Chineses dividem com os japoneses o bairro da Liberdade
VINÍCIUS QUEIROZ GALVÃO
da Folha de S.Paulo
Os ideogramas na fachada do prédio de número 460 da rua São Joaquim enganam. Quase ao lado da Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa, o local, batizado de Hakka (um grupo étnico do sul da China), abriga o Escritório Cultural e Econômico de Taipei e o centro de meditação chinesa Fo Guang Shan. Aos cem anos da imigração japonesa, a Liberdade já não é mais a mesma.
O bairro da região central de São Paulo -originalmente ocupado por portugueses e italianos, e tradicional reduto japonês- está cada vez mais ocupada por chineses, que falam pouco ou quase de português.
A explicação é histórica, dizem o pesquisador japonês Koichi Mori, da USP, e o diretor-presidente da Acal (Associação Cultural e Assistencial da Liberdade), Hirofumi Ikesaki. Como os japoneses prosperaram -educando os filhos, que seguiram carreiras como direito e medicina-, não houve herdeiros para o comércio.
"Os chineses começaram a se estabelecer no bairro e adquiriram essas lojas", diz Mori. "Hoje, os comerciantes não são apenas japoneses", diz Ikesaki.
Num passeio pela rua Galvão Bueno, a principal do bairro, nota-se a presença maciça chinesa em restaurantes e no comércio de artigos importados. Curiosamente, alguns lojistas -embora sejam chineses e vendam produtos da China- mantêm a identidade japonesa nas fachadas.
É assim na Lucky Cat (com dono e mercadorias chineses e letreiro em japonês); no restaurante Itiriki (proprietário taiwanês, nome japonês e cardápio coreano, chinês e japonês), ambos na praça da Liberdade; e no supermercado Marukai (dono chinês, nome japonês e produtos de origem asiática).
"Chinês quer se disfarçar de japonês para vender para todo mundo. É a globalização", afirma o médico taiwanês Hsu Chih Chin, no Brasil desde 1973, formado pela USP e tradutor da reportagem na incursão pela Liberdade chinesa.
O reflexo de que os imigrantes chineses vieram para ficar se vê pelo bairro. Na rua da Glória, a escola Yu Çaí Xue Yuan é especializada na educação infantil de filhos dos imigrantes nascidos no Brasil.
Outra evidência da nova caracterização do bairro é a comemoração do Ano Novo chinês na praça da Liberdade, que amanhã acontece pela terceira vez na cidade (antecipado por conta do Carnaval).
Chefe de cozinha do restaurante Rong He, o chinês Yang Xiao Wei, 38, imigrou há três anos "porque gosta de futebol". Tem uma filha de um ano e meio, nascida no Brasil. "Tem muita harmonia na convivência com os japoneses", diz Yang, em mandarim (o doutor Hsu traduz).
Presidente da Associação de Ensino de Arquitetura e Urbanismo de São Paulo, Anália Amorim, que projetou o templo budista da São Joaquim, explica a origem da Liberdade. "A sociedade demandava que a cidade respondesse com essa caracterização, senão seria uma mãe muito madrasta."
Embora já estejam espalhados por todo o bairro, os comerciantes chineses se concentram na rua Barão de Iguape. É curioso ver restaurantes e lojas japonesas e chinesas lado a lado. Na Conselheiro Furtado estão as quitandas, com produtos frescos e peixes vivos e lojas de medicina chinesa.
E o doutor Hsu ensina a identificá-los: "As cores chinesas são verde e vermelho, bem fortes, características do comportamento do povo".
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