Cotidiano
05/02/2008 - 01h21

Enredo da Vila Isabel conta a história do trabalho no Brasil

CLAYTON FREITAS
da Folha Online

A Vila Isabel, quarta escola a desfilar na segunda noite do Grupo Especial do Carnaval do Rio, aborda o trabalho no Brasil em seu enredo. A escola, sexta colocada no ano passado, apresenta um perfil do tema desde o descobrimento até os dias atuais. A escola começou a se apresentar por volta da 1h15 desta terça-feira.

Antes, desfilaram Mocidade, Unidos da Tijuca e Imperatriz Leopoldinense. Depois, se apresentam Grande Rio e Beija-Flor. Confira a cobertura completa do Carnaval na Folha Online.

Antonio Lacerda/Efe
Enredo da Vila Isabel contou história do trabalho no Brasil; miss Natália Guimarães (foto) desfilou à frente da bateria
Enredo da Vila Isabel contou história do trabalho no Brasil; miss Natália Guimarães (foto) desfilou à frente da bateria

Com o enredo "Trabalhadores do Brasil", a Vila Isabel volta à temática social, que marcou os desfiles da agremiação ao longo dos anos 1980 e 1990, segundo o carnavalesco Alex de Souza. "É uma face aguerrida que retomamos neste ano. Vamos mostrar como as formas de trabalho evoluíram ao longo dos anos, as condições, lutas e conquistas, desde o descobrimento do Brasil até os dias atuais."

O primeiro setor retrata a aventura portuguesa até a chegada à Pindorama --a terra das Palmeiras, segundo o carnavalesco. A comissão de frente traz referência à lenda do João de Barro. A primeira ala, a das baianas, simboliza as ondas do mar. Elas desfilam vestidas com figurinos nas tonalidades azul royal, azul turquesa e branca.

O primeiro carro é composto por três tripés. Eles fazem referência à saga do descobrimento, com direito a rosa dos ventos, cartas náuticas e deuses do mar. As palmeiras ganham espaço no abre-alas.

Imagens retratam figuras marinhas, frutos da terra e nativos. Logo atrás, aparecem homens deitados em redes, em um verdadeiro paraíso tropical, com direito a cachoeiras. "É aí que começa a nascer, por parte da visão européia, o mito da indolência", diz o carnavalesco.

Elementos dos séculos 15 ao 18 abrem o segundo setor. Nele, referências ao trabalho escravo. Alas mostram formas atividades como o escambo, as santidades nativas, orgulho negro, a Revolta dos Malês e as quilombolas.

A temática da escravidão negra, a exploração da mão-de-obra nos canaviais e a resistência no quilombo são referências da segunda alegoria. Segundo Souza, muitas das figuras tiveram como inspiração estética telas do pintor Jean Baptiste Debret.

A obra de Debret também inspira o terceiro setor. Nele, o ócio do branco --que considerava o trabalho uma vergonha, segundo o carnavalesco-- e o trabalho negro. Entre as figuras representadas nas alas estão a da mucamas e os vendedores de frutas e flores.

A Vila Isabel também dá espaço ao poético. Estruturas feitas em vime representam imensas gaiolas com pássaros.

O terceiro carro mostra o período joanino no Rio, com destaque para uma cena de uma festa em uma casa de um nobre da época. A escola mostra negros servindo quitutes aos convidados, enquanto as negras são servidas em bandejas para satisfazer sexualmente aos seus amos.

A escola mostra também a vinda dos trabalhadores estrangeiros ao país, entre eles os germânicos, espanhóis, italianos, sírios, libaneses e japoneses. A bateria da agremiação faz referência a samurais.

"Eles [imigrantes] vieram a substituir os negros escravos", afirma Souza. Segundo o carnavalesco, a pesquisa contou com apoio do Memorial do Imigrante, de São Paulo. A miss Brasil, Natália Guimarães, desfila à frente da bateria.

A referência ao desenvolvimento do trabalho dos estrangeiros no país --que primeiro se estabeleceram no campo, na interpretação do carnavalesco-- ganha espaço no carro alegórico que retrata um navio a vapor, meio de transporte utilizado para trazer os trabalhares ao país.

Inspirado na figura do Jeca Tatu, personagem de Monteiro Lobato, a escola apresenta no quinto setor a luta para o respeito pelos trabalhadores do interior. Alas representam as queimadas no campo, lavradores e plantações.

O destaque da alegoria é um imenso carro de boi. Em volta dele, legumes, verduras e frutas --representações dos produtos extraídos do trabalho do homem no campo.

Os compositores da agremiação exibem figurinos que representam a figura do malandro. Nesse setor, a escola explora elementos que caracterizaram o período de governo de Getúlio Vargas. "Ele [Vargas] chamou para si todos o mérito dos direitos sociais relativos ao trabalho", afirma.

Vargas é representado em uma escultura de metal e ganha destaque na parte frontal do carro alegórico. O Palácio do Catete é representado, segundo o carnavalesco, por imagens de águias. O projeto de construção de um parque industrial nacional também é apresentado na alegoria por meio de representação de produção de ferro e aço, torres e plataformas.

A escola rememora Juscelino Kubitschek e a indústria automobilística, os candangos e o projeto de "50 anos em cinco". Os metalúrgicos da Grande São Paulo também ganham destaque.

Para fechar o desfile, a escola mostra problemas atuais relacionados ao trabalho, entre eles a informalidade e pirataria, redução da carga horária de trabalho e luta para erradicar o trabalho infantil.

A alegoria que encerra a apresentação da escola na Marquês de Sapucaí mostra referências a diversas profissões. Segundo o carnavalesco, a apresentação do tema era um desejo antigo da escola, que pretendia levá-lo à avenida desde 1951, e que só agora se concretiza.

Grupo Especial

No domingo, primeira noite dos desfiles do Grupo Especial, se apresentaram São Clemente, Porto da Pedra, Salgueiro, Portela, Mangueira e Viradouro.

 

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