Cotidiano
22/02/2008 - 07h01

"Minha história desabou ali", diz ex-moradora do edifício Palace 2

LUISA BELCHIOR
Colaboração para a Folha Online, no Rio

"Quem iria acreditar que um prédio de 22 andares, em plena Barra da Tijuca, iria cair?". Com freqüência, a corretora de imóveis Marlane Pinheiro, 40, se faz essa pergunta. Ela era uma das moradoras do edifício Palace 2, que desabou há dez anos, no Rio.

Era uma época de festa para os moradores do condomínio. Depois de mais de um ano de atrasos nas obras, eles enfim conseguiram ocupar o prédio, que, para muitos, era, em tijolo e concreto, a realização de um sonho: o de morar na Barra da Tijuca. Mais tarde souberam que o prédio também era de areia.

Luisa Belchior/Folha Imagem
Marlane Pinheiro, 40, e a filha, Gabriela, 14, que vivem em hotel
Marlane Pinheiro, 40, e a filha, Gabriela, 14, que vivem em hotel

Além do grande foco da construção imobiliária carioca, o bairro, na época, era destino de moradores de áreas periféricas e o ícone da ascensão social deles. Foi esta migração que fez muitos moradores do Palace 2, como Marlane, que até hoje ocupa o Atlântico Sul Hotel, no Recreio dos Bandeirantes (bairro vizinho à Barra) com os filhos, Gabriela Pinheiro, 14, e João, 7 --que não sabe o que é morar em um lar próprio.

"Há dez anos, a Barra era o sonho de todo mundo. Quem melhorava de vida queria ir embora para lá. Era tudo diferente: tinha mercado 24 horas, pizza em casa, praia, tudo que na Baixada não tinha", conta Marlane, que comprou apartamento no Palace 2 na mesma leva de outras seis famílias de Vaz Lobo, na Baixada Fluminense, onde ela morava antes.

Dois meses antes da tragédia, os moradores do edifício chegaram a fazer uma festa para celebrar a ocupação do prédio. A comemoração aconteceu no salão de eventos do condomínio, que ficava justo na coluna que desabou primeiro.

"Quando vi o prédio ruir, vi que o sonho tinha mesmo acabado, a minha história desabou ali. Esse foi o meu maior desespero até hoje. Assisti [a implosão] pela TV porque não agüentei ficar lá e, mesmo assim, quase desmaiei", diz a corretora de imóveis.

Com o passar dos anos, as pessoas passaram também a perder a força e o ânimo para lutar. "Muita gente cansou, gastamos muito dinheiro do nosso bolso. Viajamos para Miami, Brasília, São Paulo, Minas por conta própria", conta Marlane, que teve depressão profunda e síndrome do pânico e, há dois anos, separou-se de seu marido.

 

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