Manual de avião que caiu no Rio proíbe uso de querosene, diz delegado
LUISA BELCHIOR
Colaboração para a Folha Online, no Rio
A fabricante do motor do avião que caiu domingo (2) no Rio, matando quatro pessoas, informou nesta quarta-feira que a aeronave não podia, sob nenhuma circunstância, ser abastecida com querosene de aviação, segundo depoimento colhido pelo delegado que investiga o caso.
A nota fiscal da operação de abastecimento do avião no terminal do aeroporto de Jacarepaguá (zona oeste), a que a Folha Online teve acesso, mostra que foi feita venda de querosene, e não de gasolina, como indicaria o manual. Quem assina e autoriza a operação é o dono da aeronave, o empresário Joci José Martins, e não o piloto Frederico de Tolla, como seria de praxe, de acordo com a Infraero --estatal que administra os aerportos. Os dois morreram no acidente, além de outros dois passageiros.
Em depoimento na tarde desta quarta-feira na 16ª DP (Barra da Tijuca), o representante técnico da empresa Teledyne Continental --que fabrica o motor do avião, um Cirrus SR 22, prefixo PR-IAO--, Edgardo Martedi, entregou cópias do manual da aeronave alertando para risco de pane no motor no caso, disse o delegado titular da 16ª, Carlos Augusto Nogueira Pinto. Na saída da delegacia, Martedi não quis falar com a imprensa.
"Ele entregou tanto o manual que vai da fábrica para o fabricante quanto o que vai do fabricante para o comprador do avião, e eles dizem que, se for usado algum combustível que não gasolina [no Cirrus SR 22], o motor vai ser danificado na primeira vez que a aeronave exercer potência de decolagem", declarou Nogueira Pinto.
A informação, para o delegado, reforça a hipótese de que a causa da queda do avião tenha sido o abastecimento com querosene. A polícia não sabe ainda, contudo, por que houve a opção por esse combustível. Nogueira Pinto afirmou ter conversado com profissionais da área que garantiram que Tolla, o piloto da aeronave, não cometeria o erro, dada a experiência que tem com aviação.
"Acho que se fosse o piloto [que tivesse abastecido], não teria havido esse engano. Tenho para mim que o dono do avião sabia que ele estava comprando querosene".
O delegado disse suspeitar ainda que a opção pelo querosene como combustível possa ter surgido em um congresso de aviação em Volta Redonda (sul fluminense) que as vítimas haviam participado no último fim de semana. Eles saíram do encontro no domingo, segundo Nogueira Pinto, e pararam no aeroporto de Jacarepaguá para abastecer e, depois, seguir para Santa Catarina.
"Por que logo depois desse encontro eles optaram por colocar querosene [no avião]?", questionou o delegado. Participantes do congresso serão ouvidos, segundo Nogueira Pinto.
A nota fiscal emitida pelo terminal do aeroporto para a venda de combustível para o Cirrus SR 22 traz, como produto de venda, a inscrição querosene de aviação e a sigla QAV1, que representa o combustível. A assinatura que consta na nota é similar às dos documentos do empresário Joci José Martins apreendidos pela polícia no local da queda, e aos quais a Folha Online também teve acesso.
Martins tinha um certificado de capacidade física para a atividade de piloto privado da Anac (Agência Nacional de Aviação Civil). Não possuía, contudo, o brevê, documento que o autoriza pilotar aeronaves, afirmou o delegado Carlos Augusto Nogueira Pinto.
O titular da delegacia da Barra informou que ainda deve ouvir cerca de 150 pessoas sobre o caso. A Aeronáutica faz investigação paralela, que tem prazo de cerca de três meses para ser concluída.
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