Adolescente mata monitor em casa de convivência em São Carlos (SP)
GEORGE ARAVANIS
da Folha de S.Paulo, em São Carlos
O monitor Artur Carlos de Lima, 38 anos, foi morto com três tiros ontem (11) à noite dentro da Casa de Convivência Lucas Perroni Júnior, em São Carlos (232 km de São Paulo). O acusado é um garoto de 16 anos que estava internado na casa. O motivo: o monitor teria repreendido o adolescente por entrar com drogas na casa.
A casa de convivência é uma unidade de regime semi-aberto para menores infratores mantida pela ONG (organização não-governamental) Salesianos, que recebe recursos do Estado por meio de convênio com a Fundação Casa (ex-Febem). A ONG é ligada à Igreja Católica e também administra o NAI (Núcleo de Atendimento Integrado) da cidade.
O acusado foi apreendido pela polícia horas depois na residência de outro menor internado, para onde havia fugido. Ele e o amigo estão numa cela da Delegacia Seccional. Com eles, foi encontrada a arma do crime, um revólver calibre 38.
Por meio de um acordo entre o juiz da Infância e Juventude, João Galhardo, e a administração da casa, o funcionamento da unidade foi suspenso provisoriamente.
O mantenedor da unidade, padre Agnaldo Soares, e a Prefeitura de São Carlos dizem que o crime foi "uma fatalidade". Segundo Soares, nunca houve casos de agressão de internos contra monitores desde a fundação da casa, há 8 anos.
Em entrevista à Folha, a mãe do acusado, A.F.S, 40, disse que a culpa é do sistema "frouxo" da casa de semiliberdade e do NAI, onde o garoto já tinha sido internado três vezes.
O crime ocorreu por volta das 21h. O menor Paulo (nome fictício) saiu por volta das 19h e voltou sob efeito de drogas duas horas depois, segundo o padre que administra a casa.
"O monitor foi repreendê-lo e o garoto atirou três vezes contra ele", disse Soares. No momento dos disparos, além do acusado e de Lima, estavam na residência mais seis adolescentes e outro funcionário.
O corpo de Lima, que morava em Itirapina, foi sepultado ontem à tarde em Macaúba. A Folha não conseguiu localizar a família dele. Ele era casado e tinha quatro filhos.
Segundo o padre, o crime surpreendeu a todos, pois Paulo era tranqüilo. "Ele sempre foi muito sossegado, não dava problemas aqui na casa."
O delegado seccional, Rogério Vita, informou que o garoto não disse como e onde conseguiu a arma. O juiz Galhardo vai decidir a medida socioeducativa que será aplicada no caso.
Na casa de convivência, os menores podiam sair durante o dia para estudar, mas tinham de voltar à noite. O local conta com três quartos com 13 camas, sala de oração, cozinha, sala para assistir televisão, mesa de pebolim e de pingue-pongue.
"Pedi para não deixar meu filho sair"
A mãe de Paulo, A.F.S, 40, diz que pediu várias vezes ao juiz da Vara da Infância e Juventude de São Carlos, João Galhardo, para que não deixasse seu filho sair da unidade nos fins de semana. "Ele piorou depois que entrou no NAI e na semiliberdade. Eles passam muito a mão na cabeça." Leia, a seguir, entrevista que A.F.S concedeu à Folha, na porta de sua casa.
Folha- A senhora acredita que seu filho cometeu o crime de que é acusado?
A.F.S - Não duvido. O que não consigo entender até agora é como ele teve coragem de matar um pai de família que tinha 4 filhos.
Folha - Ele era usuário de drogas?
A.F.S - Sim, começou a usar maconha há uns dois anos. Mas era um bom menino. Já havia sido preso por tráfico três vezes. Ia para o NAI, ficava 5 dias lá e saía.
Folha - A senhora acha que o NAI e a casa de convivência não funcionam para recuperar menores?
A.F.S - Não funcionam. É tudo muito frouxo. Passam muito a mão na cabeça deles. Meu filho usava drogas lá dentro [da casa]. E ele ainda vinha aos fins de semana para casa. Nunca concordei com isso e pedi ao juiz para não deixar ele sair.
Folha - O juiz concordou?
A.F.S - Pouco depois que pedi, o Paulo [nome fictício] fugiu por causa de uma discussão lá dentro. Foi recapturado e aí, por causa disso, ficou sem poder sair aos finais de semana.
Folha - Qual castigo a senhora acha que seu filho merece agora?
A.F.S - Tem de ir pra Febem [Fundação Casa]. O resto não funciona.
Folha - A senhora acha que o modelo de internação influenciou o crime?
A.F.S - Sim, meu filho piorou depois que entrou no NAI a primeira vez. Perdeu o respeito, viu que não acontecia nada.
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