos a família expandiu os negócios e, além do empório no Mercado, têm uma central de abastecimento, um restaurante e outro empório em um shopping da cidade.

"O Mercadão é dinâmico. Ele sobrevive pela adaptação a cada momento. Sempre tentou se mudar o conceito de centro de distribuição. Hoje ele é um centro de formação de opinião", afirma Chiappetta.

 

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