Naya nega culpa por Palace 2 e fala em "indústria do dano moral"
LUISA BELCHIOR
Colaboração para a Folha Online, no Rio
Afastado da vida política e profissional e vivendo "parte em Brasília e parte em Laranjal [Minas Gerais]", o empresário Sérgio Naya diz que nunca mais passou em frente ao terreno do Palace 2, que desabou há dez anos, no Rio. "Não tive culpa pela tragédia", disse, argumentando que houve erro de cálculo.
Naya era dono da construtora Sersan, responsável pela obra. Em entrevista à Folha Online por e-mail, ele disse que a associação das vítimas criou uma "indústria de danos morais". Veja trechos.
| Ichiro Guerra/Folha Imagem |
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| Sérgio Naya, que era dono da construtora que ergueu o Palace 2 |
Folha Online - Depois de dez anos, muitos dos ex-moradores ainda não receberam total ou parcialmente as devidas indenizações. Por que ainda não houve um ponto final?
Naya - Quando ocorreu a tragédia foram indenizados em torno de 80 moradores de imediato, lembrando que o prédio possuía 176 apartamentos, com a venda de um jato. Posteriormente foi montada a associação das vítimas, a qual montou uma indústria de danos morais. Os moradores do edifício, salvo 10%, não havia quitado o financiamento para com a empresa, e o índice de inadimplência passava de 90%. Ou seja, as vítimas detinham um ágio e não o imóvel quitado, como fazem crer. Quanto ao ponto final, a dificuldade em negociar imóvel com decreto de indisponibilidade é enorme e o desvaloriza muito. Para se ter uma idéia, imóveis avaliados judicialmente em R$ 45 milhões (Hotel St. Peter) foi vendido por R$ 7,4 milhões, ou seja, menos de 15% do valor. Isso depredou todo patrimônio.
Folha Online - O nome da [construtora] Sersan consta na Dívida Ativa do INSS, com um débito de R$ 82.830.060,28. Já foi quitada? O senhor ainda tem alguma outra dívida junto ao governo federal?
Naya - Após a tragédia, a empresa que possuía mais de 2.000 funcionários e patrimônio estimado em R$ 300 milhões foi obrigada a encerrar as atividades. De lá para cá, a Receita Federal passou a autuar a empresa por estimativa, por isso os valores estão nesse patamar, mas todos vêm sendo questionados judicialmente, pois tais multas, a meu entender, são nulas.
Folha Online - Durante essa última década, o nome do senhor ficou associado à queda do Palace 2. Há alguma coisa que o senhor considere importante ou gostaria de dizer para a sociedade que acredite não ter sido abordada em todos esses anos?
Naya - Fui um empresário que conquistou tudo com muito trabalho e perseverança. Quanto à tragédia, essa se deu por erro de cálculo na distribuição dos pilares. Uma fatalidade, vez que o calculista era tido como competente. Por isso fui absolvido em todas instâncias e tribunais. Não tive culpa pela tragédia. Hoje respondo pela parte civil, mas criminalmente estou inocentado. Como empresário da construção civil, investi na construção somente em países do primeiro mundo (EUA e Espanha) e como parlamentar nunca recebi auxilio moradia, nem empreguei qualquer parente, por mais competência que tivessem. Emprestei para parlamentares pouco mais de 30 apartamentos e as obras que fiz foram quase na totalidade com recurso próprio. Considero ter sido cassado por ser um dos parlamentares que mais levava recurso para Minas Gerais, Estado que me elegeu, e doações particulares como cadeiras de roda motorizadas, cobertores, maquinas hemodiálise e quites (tijolo e telha) para construção de casas populares. E isso, ao meu ver, foi objeto de perseguição política, pois o decoro parlamentar não foi quebrado com a tragédia do edifício.
Folha Online - O senhor tem planos para este ano? Pensa em voltar para a política nos próximos anos?
Naya - Não volto para política.
Folha Online - Qual destino o senhor acha que deve ser dado ao terreno do Palace 2? Já se considerou construir um novo prédio ou um memorial no local.
Naya - [O Palace 2] Foi comprado através do crédito no processo pelos próprios moradores que darão o destino que acharem adequado.
Folha Online - Os advogados das vítimas do Palace 2 afirmam que o terreno não tem o RGI (Registro Geral de Imóveis) por apartamento, apenas do terreno geral, que engloba também o Palace 1. Por que o registro foi feito dessa forma?
Naya - Enquanto se estava providenciando a documentação definitiva, houve a tragédia.
Folha Online - O que a queda do Palace 2 representa na vida do senhor? O que o senhor sente quando passa por lá?
Naya - Nunca mais passei no local.
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