Cotidiano
22/02/2008 - 07h04

Para testemunha, queda do Palace 2 pareceu colisão de avião

LUISA BELCHIOR
Colaboração para a Folha Online, no Rio

Alguns dormiam, outros assistiam televisão ou ainda estavam em festas, cinema ou restaurantes, no que era, até então, um típico sábado de Carnaval no Rio. Mas todos que presenciaram o drama do Palace 2, há dez anos, guardam na memória os momentos entre os primeiros estalos e o desabamento de parte do prédio.

Como era a noite de seu aniversário, a médica Rúbia Lima, 53, que mora num prédio em frente à coluna do prédio que desabou, e um dos poucos já construídos na época, acabara de ir dormir. Foi quando, conta, ouviu "um barulho como se tivesse um caminhão com pedras gigantes andando em quebra-molas, um terremoto, um barulho grande".

"Eu dormia com a janela aberta e achei que tinha batido um avião no prédio. Vi fogo, estouros de eletricidade e muito grito". Como estava escuro, porém, a médica não conseguiu ter a dimensão do que acontecera. Quando amanheceu, a cena, conta ela, era avassaladora.

"Cheguei na sala quando clareou e estava tudo em volta coberto de poeira e muita terra. Os carros, a piscina e as árvores tinham a mesma cor marrom, o que eu acho que indica que não havia só concreto na construção. Vimos uma abertura em cada andar e só depois entendemos que eram o corredor das casas, porque ainda tinham quadros pendurados na parede".

"Como era Carnaval, tinha muita gente viajando. Se esse prédio tivesse caído no Réveillon, muito mais pessoas teriam morrido, porque fizeram muitas festas lá", lembra Marlane Pinheiro. Na noite do desabamento, ela também comemorava seu aniversário quando desceu do prédio com a roupa do corpo e a bolsa para nunca mais subir. "Olhando pelo lado bom, ganhei um presente: o de eu e minha família termos ficados vivos".

Nem todos receberam o mesmo "presente". Oito pessoas morreram no desabamento do prédio.

Uma das vítimas é Fátima Ferraz, 36, que morava no prédio com o filho, o marido e a mãe, a aposentada Arialva Ferraz, hoje com 66 anos, e que havia se mudado de São Paulo para ficar com a filha na nova casa. Durante a madrugada, Fátima --que havia saído com o marido-- recebeu uma ligação de Arialva pedindo que voltasse porque os moradores estavam assustados com estalos na construção, conta o irmão de Fátima, o empresário Álvaro Ferraz, 49.

Como outros moradores, ela subiu com a mãe para pegar documentos. Momentos depois, a coluna onde ficava seu quarto desabou. "Fátima foi para um quarto e minha mãe para o outro. Minha mãe falou para elas descerem logo, e foi aí que a coluna desabou. A Fátima ainda gritou pedindo ajuda", relembra Álvaro.

Mesmo em desespero, a mãe de Fátima ainda teve forças para descer pelas escadas atrás da filha, que não resistiu à queda. "Minha mãe hoje mora no interior de São Paulo e ocupa todos os segundos do espaço dela para não lembrar disso", diz o irmão de Fátima.

 

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