Publicidade

Cotidiano
27/01/2008 - 17h05

Crianças contam como cultivam tradições japonesas no Brasil

Publicidade

GABRIELA ROMEU
da Folha de S.Paulo
CLARICE CARDOSO
Colaboração para a Folha

Há quase cem anos (na verdade, 87), Yoshio Ivamoto chegava ao Brasil com apenas um ano de idade. Quem diria que hoje, passado tanto tempo, Leonardo Naoyuki Nakamura, 12, bisneto de Yoshio, iria gostar tanto de uma tradição que veio da terra do bisavô.

O menino é um lutador de sumô, uma das artes marciais daquele país distante --conheça mais abaixo.

"Quando comecei no sumô, meu avô disse que eu teria que comer bastante porque os lutadores do Japão são mais gordinhos", diz. E completa: "Mas não é assim no Brasil. Aqui, precisa ter agilidade para lutar".

O bisavô de Leonardo está entre os 210 mil japoneses que vieram para o Brasil. Os primeiros 781 imigrantes chegaram em 18 de junho de 1908, a bordo do Kasato Maru, há quase cem anos.

Esses pioneiros foram trabalhar nas fazendas de café do interior de São Paulo. A idéia era batalhar duro aqui por um tempo, juntar dinheiro e voltar para o Oriente. Mas poucos conseguiram concluir esse plano.

Boa parte aqui ficou. Hoje, o Brasil tem 1,5 milhão de japoneses e descendentes --é a maior comunidade japonesa fora do Japão.

E muitos dos pequenos descendentes ainda cultivam tradições trazidas na bagagem de seus ancestrais. Conheça algumas a seguir.

Batidas nipônicas

Marcelo Justo/Folha Imagem
Crianças praticam taiko (tambos japonês)
Crianças praticam taiko (tambos japonês)

Com um som bem forte o tambor japonês (taiko) faz até o chão tremer. O taiko surgiu há uns 2.000 anos e foi usado como meio de comunicação, para avisar dos perigos, e até para levantar o astral dos guerreiros.

"O taiko ensina a ter disciplina", afirma Toshiyasu Minowa, professor que veio do Japão há seis meses para ensinar o instrumento.

"Para tocar, você tem que bater com a pontinha do bachi", afirma Alanis Tamashiro, 6. "E precisa ficar com o braço bem esticado, mas depois dá uma dorzinha", conta Heloísa Shibuya, 6. "No começo é um pouco difícil acompanhar o ritmo, porque é bem rápido", diz Andrea Iwayama, 8.

Família samurai

Toda manhã, o pequeno Eduard Kishikawa, 5, segue um ritual. Depois do café da manhã, com "leite com chocolate", ele faz a "dança do samurai" com o pai.

Marcelo Justo/Folha Imagem
O samurai Jorge ensina a arte para seus filhos
O samurai Jorge ensina a arte para seus filhos

"Meu pai me chama todos os dias para treinar. Mas, às vezes, fico dorminhoco", conta o menino, que com o irmão do meio, Magnus, 3, adora ver o filme "Mulan".

Quem é o samurai? O menino explica que é alguém "muito corajoso". Tão corajoso quanto seu pai, o sensei (professor) Jorge Kishikawa, 43. Foi ele quem trouxe o kenjutsu (a arte das espadas, da época dos samurais) para o Brasil.

E a "dança do samurai", que pai e filho praticam diariamente, é na verdade chamada de "kata", uma seqüência de combate elaborada há séculos. É a simulação de uma luta. "Muitos adultos não sabem de cor a seqüência que ele conhece", diz o pai, que tem a data de seu aniversário (24 de abril) marcando o Dia do Samurai.

Nem sempre o menino acerta passo a passo. Aí o pai, que teve uma criação rigorosa, seguindo os princípios samurais, deixa o garoto lembrar sozinho. "Também fui criado nos moldes dos samurais."

O sensei busca deixar para os filhos (são três meninos) a "herança da espada". "Não sei se eles vão continuar [no kenjutsu]. Quero é que eles sejam felizes e herdem a cultura da espada", conclui o pai samurai, que está à frente do Instituto Niten.

Dobras aqui e ali

Danilo Verpa/Folha Imagem
Guilherme, 11, mostra tsuru feito de origami
Guilherme, 11, mostra tsuru feito de origami

Pedaços de papéis coloridos, depois de dobrados, viram as mais variadas figuras nas mãos de Guilherme Tomio Saito, 11, que é neto de avô japonês, que veio do Japão em 1936.

É de lá que vem a arte de dobrar papéis, o origami. Essa tradição existe desde a Antigüidade e sempre esteve presente em festivais, casamentos, enterros e outras datas comemorativas.

Craque em matemática, o menino explica que o origami ajuda na concentração. Já dobrou papel até em viagens de carro, para passar a ansiedade. "Tem origami que é mais difícil do que muita equação matemática", diz.

Ele já fez pingüim, cachorro, estrela, piano, entre outras figuras. Mas uma de suas preferidas é o tradicional tsuru, um pássaro que simboliza vida longa e saúde. Dizem os japoneses que quem faz mil tsurus pode realizar um desejo.

Em volta do jardim

É em volta do jardim japonês de Hiromi Miyazaki, 80, que a família cultiva tradições que vieram do Japão durante um centenário. Ali, os netos acompanham as mãos habilidosas do avô, que cuida de plantas como os bonsais.

Bonsai é uma árvore ou uma planta em miniatura. Com ajuda de técnicas milenares, o bonsai é lapidado para ganhar as mais variadas formas. O simpático avô Hiromi tem um bonsai de mais de 30 anos.

Mas, para concluir o jardim japonês, o avô contou com a ajuda dos netos, que trazem pedra de onde viajam. Os netos menores ajudam a limpar o lago. Outra neta, Beatriz Miyazaki, 7, gosta mesmo é de observar as plantas. "Gosto de todas", diz a menina, que aprende na escola diversas tradições japonesas, como o chado (cerimônia do chá) e o ikebana (arte de arranjo floral).

Cara brava

Patricia Stavis/Folha Imagem
Rodrigo, 10, Diogo, 12, Célio, 6, e Leonardo, 12, se aquecem antes do treino de sumô
Rodrigo, 10, Diogo, 12, Célio, 6, e Leonardo, 12, se aquecem antes do treino de sumô

Eles entram no ringue, um cumprimenta o outro e começa o empurra-empurra. Quando um consegue derrubar o outro, os dois riem juntos e se preparam para recomeçar.

É que para esses amigos --que praticam o sumô em Santo André (SP)--, antes de ser uma luta, o esporte é mesmo uma diversão.

"É divertido treinar porque fazemos amigos. E também, quando você ganha, fica inspirado para se esforçar mais", conta Diogo Uehara, 12, que já conquistou um vice-campeonato nas competições paulistas.

As regras dessa luta milenar, bastante popular no Japão, são simples: quem pisar fora do ringue (um círculo) ou encostar qualquer membro no chão perde.

Mas para lutar não é só sair empurrando o adversário, não. "É importante fincar o pé no chão e arrastá-lo para andar porque, se você levantá-lo, o outro pode lhe derrubar", conta Rodrigo Hideki Nakamura, 10.

"E também tem que fazer uma cara bem brava", diz Célio Katsuhiro Uehara, 6.

 

FolhaShop

Digite produto
ou marca